CRISE DO COVID 19 E A INCAPACIDADE DAS SOCIEDADES NEOLIBERAIS EM LHE DAREM RESPOSTA – XXXVIII – AS CONSEQUÊNCIAS DO VÍRUS DA CHINA, de VICTOR HILL

 

The fallout from the “China Virus”, por Victor Hill

Masterinvestor, 22 de Março de 2020

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota

 

 

Donald Trump chama-lhe o Vírus da China. O vírus colocou cerca de um terço da humanidade em isolamento parcial, paralisando assim a economia global com consequências extraordinárias. Poderá a cura ser pior do que a doença? E a pergunta que faz Victor Hill

“O que não nos mata, torna-nos mais fortes.” – Friedrich Nietzsche (1844-1900)

De Trump Bump Bump para Trump Dump Dump

Vamos começar com os mercados de Nova Iorque, que tendem a ser um bom indicador de referência para os mercados globais.

Isto não é uma queda a pique, um crash: é o caos com um retorno a variar como quem anda numa montanha russa. A Média Industrial Dow Jones (DJIA), o S&P 500 e o NASDAQ, todos estes indicadores registaram as suas piores perdas semanais na semana passada desde 2008. Todos os onze setores do índice S&P caíram mais de 20 por cento em relação aos seus máximos de 52 semanas. No entanto, terça-feira (24 de março) foi o melhor dia para o DJIA em 87 anos – subiu 11,37 por cento. E subiu novamente de forma mais modesta na quarta-feira. Isso deu-se em resposta à provável aprovação pelo Congresso do pacote de estímulo de 2 milhões de milhões de dólares muito rapidamente – e ao tweet do Sr. Trump de que tudo estaria terminado na Páscoa.

Até os traders (os especuladores) mais experientes se sentem muito incomodados nestes mercados acrobáticos. O Dow está no bom caminho para vir a ter o seu pior mês desde 1931 O desempenho da S&P pode ser o pior desde 1940. O índice NASDAQ não parece estar tão mau desde que a bolha tecnológica estourou em 2001. O preço do petróleo caiu (Brent Cruse está abaixo dos 30 dólares no momento em que escrevo este texto).

Goldman Sachs prevê uma contração de 24 por cento no PIB dos EUA no segundo trimestre e ninguém sabe quanto tempo a inevitável recessão pode durar. Os otimistas pensam que tudo terminará em breve e que os mercados terão recuperado até ao primeiro trimestre de 2021. Eu não tenho tanta certeza.

A epidemiologia do pânico

Aqui no Reino Unido, o nosso Primeiro-Ministro está a seguir, da melhor forma possível, os conselhos em constante mudança dos seus consultores científicos. Ele queria este seu cargo desde a infância e agora um enorme fardo de responsabilidade recai sobre os seus ombros. Esta carga de trabalho mataria 99,9 por cento dos outros mortais. Mas nós temos o direito, ou mesmo a obrigação, de questionar a qualidade dos conselhos.

Claro, o governo está condenado se o fizer e condenado se não o fizer. Como a taxa de mortalidade continua a acelerar (como vai continuar a acelerar), o governo será acusado de fazer muito pouco e demasiado tarde. Mas à medida que as enormes consequências económicas e orçamentais do bloqueio se acumulam, vai dominar a ideia de que a cura terá sido pior do que a doença.

Vamos apenas considerar a enormidade do que os governos aqui e noutros lugares estão a fazer. A mudança de política que foi assinalada na segunda-feira da semana passada (16 de março) foi iniciada por causa do relatório sobre a pandemia preparado pelo Professor Neal Ferguson e a sua equipa de epidemiologistas do Imperial College London. A equipe do Professor Ferguson tem monitorizado e modelado o avanço do Covid-19 desde que os primeiros relatórios chegaram de Wuhan, China, em dezembro do ano passado.

(Note-se que o conselho da equipa de cientistas do Imperial College sobre o surto de febre aftosa de 2001 levou ao que muitos acreditam ser o abate desnecessário de milhões de bovinos e ovinos saudáveis).

No final de fevereiro o mandarinato científico britânico tinha decidido que a estratégia de contenção da China estava a dar resultados. Mas, de acordo com o brilhante correspondente de saúde do Daily Telegraph, Paul Nuki, eles estavam relutantes em adotar as mesmas medidas aqui. Isso, era em parte devido ao medo de que, uma vez levantado, isto incitaria um segundo surto no último trimestre deste ano.

Fundamentalmente, os serviços de proteção civil e de saúde britânicos não se tinham preparado adequadamente para enfrentar uma pandemia moderna (eles não estão sozinhos nisso). O documento de estratégia pandémica do Reino Unido produzido na sequência da pandemia da SRA (UK Influenza Pandemic Preparedness Strategy, 2011) nem sequer previa um encerramento nacional parcial. Afirma que:

“Durante uma pandemia, o governo irá encorajar aqueles que estão bem a continuar a sua vida diária normal o máximo de tempo possível… O governo do Reino Unido não planeia parar as reuniões de massas ou impor controlos aos transportes públicos durante qualquer pandemia”.

O governo britânico, como resultado, deixou o caminho aberto para que centenas de milhares de viajantes infetados pudessem chegar ao Reino Unido sem qualquer restrição ou os testes mais básicos, tais como medir a temperatura corporal. Os voos de Teerão, Milão e mesmo do Estado de Washington (EUA) ainda estavam a chegar a Heathrow no final desta semana e os passageiros acabavam de passar pelo controle de passaportes e pela alfândega sem sequer um questionário médico.

No documento principal dos serviços de proteção civil e de  saúde pública quase não houve discussão sobre o impacto económico da pandemia. O documento observava que a gripe espanhola de 1918-19 reduziu significativamente o PIB nacional, mas não fez qualquer tentativa de quantificar o impacto económico de uma futura pandemia.

Ainda não sabemos a extensão total de um condicionamento social de 2-4 meses do PIB no Reino Unido, quanto mais no mundo; mas as luminárias têm lançado números para o ar. Efetivamente, a indústria hoteleira, as companhias aéreas e o turismo serão reduzidos a receitas quase nulas durante parte do ano. Vamos com um impacto de 15 por cento no PIB – embora possa ser de 25 por cento.

Agora, o relatório do Colégio Imperial sugere que um cenário sem ação (ou seja, sem condicionamento social) resultaria muito provavelmente em 100.000 mortes e muito possivelmente em mais. (O pior cenário seria 250.000 mortes). Mas, mesmo com um encerramento ao estilo italiano, muito provavelmente haverá 20.000 mortes. Assim, o confinamento nacional salvará 80.000 vidas preciosas – mas a um custo de 15% do nosso PIB de cerca de 2 milhões de milhões de libras esterlinas. Isso significa que cada vida salva terá custado ao Estado 3,75 milhões de libras esterlinas.

Agora, por favor, não me interpretem mal. Eu pagaria £3,75 milhões (se eu tivesse o dinheiro, o que não tenho) para salvar os meus mais próximos e queridos. E qualquer de nós também pagaria. Mas, como política governamental, é pertinente perguntar: se cada vida vale tanto, então por que não estamos a gastar  muito mais na pesquisa do cancro, na luta contra o Alzheimer e as diabetes e assim por diante? E não poderíamos pagar um Rendimento Básico Universal, afinal de contas?

Como cristão, tal como os meus amigos judeus, muçulmanos e budistas, acredito que toda a vida humana é sagrada. Mas, como economista, tenho de admitir que algumas vidas valem mais do que outras. As vidas dos jovens valem mais do que as dos velhos, não porque sejam mais bonitas, mas porque têm uma vida inteira de ganhos e realizações à sua frente. Depois há o facto de que a maioria das pessoas que morrem de Covid-19 tem condições crónicas subjacentes e que muitas (possivelmente a maioria) delas teriam morrido a curto prazo de qualquer forma – por mais trágico que isso seja.

O meu amigo, o economista Felipe da Costa (também desta paróquia), disse-me esta semana que há um aspeto médico no condicionamento social que quase não tem sido discutido na grande imprensa. Ou seja, como os hospitais são invadidos por doentes com coronavírus, os tratamentos médicos de rotina estão a ser cancelados. Como resultado, as taxas de mortalidade das pessoas que sofrem de cancro e outras condições terminais aumentarão – mesmo que as suas vidas possam ter sido prolongadas

Assim, o Estado decidiu que as pessoas com os sintomas mais graves do CV-19 devem ter prioridade sobre todas as outras pessoas doentes. E isso não foi sequer debatido. Se os “especialistas” médicos fossem ensinados mesmo em termos de economia mais básica saberiam que há sempre um custo de oportunidade associado a qualquer decisão de alocação de recursos.

Além disso, não temos ideia de qual será o custo económico do confinamento em termos de capital humano perdido. Ou seja, crianças a deixarem de fazer exames; aumento do stresse; mais divórcios; saúde mental mais pobre por todo o lado. E não comecemos sequer a falar da erosão das liberdades civis, conseguida ao longo de muitos séculos neste país sob a lei comum. Mas a Baronesa Chakrabarti (1) é incaracteristicamente silenciosa quanto a isso.

Dizem-nos que o condicionamento social é necessário para proteger o SNS. (Assim me informou o governo por mensagem de texto na terça-feira). Se o governo não fizesse nada, então o SNS seria rapidamente esmagado pelo número de hospitalizações de pacientes em estado crítico. (Será esmagado de qualquer maneira – mas isso é outra questão.) Mas certamente o SNS existe para fornecer um bem social para a nação,  não existe para a nação se sacrificar para preservar o SNS? Não é  um caso de inversão de valores, de ver o problema ao contrário?

Para além do colapso do mercado e do facto de que iremos inevitavelmente enfrentar uma recessão durante pelo menos um ano, há o facto de que as finanças do nosso governo não irão recuperar durante a minha vida. Quando perguntaram ao Sr. Johnson qual seria o custo da decisão do governo passar a pagar 80% de todos os salários dos empregados das empresas afetadas, ele deu uma resposta muito honesta: ele não sabia. Aparentemente, 500.000 novos candidatos reclamaram Crédito Universal na última semana. Muitos deles, particularmente os maiores de 50 anos, permanecerão no Crédito Universal para o resto de suas vidas.

Todo o bom trabalho feito pela parelha pantomineira Cameron-Osborne para restaurar as finanças da nação foi aparentemente em vão.

Se o leitor quiser entender o que está a impulsionar a resposta política a esta pandemia, então faria muito bem em ler um brilhante ensaio do eminente sociólogo, Professor Frank Furedi. Ele observa que durante a pandemia da gripe espanhola de 1918-19, o Presidente Woodrow Wilson não sentiu necessidade de proferir uma única palavra sobre o surto, que custou centenas de milhares de vidas nos EUA, quanto mais para iniciar uma resposta governamental. Hoje, em contraste, argumenta o Professor Furedi, os governos ocidentais são os principais responsáveis pela saúde e segurança nacionais – salvaguardando os vulneráveis (dois substantivos que não existiam há 100 anos).

O sentido de um fim

A verdadeira questão é: quanto tempo vai durar o condicionamento social? Ninguém acha que as três semanas iniciais propostas serão suficientes para conter o avanço do vírus. A boa notícia é que esta semana a contagem diária de mortalidade na Itália diminuiu. 793 pessoas morreram na Itália de CV-19 no sábado passado; 651 no domingo e 601 na segunda-feira. O número foi de 743 na terça-feira, mas felizmente baixou para 683 na quarta-feira. Portanto, portanto, parece que o condicionamento social funcionou e que a propagação do vírus foi contida na Itália – como foi na China – embora muitos milhares de pessoas ainda não tenham morrido disso.

O problema é que não sabemos por quanto tempo é que a cauda da curva em forma de sino se vai arrastar, o mesmo é dizer, quanto tempo é que crise de pandemia vai durar. Neuron Capital tem estado a trabalhar num modelo que prevê uma segunda onda de infeções. Pode ser retardada, mas eles consideram-na inevitável. Infeções assintomáticas podem-se esconder numa população durante algum tempo e depois reaparecer, como fez a “gripe espanhola” de 1918-19. Muitas pessoas que contraíram o vírus, mas que não apresentam sintomas, podem revelar-se inadvertidamente grandes difusores.

Isso abre a possibilidade de que possamos experimentar um relaxamento do condicionamento por um período, possivelmente no início do verão deste ano – apenas para ser seguido por uma segunda onda de condicionamentos. Se os mercados perceberem um risco elevado de mais condicionamentos, então um relaxamento pode não resultar necessariamente na recuperação da forma em V que os optimistas prevêem.

O teórico do jogo

Encontrei um item interessante no blogue online daquele vilão de pantomina com capa dupla, o Sr. Svengali-Cummings, Conselheiro Chefe do Primeiro Ministro. Ele é, claro, um estudante de teoria de jogos, da qual a epidemiologia é apenas uma aplicação. Em março do ano passado (antes de se instalar no gabinete do Primeiro-ministro no Número Dez), ele refletiu sobre o risco de uma pandemia global causada por uma bio-segurança inadequada nos laboratórios. Ele expressou a preocupação de que elementos patógenos que tinham sido redesenhados para torná-los transmissíveis aos mamíferos pudessem ser libertados na comunidade através de erros de rotina. Ele pensou que os riscos de um tal acidente – ou de uma libertação malévola – foram subestimados.

O rumor que circulava em Whitehall está a sugerir que o Sr. Cummings se opôs a um condicionamento social rigoroso ao estilo chinês após o vírus ter chegado à Europa, e que ele influenciou o primeiro-ministro em conformidade. O que mudou repentinamente o jogo foi o relatório do Colégio Imperial. Isso foi questionado na terça-feira num relatório da professora Sunetra Gupta, professora de epidemiologia teórica da Universidade de Oxford. Ela propõe que o vírus estava a circular no Reino Unido em meados de janeiro, cerca de duas semanas antes do primeiro caso relatado e um mês antes da primeira morte relatada, e que já existe uma imunidade generalizada (2).

Uma teoria que vai circulando é que as coisas foram deixadas em aberto para que a imunidade do rebanho fosse aplicada o máximo de tempo possível; mas finalmente foi imposto um bloqueio para evitar a acusação de que o governo estava a deixar os idosos morrerem alegremente. Isso pode parecer cínico – mas seria racional.

Cumprirei as instruções do Primeiro-Ministro; e abster-me-ei de o criticar enquanto durar a emergência. Mas, por favor, não espere que eu deixe de fazer perguntas.

Com este glorioso sol da primavera comecei a correr de manhã cedo pelas estradas desertas do campo, as sebes e as margens salpicadas de geada. (Ainda nos é permitido no Reino Unido fazer exercício ao ar livre uma vez por dia.) Troco cumprimentos por acenos apenas com o solitário e ocasional motorista do trator que anda a lavrar .

Esta manhã pude ver um objeto na estrada que, ao aproximar-me, se revelou ser a carcaça horrivelmente mutilada de um veado muntjac – a vítima de algum atropelamento e fuga noturno. Por alguma razão, esta triste visão desencadeou a memória de uma história que um amigo russo me contou há alguns anos.

Em dezembro de 1941, o exército alemão estava às portas de Moscovo. (Há um monumento no local onde a Wehrmacht foi finalmente parada na estrada que sai de Moscou para o aeroporto de Sheremetyevo, que eu acho infinitamente comovente). Parecia muito provável que Moscovo iria cair. A mãe do meu amigo, quando tinha cerca de 16 anos, foi encarregada pelo seu tio de acompanhar quatro crianças pequenas para um refúgio de relativa segurança, um sanatório algures nas florestas de Tverskaya Oblast. O tio conduziu-os de carro pelas estradas florestais desertas e geladas durante horas – mas depois teve de parar.

Parece que uma patrulha avançada das Waffen SS tinha encontrado uma pequena unidade de infantaria russa nesta estrada algumas horas antes, talvez minutos antes. Tinha havido um tiroteio que tinha feito uma enorme mortandade e a estrada estava juncada por  uma dúzia de cadáveres manchados de sangue. O tio saiu do carro e simplesmente puxou cada corpo para o lado da estrada um a um, observado atentamente pelas crianças pequenas e pela mãe do meu amigo. E a seguir,  voltou para o carro e continuou a viagem.

As pessoas na Europa Ocidental e na América da minha geração de baby-boomers tal como os nossos filhos simplesmente não têm nenhuma experiência do que foi o horror de uma  grande parte da vida humana ao longo da história – com o sofrimento terrível causado pela  própria humanidade e pela Mãe Natureza em medida aproximadamente igual.

Agora é um bom momento para nos lembrarmos de que nunca devemos tomar a nossa própria sorte como garantida .

 

Fonte: Victor Hill, MasterInvestor, The fallout from the “China Virus”. Texto disponível: https://masterinvestor.co.uk/economics/the-fallout-from-the-china-virus/

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(1) – Advogada, defensora dos direito humanos e política trabalhista.

[2] See: https://www.standard.co.uk/news/health/coronavirus-half-uk-population-oxford-university-study-finds-a4396721.html?fbclid=IwAR1yuFK4lvFgQR7cOE-bqoQzfVxyeM2s1P7M1CmFdKtipVJTFcQbUCf0AjI

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