Uma visão muito clara do caos global e do seu futuro próximo. Por Olivier Passet

Espuma dos dias 2 Coronavirus

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

XERFY: Uma visão muito clara do caos global e do seu futuro próximo

Olivier Passet Por Olivier Passet

Publicado por La crise des années 2010 de Jean Claude Werrebrouck Jean Claude Werrebrouck em 28/04/2020 (“Une vision très claire du chaos mondial et de son devenir proche”, ver aqui)

 

Gostaríamos de publicar esta manhã um texto muito curto da autoria de Olivier Passet. Admiremos o poder de um pensamento difícil de descobrir noutros lugares.

A crise da Covid marcaria o grande retorno do Estado para alguns. Teria reaberto os nossos olhos para a noção de bem comum e teria restituído legitimidade ao intervencionismo público. Embora esta ideia não seja unanimemente aceite, é, no entanto, uma ideia muito partilhada.

De que tipo de retorno estamos a falar, exatamente? Para que o Estado regressasse, teria de ter desaparecido. Mas não o fez. Houve uma mudança ao longo das últimas décadas. O Estado produtor regrediu certamente. O mesmo aconteceu com o Estado investidor. O Estado redistributivo também tem sido contestado em diferentes graus, dependendo do país. Mas, globalmente, os Estados dos países da OCDE não regrediram em termos financeiros. Em quase toda a parte, foi-lhes atribuído o papel de facilitador dos negócios e de grande segurador de último recurso dos riscos económicos, um papel que tem vindo a ganhar cada vez mais força. É esta função seguradora, nas suas diversas formas, que tem prevalecido sobre todas as outras durante anos.

O Estado tem-se mantido financeiramente, ao mesmo tempo que tem vindo a abandonar gradualmente setores inteiros da produção que não possuem as chaves para uma gestão eficaz. O Estado concentrou-se com meios atrofiados nas suas funções de soberania: segurança, justiça em particular. Continua a assegurar uma base de produção comum nos domínios da saúde e da educação, em particular. No entanto, a justificação da sua intervenção é cada vez mais questionada: autonomia, gestão privada, aumento das taxas ou encargos são a tendência, com os bancos e as companhias de seguros privadas a reivindicarem a sua capacidade de assumir o controlo dos Estados para financiar o acesso a estes serviços. Energia, transportes, telecomunicações, todos os serviços outrora considerados essenciais e estratégicos foram agora transferidos para a esfera concorrencial, mantendo o Estado apenas o custo fixo das grandes infra-estruturas de rede e delegando a operação a operadores privados em concorrência entre si.

Esta mudança tem duas consequências imediatas. Nestes domínios, os princípios orientadores da esfera privada impõem-se: diversificação/segmentação da oferta, economias de escala e a gestão de fluxos tensos, de existências mínimas.

Este é o ponto forte da guerra competitiva. Aplicar as regras de gestão privada a estes domínios tem por corolário quebrar a homogeneidade da oferta, multiplicar as gamas, quebrando assim o princípio da igualdade, aumentar os volumes, por exemplo no transporte aéreo, em contradição com todos os objetivos ambientais, e abandonar tudo o que não esteja relacionado com uma procura recorrente, estável e rentável: fechar pequenas linhas regionais, limitar o número de camas hospitalares, ou equipamentos para otimizar a sua utilização, etc., com todos os riscos e perdas de externalidades que isso implica. Tudo isto é o que está a explodir na nossa cara neste momento. O agravamento das crises social, ambiental e sanitária está a fazer-nos enfrentar a demissão produtiva dos Estados.

A par desta grande tendência, há o aumento da função seguradora. O que nunca foi sacralizado nos textos. Tornou-se invasiva. Perante a instabilidade do sistema, é o Estado que se torna o grande guardião de manter a economia a funcionar. Isto começa com o emprego. É o Estado que assume este risco, financiando a segurança dos percursos . As empresas já não querem financiar os riscos associados ao trabalho (reforma, reconversão profissional, etc.)… é só isso que importa, tributamos esse risco a toda a população, ou privatizamos os sistemas. A economia está sujeita às vagas de comportamentos especulativos da finança … os estados resgatam, assumem as perdas aos milhares de milhões para evitar o grande colapso financeiro. E o mesmo acontece hoje com a COVID, onde o Estado é responsável por metade dos assalariados. O Estado tornou-se um enorme mealheiro de seguros encostado a uma esfera privada, sem qualquer responsabilidade. Esse é o chamado Estado mínimo. Uma esfera privada sob supervisão financeira, que está constantemente a descarrilar e a acumular uma enorme dívida ambiental. Estados desarmados para gerir o bem comum, que em vez disso recuperam todos os riscos como resseguradores de último recurso de que se libertam aqueles que são pagos para os suportar (os detentores do capital). E no topo estão os chamados bancos centrais independentes que, à conta de vagas de liquidez lançadas para os mercados, se tornaram os vassalos úteis de um edifício estatal financeiro “demasiado grande para falir”.

Estamos, portanto, a assistir a um regresso do Estado? Podemos duvidar disso. Pelo contrário, estamos a viver a apoteose do Estado segurador e a sua demissão do domínio da produção de bens comuns. Uma espécie de flexigurança generalizada levada ao seu ponto extremo. O resto da história, porém, está antecipadamente escrito. Os Estados vão sair desacreditados da gestão desta crise, tendo de prestar contas dos stocks de máscaras ou respiradores que se evaporaram. Estão demasiado endividados para assumirem o controlo da questão social ou ecológica. E, além disso, se o Estado produtor do bem comum estivesse de volta, nós já estaríamos de volta. Não são só os milhares de milhões que teria mobilizado ou as máscaras importadas da China, mas seria também a população. A sua resposta não seria apenas financeira, mas seria real, também. As nossas empresas seriam requisitadas para produzir o indispensável. Os Correios estariam na linha da frente para entregar mercadorias de lojas que continuariam a sua atividade, etc. A sua resposta já seria tanto produtiva como financeira.

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Olivier Passet: diretor de sínteses económicas do Grupo Xerfi desde 2012. Foi conselheiro do presidente delegado do Conselho de Análise Económica (2011/2012), chefe do departamento de Economia e Finanças do Centro de Análise Estratégica (2006/2011). Tem o Diploma de Estudos Avançados em moeda, finanças e bancos pela Universidade Panthéon Sorbonne (Paris I).

Jean Claude Werrebrouck é economista, antigo professor na Universidade de Lille 2. Inicialmente especializado em questões de desenvolvimento e economia do petróleo, ele destacou-se no problema da natureza da renda petrolífera. Como Diretor do IUT foi integrado na equipa fundadora dos Institutos Universitários Profissionalizados (IUP).

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