A ITÁLIA NA ENCRUZILHADA – IX – DO CORAÇÃO AO CONTÁGIO – por ANNA ROSA SCRITTORI

 

 

                                                                              O vírus enfurece

                                                                              Falta-nos o pão

                                                                              Sobre a ponte flutua

                                                                              Bandeira branca

Os versos do poeta Aleardo Aleardi descrevem, com ênfase romântica, a situação de Veneza em Julho de 1849, quando a renascida República Véneta, guiada pelo último doge Daniele Manin, teve que ceder ao ataque do exército austríaco, até pela explosão de uma terrível epidemia de cólera.

Em Veneza e em toda a Itália parece-nos hoje viver as fases terríveis de muitos eventos extraordinários que, no passado, mudaram o curso da História: a tremenda pestilência de 1347-48, citada no “Decamerone” de Boccaccio, a de 1630 (descrita por Manzoni nos “Promessi Sposi”, obra traduzida em Portugal com o título “Os Noivos”) e, mais recentemente, a febre “espanhola”, que causou um grande número de vítimas durante a primeira guerra mundial.

Então os contágios eram o resultado de contactos e comércio com mundos estranhos por hábitos e estilos de vida ou pela promiscuidade da guerra; agora a infecção é o fruto da civilização e do mercado global que, em pouco tempo, conseguiu criar uma rede ilimitada de relações comerciais e de lucros que transformam até o ambiente natural. No âmbito de tal mecanismo inseriu-se um agente estranho, produto de uma mutação genética que dos animais se transferiu para o Homem. Desde o último Outono o coronavírus está a viajar em todo o mundo, primeiro na China e na Coreia, depois através do Irão em toda a Europa, nas Américas e agora também em África. Trata-se de um agente patogénico particularmente insidioso porque é desconhecido; infecta o aparelho respiratório provocando, nos casos mais graves, fortes pneumonias para as quais, neste momento, não existe nem tratamento específico e muito menos vacinas.

“A China está próxima”

Os primeiros sinais da presença do vírus em Itália, em meados de Fevereiro em dois pequenos centros da Lombardia e do Véneto, foram inicialmente subestimados como formas graves de doenças da época; só num segundo momento, quando as graves patologias pulmonares dos primeiros doentes foram diagnosticadas como efeito do coronavírus, desconhecido e muito perigoso, se adoptaram as medidas indispensáveis para conter a difusão: isolamento dos pacientes, inquérito sobre os seus contactos e quarentena das pessoas, encerramento ou desinfecção dos sectores ou dos hospitais infectados.

Diferentemente do que aconteceu na China, que em Wuhan, depois dos conhecidos atrasos na comunicação, tinha imposto medidas severas para conter a difusão do vírus, como a paragem de todas as actividades e a obrigação de os cidadãos se submeterem a controle apertado, a Itália, país democrático, adoptou intervenções progressivas: encerramento limitado às zonas de contágio, desenvolvimento da investigação sobre a natureza do vírus e possíveis fármacos, potenciamento da rede hospitalar, envolvimento da população na acção de contenção. Mas, como se sabe, o vírus não respeita os confins e, de facto, em pouquíssimo tempo, a curva da infecção daqueles pequenos centros em quarentena espalhou-se para as grandes cidades da Lombardia, nas proximidades de Milão, Bérgamo, Bréscia e,em seguida, também nas regiões limítrofes; compreende-se então que o contágio acontece não só a partir dos doentes mas também, e sobretudo, através dos portadores sãos, os chamados assintomáticos. No início de Março, a Itália do Norte torna-se o centro de uma verdadeira emergência sanitária: milhares de contágios todos os dias, centenas de mortes dos mais débeis, enquanto o sistema sanitário, um dos melhores do mundo, arriscava o colapso. O imperativo absoluto consistia em conter o contágio antes que chegasse às regiões do Sul, cujo sistema hospitalar é muitas vezes precário. A discussão entre os especialistas vertia também sobre o modelo adoptado contra a expansão viral na Coreia, em que sofisticados sistemas informáticos, usados para detectar, através do telemóvel, os possíveis portadores sãos do vírus, tinha permitido conter sobretudo a percentagem de mortos. À espera de testar as possibilidades futuras de semelhante controle sobre a curva do contágio, o governo italiano decidiu a suspensão total: escolas fechadas, as universidades, os museus, os teatros, proibidas as deslocações não indispensáveis, suspensas todas as actividades, excepto as essenciais, cidades desertas muitas vezes controladas pela polícia, cidadãos convidados a ficar em casa. Nas grandes cidades do Norte (Milão, Bérgamo, Piacenza) os únicos movimentos são agora os das ambulâncias que transportam os doentes para os hospitais ou os mortos para os cemitérios. Em Veneza, vive-se uma atmosfera surreal, sem turistas mas também sem o contacto quotidiano entre os venezianos, as conversas que fazem parte do tecido social da cidade.

Somos todos europeus?

A emergência sanitária destes meses cruza-se obviamente com uma profunda crise económica e social que mudará o futuro da Itália; a suspensão de todas as actividades provocou ingentes perdas para as empresas e para os trabalhadores, mas acentuou também as diferenças sociais entre os cidadãos. Se, por exemplo, a escola se faz via on line é evidente que os alunos que não possuem um computador estão em desvantagem…

Numa tal situação, o governo italiano decidiu aumentar o seu já pesado débito destinando, por várias etapas, ingentes quantias de dinheiro para potenciar os hospitais, apoiar as empresas, indemnizar os trabalhadores e as famílias em maior dificuldade. Além disso, de acordo com os outros países do Sul, pediu à Comissão Europeia que promova uma política sanitária comunitária e que ajude a crise financeira dos vários países empenhados na emergência vírus com a emissão de eurobonds, títulos de crédito descontados do fundo comum europeu de desenvolvimento, e não dos balanços de cada país. Por agora, por resistência dos países do Norte da Europa, o Conselho dos Chefes de Estado adiou a decisão mas, neste caso, arrisca-se a fazer saltar o projecto antigo de uma Europa unida e solidária. Mas nós, italianos, estamos convencidos que venceremos a crise.

(Veneza, 25 de Março de 2020).

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