CARTA DE BRAGA – “um período complicado” por António Oliveira

O mundo está a atravessar um período complicado, talvez charneira, para uma outra época, mais humana, ou melhor, para sociedades onde o ser humano se possa sentir cómodo e respeitado, sabendo que lá, até poderá ter um passado, para poder descortinar um futuro.

Uma sociedade onde a referência maior não seja um cifrão, onde as instituições se pautem pela ética e pela cultura, onde a preocupação pela inovação tecnológica não as ponham em segundo plano, onde ler seja um objectivo e um meio para se entender ‘o outro’ e o que isso quer dizer, para se entender ‘a Terra’ e o que isso quer dizer, onde se não subordine tudo e todos àquele cifrão e às poderosas organizações que o patrocinam e nos comandam a vida.

Sei que escrever isto vai fazer sorrir muita gente, talvez com um pouco de piedade por eu ainda acreditar em contos de fadas, mas com o aumento demográfico e o incremento dos problemas geopolíticos (agora tão bem demonstrados!), a procura do crescimento contínuo dos PIB’s, não será possível, por já se ter ultrapassado há muito a capacidade produtiva da Terra.

E vemos o aumento das despesas em armamentos (até o mais anónimo cidadão dos EUA pode ter uma moderníssima arma de assalto!), como os combustíveis fósseis continuam a usar-se, como a candonga com impostos se impõe às instituições e aos países, como as organizações supranacionais confessam a sua impotência perante um qualquer pindérico que nem sabe explicar como foi eleito (há alguns bem perigosos em todo o mundo!) e se vêem povos inteiros carregando filhos e misérias, rejeitados por muitos dos bem instalados que esta sociedade pariu.

Um período complicado este, em que a própria União Europeia se vê ‘manietada’, já praticamente dividida entre a ‘Europa rica’ de um lado e ‘a do Sul’ do outro (a ‘dos PIG’s’ como eles a referem com menosprezo), a dos não alinhados como a Hungria e a Polónia, para citar só estes, mais a dos que estão à procura de vias menos próprias e menos éticas.

Um período complicado, até por um banal e simples reconhecimento, feito por um primeiro ministro de pacotilha, reconhecendo dever a saúde (por que não a vida?) a dois emigrantes, num país que fecha a porta de entrada e quer expulsar milhares de outros.

A experiência ensina-nos que todas as grandes crises podem incrementar fenómenos de encerramentos e de angústia: a caça ao infractor ou a necessidade de um bode expiatório, frequentemente identificado com o estrangeiro ou o emigrante’ afirmou numa entrevista com poucos dias, o veterano filósofo francês Edgar Morin.

Um período complicado até a nível privado, com as relações interpessoais afectadas e muito; pois talvez as pessoas descubram agora a solidão em que viviam, por já terem visto e percebido como o telemóvel funciona só como um espelho, sem acrescentar mais nada, nem solidariedade nem partilha.

Um período complicado também, por agora se ver a confirmação de uma das afirmações de Hannah Arendt, ‘A sociedade de massa não quer cultura, mas diversões’, pois só isso lhe interessar, para ‘matar’ o tempo, equalizando todos os que lhe partilham as redes.

Um período complicado este, pois as pessoas poderem talvez vir a compreender o que já disse o filósofo grego Epicteto no século I, ‘Se penamos um desaire, um transtorno, uma aflição, não atiremos as culpas aos demais, mas à nossa própria atitude’.

Um período complicado este, porque ‘quando se eliminam as mais simples liberdades da vida moderna, que nos fica além da solidão?’ pergunta alguém que já não lembro, mas que nesta simples questão, clarifica e qualifica muitíssimo bem, as políticas educativas e culturais do mundo actual.

Um período complicado, pelos milhares de mortos provocados pelo ‘corona’ e os muitos outros que ainda se prevêem, a ter ainda em atenção o que se poderá vir a passar em África, América do Sul e mesmo na Ásia, mas, perdoe-se-me o cinismo, sou vejo-me obrigado a citar Stalin, ‘a morte de uma pessoa é uma tragédia; a de milhões uma estatística’.

Mas, muito se sente o drama dos mais velhos, os nossos ‘mais velhos’, encolhidos entre a privatização das residências, onde o lucro não coincide com gastos em apetrechamento e pessoal, face à assistência pública, também marcada e afectada por cortes, restrições e deixadismo.

Período complicado, com ou sem estatísticas, a ver pelo que afirmou Jean Monnet, um dos fundadores do projecto comum europeu, a quando das primeiras decisões conjuntas, ‘A paz e a prosperidade estarão garantidas se as pessoas se unirem’.

Vão agora dizer ou pedir o mesmo a quem?

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

1 Comment

  1. Obrigada PROFESSOR pela mensagem : Jean Monnet, um dos fundadores do projecto comum europeu, a quando das primeiras decisões conjuntas, ‘*A paz e a prosperidade estarão garantidas se as pessoas se unirem”* Maria ”

    Sem vírus. http://www.avast.com

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