A DERROTA DE CORBYN, UMA CONSEQUÊNCIA DA CRISE POLÍTICA A OCIDENTE – VII – COMO BORIS JOHNSON ACABOU COM O INTERREGNUM SOBRE O BREXIT – por MAURICE GLASMAN

 

How Boris Johnson Broke the Brexit Interregnum, por Maurice Glasman

The Full Brexit, 20 de Dezembro de 2019

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

 

Boris Johnson acabou com o impasse Brexit através da transformação da base de classe do Partido Conservador, renovando o seu partido por uma geração, assaltando e captando  as terras do coração dos Trabalhistas, alinhando o Brexit com a renovação nacional, e expondo as divisões de classe dentro dos Trabalhistas, ao colocar o  Partido Conservador ao lado dos pobres.

Com um só  lançamento dos dados, Boris Johnson acabou com o interregno Brexit. Após três anos de frenética inércia, ele resolveu o impasse através da transformação da base de classes do Partido Conservador. Ao fazer isso, ele renovou o seu partido por uma geração e rasgou as terras do coração dos trabalhistas, alinhando o Brexit com a renovação nacional e expondo as divisões de classe dentro dos trabalhistas, ao lado dos pobres.

Embora os Conservadores liderassem todas as classes sociais, a sua liderança na classe trabalhadora qualificada e não qualificada era particularmente enfática. Boris não tem igual no governo. Não há uma oposição coerente, a sua maioria é inexpugnável e todos os seus deputados subscreveram a sua agenda. Salve César. Conheça o novo Rei da Inglaterra Feliz. O bom Rei Boris.

O seu objetivo é tornar o seu domínio hegemónico através de duas medidas. A primeira é identificar os Tories com a classe trabalhadora e as cidades do campo e distanciá-los de Londres e das finanças. Putney foi ganha pelo  Labour e Bolsover foi ganha pelos Conservadores.  Procure a diferença nos preços das casas entre os dois. É uma polarização de classe contra a elite financeira e cultural dominante.

Os ministros foram proibidos de ir a Davos. O voto dos Conservadores desceu em todos os condados, especialmente nas áreas mais próximas de Londres. Essa foi a lógica que esteve por detrás  da prorrogação do Parlamento e da expulsão dos Remainers rebeldes do Partido. Os Conservadores ficaram felizes por eles terem votado Lib-Dem e Labour. Em vez disso, o partido concentrou-se inteiramente nas cidades e vilas do Norte e do Sul, no campo e na classe trabalhadora pós-industrial, a base da coligação Brexit. “Que se lixem os negócios.” Os Conservadores serão mais do norte e serão proletários e Boris beberá cerveja com os seus novos deputados nos muitos bares do Parlamento. Os Cavaliers vão dominar sobre os Puritanos.

O segundo passo foi romper com a ortodoxia  orçamental  e defender  o Estado ativista. Esperem até ver mil autocarros encher as estradas das zonas rurais da Inglaterra em parceria com o governo local. Esperem até ver  um boom de construção de casas. O PM violará com prazer as regras da UE sobre auxílios estatais e leis de concorrência, enquanto os Trabalhistas se apegarão às restrições do mercado único e às decisões do  Tribunal de Justiça da União Europeia.

Durante a campanha eleitoral, os Conservadores prometeram ajuda estatal às pequenas empresas regionais, mas não salientaram que metade do manifesto trabalhista teria sido ilegal nos termos da legislação da UE. Eles renunciaram silenciosamente ao Thatcherismo. Boris será o herdeiro de Keynes enquanto os trabalhistas defenderão a retidão de Hayek para sempre consagrada no Tratado de Lisboa e a sua soberania sobre o mercado único e a união aduaneira. Enquanto Boris apontará a distinção entre livre comércio e livre circulação, os Trabalhistas não sabem  a diferença entre os dois conceitos. O interregno foi quebrado, e como em 1979 foi quebrado a favor da  direita.

O Papa Francisco disse recentemente que não estamos a viver uma época  de mudança, mas uma mudança de época. Esta vitória conservadora é uma parte importante para definir quais são as características da nova era. O consenso anterior foi definido por quatro pressupostos comuns; que o Estado-nação, a democracia, a classe trabalhadora e o conservadorismo teriam menos importância. As forças dominantes eram a classe média educada, a globalização, as constituições escritas e o liberalismo. Blair e Cameron expressaram isso perfeitamente.

​Brexit é um sinal dos tempos, um vislumbre do futuro, mas a mente progressista só pode vê-lo como reacionário, nostálgico e retrógrado. O papel decisivo da classe trabalhadora na afirmação da soberania nacional através do seu voto democrático, a fim de renovar as antigas instituições do Parlamento e da lei comum, é incompreensível para a esquerda. A nova era é um país estrangeiro para aqueles que pensavam que o arco da história estava com eles.

A escala da derrota dos trabalhistas na passada quinta-feira é difícil de compreender para a mente progressista. Como a morte de um ente querido, que sobreviveu antes a uma terrível doença, é ao mesmo tempo chocante e previsível. As respostas de culpa, fuga, negação, raiva, deslocamento e depressão da família trabalhista também são chocantes e previsíveis. O  Partido Trabalhista é como uma família vinda do inferno. Cheia de ódio e culpa e incapaz de entender como é que chegou até aqui. Os trabalhistas já não são uma tribo e perderam a sua pátria. Vai ser de solidão  este Natal.

Isto porque o Partido Trabalhista está fora de relação com a sua história, tradições e comunidades que o criaram e acarinharam. Tão desfasada que não podia ver a rejeição que se avizinhava. Partilha agora o destino entrópico dos partidos trabalhistas francês, italiano, alemão, belga e holandês, que se reduziram progressivamente à irrelevância, substituídos por partidos nacionalistas e verdes no seu conjunto. Esvaziados dos seus objetivos nacionais pelas restrições da União Europeia, a social-democracia não tem uma conceção do social, ou da democracia. Os trabalhadores partilham agora o seu destino, o que significa irrelevância e reuniões intermináveis que não levam a lado nenhum. Apenas um lento e inexorável declínio. Marca o fim do excecionalismo britânico de esquerda, tal como nós deixamos a UE.

Poderia ter sido tão diferente. Em 2017, quando os trabalhistas disseram que respeitavam o resultado do referendo, deram a seguir um grande salto durante as duas últimas semanas da campanha. Os Conservadores, que se candidataram à política de “perder a cabeça, perder a casa”, transformaram uma eleição Brexit numa discussão sobre as consequências financeiras da demência.

Havia sinais  de desinteresse quando Mansfield e North Derby viraram azuis; mas o coração da Inglaterra trabalhista acreditava que Corbyn era um filho fiel de Tony Benn, Corbyn que tinha  passado a vida inteira a denunciar  a UE como um clube capitalista onde ninguém era responsável. Contra a corrente da Europa continental, só o Labour era um partido social-democrata vital e renovado, empenhado na nacionalização e na redistribuição da riqueza. Brexit era uma fonte de renovação socialista e a democracia foi reafirmada como o meio de resistir ao domínio dos ricos e às suas décadas de pilhagem implacável. Mas, então, os trabalhistas de Corbyn renunciaram ao Brexit.

Uma das razões pelas quais o resultado das eleições parecia tão chocante era que a classe trabalhadora era suposta  estar do lado errado da história, para já não se dever considerar como relevante. Apesar do resultado do referendo Brexit, partiu-se do princípio de que a tarefa dos trabalhistas era construir uma coligação de eleitores “progressistas” em torno de um segundo referendo a que chamavam “o voto do povo”. A diferença entre 2017 e 2019 foi que a classe trabalhadora notou que os Trabalhistas estavam a bloquear o Brexit e a negar a legitimidade do seu voto (ver Analysis #42 – Labour Lost Because it Failed to Grasp the Democratic Opportunity of BrexitAnalysis #43 – The Workers’ Revolt Against Labour) – O Partido Trabalhista perdeu porque não agarrou a oportunidade democrática do  Brexit; Análise #43 – A Revolta dos Trabalhadores Contra o Partido Trabalhista). O Partido Trabalhista de Corbyn está do lado do capitalismo global. É uma pequena ironia que Andrew Murray e Seamus Milne, que se orgulhavam da sua análise marxista com um papel central para a classe, tenham feito uma campanha baseada em “valores” e tenham sido batidos pelos  conservadores que colocaram uma pressão enormíssima sobre a  classe trabalhadora e conseguiram transferiram as suas lealdades. Os marxistas trabalhistas acabaram por ser Whigs, ou seja  liberais,. Que grande quantidade de bagagem para uma viagem tão curta.

A profunda cumplicidade entre o New Labour  e o Projeto Corbyn foi mostrada aqui. A progressista  certeza era de que a história ia numa direção, rumo à livre circulação de pessoas e coisas, de que a tecnologia dissolveria lugares e fronteiras num redemoinho indiferenciado em que só o indivíduo e o direito dos Tratados importavam.

Que o futuro se baseava na globalização era inquestionável entre eles, assim como a ideia de que o Estado-nação e a democracia já não eram realmente importantes.  Esta teoria Whig da história é tão falsa agora como sempre foi. A classe trabalhadora, o Estado-Nação e a democracia são características chave da nova era. Longe de serem perdedores, a classe trabalhadora pós-industrial decidiu os dois votos mais significativos do nosso tempo.

E a esquerda foi a perdedora. A doença progressista dissolveu os laços que unem porque não tem noção da sociedade, do social, da pertença e da herança. Presa em um agora sem fim, perdeu a ideia de futuro. A coligação de Peter Mandelson e John McDonnell que ligou os trabalhistas a um segundo referendo é a chave para compreender a derrota catastrófica porque acabou por romper a ligação entre a classe trabalhadora e os trabalhistas. Era dito que a classe trabalhadora  não  sabia o que se estava a fazer. Era dito  que a democracia não decide os problemas da nossa sociedade. Era dito  que não havia fé no nosso país para decidir o seu futuro através da política democrática, mas que este tinha de ser sujeita a  um sistema de diretivas e leis que não tinham contas a dar a ninguém.

Ao adotarem  um segundo referendo, os trabalhistas cruzaram a linha. Já não apoiavam  mais os trabalhadores que confiavam mais na democracia do que no Tribunal Europeu de Justiça quando se tratava dos seus direitos. Os Trabalhistas pensavam que as consequências seriam catastróficas e não mostravam confiança em que o nosso país pudesse florescer fora de um capitalismo sem fricções. A esquerda tornou-se subitamente especialista em cadeias de abastecimento just-in-time como se o capitalismo, o sistema económico mais adaptável alguma vez concebido, não fosse capaz de lidar com isso. Eles não eram fiéis ao casamento e este  agora acabou. Não há evidências de que  possa haver uma reconciliação.

Nas últimas eleições, os Trabalhistas perderam Mansfield por mil votos. Agora a maioria é superior a 16.000. A classe trabalhadora escocesa não voltou aos trabalhistas, mas mudou-se para um partido nacionalista e não mostra sinais de remorso. Uma vez rejeitados, eles seguem em frente e não olham para trás. No recente livro de Michael Lind, The New Class War, este  faz a ligação entre classe e geografia, entre os centros urbanos e as terras do coração da Inglaterra trabalhista. Os trabalhistas são o partido dos centros, mas os conservadores agora reivindicam as terras do coração trabalhista.

E para além da devastação imediata da derrota, está o horror existencial do que ela significa. A ruptura do casamento a longo prazo com a classe trabalhadora que criou o Partido Trabalhista em primeiro lugar. Abre o espaço para a emergência de um partido genuinamente populista de direita, como alternativa ao Partido Trabalhista e aos Conservadores. O Partido Brexit é apenas um sabor suave do que o futuro pressagia. O voto dos Conservadores aumentou apenas alguns por cento em geral, muitos antigos eleitores trabalhistas foram para o Partido Brexit. O que ficou claro é que o voto dos trabalhistas caiu nas terras do coração e o Partido Brexit economizou mais assentos trabalhistas do que perdeu.

A glória dos trabalhistas foi a sua capacidade de expressar o interesse trabalhista no quadro das instituições parlamentares e legais herdadas, afirmando a política democrática como uma alternativa à violência. Enquanto o resto da Europa se polarizou e se tornou fascista ou comunista, os trabalhistas mantiveram os afetos da classe trabalhadora e envolveram-se na política de guerra e de paz. Derrotando os nazis  na Coligação de Guerra e, depois, criaram  o Serviço Nacional de Saúde, nacionalizaram o o aço, o carvão e s caminhos-de-ferro e  criaram  o Fundo Nacional e o Cinturão Verde.

As virtudes do civismo,.  generosidade e gentileza na praça pública são fáceis de perder e difíceis de manter. O  Partido Trabalhista foi a fonte dessa política e com o seu afastamento das comunidades da classe trabalhadora que representava, surge agora uma política amargurada e ressentida. Algo que está mais próximo da Frente Nacional ou da AfD na Alemanha.

O novo Governo precisa de oferecer algo mais do que sucesso eleitoral e alguns projetos de infraestruturas; precisa de construir sobre a política de ganhar e pertencer, de contribuir e de  renovar o comportamento de civismo. Ao longo dos últimos 40 anos, os condados e cidades do nosso país foram desvalorizados em relação aos seus bens e à sua herança. Nenhuma das sociedades construtoras que foram desmutualizadas nos últimos 40 anos existe  agora  como instituições locais. A dotação dos bancos regionais para que haja novamente acesso ao capital é uma parte essencial disso. O reconhecimento da vocação é também essencial e a criação de escolas profissionais para a construção, manutenção, assistência social e condução de táxis com leis de aprendizagem que regulamentem a entrada no mercado de trabalho abordariam as competências necessárias para construir lares, cuidar dos idosos e dos 85% da economia que funciona fora da globalização.

A dignificação do trabalho é o fundamento disto. Ela deve ser a base da alternativa do Partido Trabalhista. A questão central para os próximos dez anos é saber se os Conservadores podem reconhecer que o seu futuro está a  partir de agora  ligado ao trabalho.

Sobre o Autor

Maurice Glasman is a member of the House of Lords and the founder of Blue Labour.

 

Para ler este artigo no original clique em:

https://www.thefullbrexit.com/johnson-brexit-interregnum

About joaompmachado

Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.

%d bloggers like this: