CRISE DO COVID 19 E A INCAPACIDADE DAS SOCIEDADES NEOLIBERAIS EM LHE DAREM RESPOSTA – XXXI – DEPOIS DO CORONAVIRUS NADA SERÁ COMO DANTES? – por VINCENZO COMITO

 

Dopo il Coronavirus niente sarà più come prima?, por Vincenzo Comito

Sbilanciamoci!, 20 de março de 2020

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

 

A esperança é que, após a tempestade sanitária, económica e financeira desencadeada pela disseminação da Covid-19, as coisas mudem para melhor. No entanto, na Itália, na Europa e no mundo, há muitos sinais que não são nada encorajadores.

Nos jornais e na televisão há um número crescente de comentadores que apontam como a crise do coronavírus tem mostrado as graves deficiências do atual modelo de desenvolvimento em termos económicos, sociais e políticos, pensando que, após a crise, tudo vai mudar.

Devemos voltar a uma maior intervenção do Estado, a um reforço dos sectores da saúde, da escola e da investigação, em paralelo com uma renovação quase total de uma classe dominante que mostrou, pelo menos no Ocidente (com a Itália entre os países líderes), o seu fracasso. E registar, no nosso país, aquilo a que a saúde pública foi reduzida nos anos de governo do centro-esquerda e centro-direita, pode fazer com que se deseje que as coisas mudem rapidamente.

Mas eu gostaria de não ter muitas ilusões. Já depois da crise de 2008, muitas pessoas pensavam que as coisas iriam mudar consideravelmente, pelo menos na frente financeira, e muitas declarações de políticos mesmo dos muito autoritários,  tinham ido nessa direção. Mas, após a tempestade, as classes dominantes, já então claramente incapazes de entender e querer, voltaram indiferentes ao velho negócio, com o resultado de que a situação continuou a deteriorar-se.

Então essa crise já tinha mostrado que eles estão exaustos, incapazes de qualquer projeto, de qualquer visão além de tentarem  apegar-se ao poder e fazer o que os vários grupos de interesse privados lhes ditam de tempos em tempos (Monbiot, 2020). Os casos de Johnson e Trump (no caso dos países anglo-saxões, veja-se  novamente o belo artigo em Monbiot, 2020) são particularmente marcantes nestas semanas, mas  também Merkel, para não mencionar Macron, Lagarde e outros atores mais ou menos menores, pois parecem ter perdido completamente o rumo.

Na ausência de uma força antagónica, o nosso mundo parece destinado a um declínio ainda maior e inexorável. Por esta razão seria necessário iniciar novos processos de reflexão e uma nova temporada de lutas, mesmo que pareça difícil.

A propósito de  hábitos antigos

Por outro lado, por enquanto, estamos a registar a continuação de tendências antigas de muitas formas. Vamos apenas lembrar-nos de alguns delas.

Entretanto, a crise pôs mais uma vez em evidência as diferenças evidentes entre ricos e pobres: Berlusconi retira-se para uma villa na Côte d’Azur, enquanto os abastados, como assinala Michel Onfray, deixam Paris para se refugiarem em residências de campo e os menos abastados parisienses são obrigados a ficar na cidade em poucos metros quadrados de espaço; em particular (mas não só) nos países anglo-saxónicos há ofertas de arrendamento de casas de luxo em lugares muito isolados, claro que a preços adequados. Finalmente, os chineses ricos do Ocidente alugam aviões particulares para fugir da Europa e dos Estados Unidos e voltar para o seu país .

Alguém aponta que os vários governos estão alocando sob várias formas milhares de milhares de milhões – pelo menos oficialmente – para combater o coronavírus (mas nem mesmo os mercados confiam neles), enquanto os investimentos para salvar o planeta da crise ambiental, um problema ainda mais grave que está sobre a mesa há muitos anos, definham miseravelmente.

Uma nova crise económica e financeira

Tão grave, se não mais grave que a crise sanitária, a crise económica e financeira, que parece destinada a durar muito tempo, aparece em perspectiva, se considerarmos então que as consequências da crise anterior, a de 2008, ainda hoje se fazem sentir de alguma forma.

O vírus tem simultaneamente a oferta e a procura comprimida (Wolf, 2020). Todos os sectores de atividade estão a desaparecer, esperemos que apenas temporariamente, os setores do entretenimento, viagens, turismo e restauração. E mesmo que os sectores em maior crise acabem por se recuperar de alguma forma, muitos negócios não voltarão a abrir

Entre outras coisas, é plausível uma queda dramática da procura em relação à falta de encomendas para as empresas, a rutura das redes logística e de abastecimento, a redução do emprego e dos níveis salariais, enquanto a incerteza que esta situação tende a criar pode contribuir para quedas dramáticas na economia (Sandbu, 2020). Assim, por exemplo, espera-se que uma forte onda de despedimentos de Casselman e outros esteja a amadurecer  nos Estados Unidos (Sandbu, 2020).

Tanto mais que, como indicado num artigo anterior, estamos a enfrentar um enorme nível de endividamento em todo o mundo. Por outro lado, os mercados financeiros globais (principalmente ações e obrigações), inflacionados pela liquidez e especulação, cresceram até quatro vezes o tamanho da economia real, atingindo um nível superior ao observado na véspera da crise de 2008 (Sharma, 2020). Muitas empresas americanas, particularmente no sector da energia, estão a lutar para reestruturar a sua dívida nestes dias.

Alguns também preveem que a União Europeia precisa de pelo menos 500-1000 bilhões de euros de estímulo aos setores produtivos. A rapidez de intervenção também parece essencial. A nível global, a IATA estima a necessidade de recursos financeiros a curto prazo de 200 mil milhões de dólares apenas para as companhias aéreas, caso contrário, uma grande parte das empresas irá à falência. A Boeing (como de  resto muitas companhias petrolíferas) já está sob pressão e só uma forte injeção de dinheiro do governo poderia salvá-la.

Mas não há só empresas. Uma grande parte da população, mesmo nos países ricos, tem reservas de dinheiro muito limitadas ou inexistentes. Estamos sem dúvida numa situação dramática. Felizmente, esta é uma crise que pode durar por um tempo limitado se os governos fizerem as coisas certas.

Alguns, como Emmanuel Saez e Gabriel Zucman da Universidade de Berkeley (Wolf, 2020), propõe remédios extremos, ou seja, que os governos, face a uma procura que se  evaporou, atuem por algum tempo como clientes substitutos, permitindo que as empresas continuem a pagar aos seus funcionários e a manter as suas fábricas. Esta solução seria melhor do que os empréstimos dos próprios governos, porque estes empréstimos teriam de ser reembolsados, criando um pesado fardo após o fim da crise; no primeiro caso, porém, o programa terminaria naturalmente com o fim da pandemia. E os Estados poderiam então impor impostos adicionais para compensar pelo menos parte das suas despesas anteriores.

Dinheiro a todos?

O Governo italiano, como os de todos os principais países afetados pelo vírus, preparou e está a preparar programas de intervenção financeira bastante massivos. No caso italiano, como é sabido, 25 mil milhões de euros já foram alocados, muitos mais provavelmente chegarão nas próximas semanas e a Cassa Depositi e Prestiti também está a ser  mobilizada com cerca de dez mil milhões; números fantasmagóricos são anunciados em todo o mundo, Trump fala de milhares de milhares de milhões de dólares.

No contexto de uma avaliação globalmente positiva destas intervenções, contudo, é possível expressar algumas reservas: as medidas na direção das empresas devem ter como objetivo o apoio à economia, às empresas e ao emprego. Mas temos de ajudar toda a gente, e dentro de que limites? Os traficantes de armas ou empresas que estavam em crise profunda mesmo antes do ataque do coronavírus?

Por  outras palavras, não existe o risco de se avançar novamente para a fórmula consolidada de lucros privados e prejuízos públicos? Não havia o famoso risco empresarial que justificava o papel do lucro? As empresas, mesmo as pequenas, não deveriam suportar pelo menos parte dos danos? Por outras palavras, devemos ser muito cuidadosos e seletivos nas  nossas intervenções.

Mas ainda maiores dúvidas podem ser levantadas. Como Naomi Klein (Solis, 2020), entre outros, vem apontando há muito tempo, o coronavírus é uma oportunidade bem-vinda para governos e elites globais implementarem programas políticos que, de outra forma, se encontrariam com forte oposição pública. Por  outras palavras, é um bom pretexto para avançar mais uma vez nesse capitalismo de desastres que, aproveitando cada crise, distribui dinheiro para amigos, parentes, lobbies do setor, empobrece o público para enriquecer o setor privado, tornando as desigualdades existentes ainda mais inaceitáveis. Não é que, para financiar empresas amigáveis, Donald  Trump corta programas sociais?

Isso vai salvar a China de novo?

Poucos se lembram, mas a crise de 2008 foi superada no Ocidente – e por uma parte muito importante – graças às ações da China. O país, entre outras coisas através de um programa de estímulo de cerca de 600 bilhões de dólares na época, não só conseguiu registrar um crescimento do PIB de 9,4% em 2009 e 10% em 2010, mas suas empresas iniciaram uma grande demanda por bens e serviços para o resto do mundo, uma demanda que contribuiu significativamente para superar as dificuldades na Europa e nos Estados Unidos.

Pode-se perguntar se desta vez também o país asiático, que já parece estar se recuperando à medida que as fábricas começam a girar novamente e o tráfego rodoviário tende a inchar novamente, terá uma função semelhante. Certamente a recuperação chinesa levará a um reinício da procura de produtos para outros países e isto certamente terá alguma influência na situação, embora se deva considerar que o caos na área ocidental nas últimas semanas irá reduzir o efeito positivo deste reinício.

Será a China que nos vai salvar?

Poucos talvez se lembrem, mas a crise de 2008 foi ultrapassada  no Ocidente – e por uma parte muito importante – graças às ações da China. O país, entre outras coisas, através de um programa de estímulo de cerca de 600 mil milhões de dólares na época, não só conseguiu registar um crescimento do PIB de 9,4% em 2009 e 10% em 2010, mas as suas empresas iniciaram uma grande procura de  bens e serviços a serem fornecidos pelo  resto do mundo, uma procura que contribuiu significativamente para superar as dificuldades também na Europa e nos Estados Unidos.

Pode-se perguntar se desta vez também será o país asiático, que já parece estar  a recuperar  à medida que as fábricas começam a funcionar  novamente e o tráfego rodoviário tende a aumentar  novamente,  que irá terá uma função semelhante. Certamente a recuperação chinesa levará a uma retoma da procura de produtos a serem exportados por outros países e isto certamente terá alguma influência na situação, embora se deva considerar que o caos na área ocidental nas últimas semanas reduzirá o efeito positivo deste princípio de retoma .

Muitos estão à espera, também na Europa e novamente,  de um grande programa público do país asiático para apoiar a economia. Pode ser, no entanto, que a resposta do governo chinês e do banco central chinês seja mais suave do que a anterior; de facto, parece vislumbrar-se muita cautela nas cimeiras políticas e financeiras em Pequim, preocupada com o elevado nível de dívida já existente no país (Weinland, Kynge, 2020).

Portanto, certamente algo será feito, mas talvez não haja uma intervenção maciça. Tanto mais que, desde hoje, a China tem menos incentivos para o fazer, já que o país é muito mais autossuficiente do que em 2008. A questão está de qualquer forma em aberto e também se pode esperar que o empurrão no final seja maciço.

A Europa está pelo menos em coma.

Vamos deter-nos apenas brevemente na política europeia, como muito já foi dito sobre ela nos últimos dias. Estamos perante a extrema fraqueza e lentidão das intervenções em Bruxelas, que só se tornam um pouco mais incisivas quando as coisas afetam diretamente a Alemanha ou a França. De qualquer forma, é evidente que falta a mais pequena solidariedade entre os vários países: uma falta que se manifestou, entre outras coisas, com o encerramento unilateral do espaço Schengen e a recusa, pelo menos inicial, por parte de países como a França e a Alemanha, de fornecer equipamento médico essencial ao nosso país.

Por outro lado, num outro nível, a UE, diante do peso dos EUA e da China, é incapaz de se dar e manter um espaço de movimento autónomo. Trump impõe o que quer, enquanto o país líder do continente, a Alemanha, se ousasse de alguma forma desafiar a China, impedindo a Huawei de instalar sistemas 5G no país, veria o seu sistema industrial, baseado principalmente na venda de carros e produtos mecânicos alemães ao país asiático, entraria  em colapso na  retaliação.

Pedir nestas condições mais Europa ou uma Europa diferente, mais atenta às questões sociais e para aliviar as dificuldades dos países mais fracos, parece uma atitude completamente vã. Nesta altura, talvez fosse boa ideia parar de falar de Bruxelas e considerar a construção da UE e do BCE como ferramentas antigas e algo gastas, que não devem ser deitadas fora só porque podem fornecer alguns serviços limitados de tempos a tempos.

Trabalhar em casa

Finalmente uma pequena nota final. Desde há muitos anos, o trabalho total ou parcial em casa tem vindo a ganhar terreno no mundo dos negócios e dos gabinetes públicos. Agora, por ocasião da crise, a sua utilização está a  tornar-se  muito importante e é certamente e de muitas maneiras um desenvolvimento positivo, o que torna possível continuar a realizar  serviços importantes com uma certa continuidade, mesmo que o seu papel possa talvez estar a ser superestimado.

Por outro lado, deve-se refletir sobre o facto de que a sua afirmação no mercado pode tomar – e quase certamente tomará – um rumo preocupante: presumivelmente será um meio importante para a maior precariedade do trabalho no final, após os triunfos de Uber e companhia e após os decretos contra o trabalho emitidos nos últimos anos pelos governos de muitos países ocidentais, de Macron, a Renzi, a Schroeder.

Por outro lado, o desenvolvimento desta tecnologia vai na direção de outro tipo de interesse ativo das grandes empresas e do sistema económico atual: o de isolar cada vez mais indivíduos, possivelmente destruindo todos ou quase todos os laços sociais e deixando-os sozinhos face a um sistema económico e político injusto.

Fonte: Vincenzo Comito. Publicado por  Stibiliciamoci.info, Dopo il Coronavirus niente sarà più come prima? Texto disponível em:

https://sbilanciamoci.info/dopo-il-coronavirus-niente-sara-piu-come-prima/

 

 

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Testi citati nell’articolo

Casselman, B., «Storm of layoffs is brewing in U.S.», The New York Times International Edition, 19 marzo 2020.

Monbiot, G., «Our politics isn’t designed to protect the public from Covid-19», The Guardian, 18 marzo 2020.

Sandbu, M., «Huge fiscal spending is needed to fight the coronavirus down turn», Financial Times, 17 marzo 2020.

Sharma, R., «This is how the coronavirus will destroy the economy», The New York Times International Edition, 18 marzo 2020.

Solis, M., «Intervista a Naomi Klein», www.rassegnasindacale.it, 17 marzo 2020.

Weinland, D., Kynge, J., «China lacks the appetite to save the world economy, analysts warn», Financial Times, 18 marzo 2020.

Wolf, M., «The virus is an economic emergency too», Financial Times, 17 marzo 2020.

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