COVID – 19 – ESTADOS UNIDOS – MODERATE REBELS – COMO OS ESTADOS UNIDOS OBRIGAM OUTROS PAÍSES A PAGAREM PELAS SUAS GUERRAS: A ECONOMIA DO IMPERIALISMO AMERICANO – Transcrição de uma entrevista a MICHAEL HUDSON

 

 

O economista Michael Hudson explica como o imperialismo americano criou um almoço grátis global, em que os Estados Unidos forçam outros países a pagar pelas suas guerras e mesmo pela sua ocupação militar.

Max Blumenthal e Ben Norton discutem a economia do império de Washington, o papel do FMI e do Banco Mundial, as tentativas de criar sistemas financeiros alternativos como os BRICS, e a nova guerra fria contra a China e a Rússia.

SEGUNDA PARTE

(Entrevista gravada em 13 de Abril de 2020)

Ver também:

Part 1: “US coronavirus ‘bailout’ scam is $6 trillion giveaway to Wall St – Economist Michael Hudson explains

(Parte 1: O “Resgate” Americano Coronavírus é  um esquema de 6 milhões de milhões  de dólares)

(para ler em A Viagem dos Argomautas clique em:

https://aviagemdosargonautas.net/2020/05/10/covid-19-estados-unidos-moderate-rebels-o-falso-resgate-do-coronavirus-nos-estados-unidos-consiste-numa-doacao-de-6-milhoes-de-milhoes-de-dolares-a-wall-street-transcricao-de-uma-entrevista/)

 

 

Vejam notas e links

Michael Hudson’s website: michael-hudson.com

PDF of his book Super Imperialism: michael-hudson.com/wp-content/uploads/2010/03/superimperialism.pdf

 

 

MICHAEL HUDSON: O Banco Mundial tem um objetivo principal, que é o de tornar outros países dependentes da agricultura americana. Este objetivo está incorporado nos seus artigos de acordo. Só pode fazer empréstimos em moeda estrangeira, pelo que só concederá empréstimos a países para o desenvolvimento agrícola, estradas, se for para promover as exportações.

Assim, os Estados Unidos, através do Banco Mundial, tornaram-se, a meu ver, a organização mais perigosa, de direita e da  má  história moderna – pior  do que o FMI. É por isso que tem sido quase sempre dirigida por um Secretário da Defesa. Tem sido sempre explicitamente militar. É o punho duro do imperialismo americano.

A sua ideia é fazer com que os países latino-americanos, africanos e asiáticos exportem culturas de plantação, especialmente plantações que sejam de propriedade norte-americana ou estrangeira. A principal diretiva do Banco Mundial aos países é: “Não devem alimentar-se com os vossos próprios produtos ; não devem cultivar os seus próprios cereais ou os vossos  próprios alimentos; deve depender dos Estados Unidos para isso. E pode pagar por isso exportando culturas de plantação”.

BEN NORTON: Aqui nos Rebeldes Moderados falamos muito de imperialismo. É realmente o ponto principal deste programa. Este programa explora como é o funcionamento do imperialismo americano, como funciona no palco global, como as políticas neoliberais de austeridade e privatização são forçadas ao cano de uma arma através dos militares americanos, através da invasão e do saque.

Falamos disso na Venezuela, no Iraque, na Síria e em tantos países. Mas muitas vezes não falamos da dinâmica económica específica do seu funcionamento através dos bancos, dos empréstimos e das obrigações.

Bem, hoje continuamos a nossa discussão com o economista Michael Hudson, que é realmente um dos melhores especialistas do mundo quando se trata de compreender como o imperialismo americano funciona como um sistema económico, e não apenas através de um sistema de força militar. É claro que a economia é mantida e sustentada por essa força militar. E falamos da forma como a força militar é expressa através de guerras de mudança de regime e de intervenções militares.

Mas Michael Hudson explica também como é que o Fundo Monetário Internacional e o Banco Mundial, o sistema financeiro dos EUA, os bancos e Wall Street trabalham em conjunto, de mãos dadas com os militares para manter esse estrangulamento financeiro.

Ele escreve tudo isto e de forma brilhante no seu livro chamado Super Imperialism: The Economic Strategy of American Empire. Começou a escrever esse livro em 1968, e depois atualizou-o recentemente em 2002, foi publicado novamente em 2003 com a guerra no Iraque e a guerra no Afeganistão, e de certa forma atualizou e mostrou como se alterou de alguma forma, apesar de o sistema que detalhou há 50 anos não ter realmente mudado. .

Por isso, hoje vamos falar sobre como funciona esse sistema imperialista internacional dominado pelos EUA.

Michael Hudson, que na primeira parte desta conversa falou sobre o esquema que é o resgate  do coronavírus – se quiser ver a primeira parte pode ir ao moderaterebels.com; está no YouTube, Spotify, iTunes, em qualquer outra plataforma.

Michael Hudson é economista e é também um analista financeiro de Wall Street de longa data. Ele também é professor de economia na Universidade do Missouri, Kansas City, e pode encontrar os seus trabalhos em michael-hudson.com, ao qual farei uma ligação nas notas do programa deste episódio.

Portanto, sem mais demoras, aqui está a segunda parte da nossa entrevista com Michael Hudson.

MAX BLUMENTHAL: Penso que é um bom ponto de transição para falar de outro tipo de esquema de vigarice que o Michael identificou. Há um lado realmente hilariante no segundo prefácio do seu livro “Super Imperialismo”, que é quando nos fala de  Herman Kahn, que é, penso eu, um fundador do Hudson Institute, para o qual você foi trabalhar. Ele foi também a inspiração para o personagem do Dr. Strangelove e para o filme do Stanley Kubrick.

Há um prémio que os neocons atribuem todos os anos com o seu nome; Benjamin Netanyahu é um vencedor recente desse  prémio.

Mas Herman Kahn estava num painel para uma das suas conversas, onde expôs a sua teoria do “Super Imperialismo” e como os Estados Unidos conseguem que outros países subsidiem o seu império, e é capaz de se expandir e realizar este enorme projeto imperial sem ter de impor austeridade à sua própria população, como outros países têm de fazer sob o controlo do FMI.

Por isso, Herman Kahn veio  ter consigo depois da conversa e diz: “O senhor identificou perfeitamente o roubo”. E o seu livro começa a ser vendido como bolos quentes em DC, suponho que entre  as pessoas que trabalham para a CIA, e as pessoas que trabalham no aparelho de espionagem militar.

MICHAEL HUDSON: O que ele disse foi: “Conseguimos levar a cabo o maior roubo da  história”. Fomos muito além de tudo o que o Império Britânico alguma vez pensou”. E acrescentou : “Essa é uma história de sucesso. A maioria das pessoas pensa que o imperialismo é mau; o senhor mostrou como é a maior história de sucesso – temos um almoço grátis para sempre”!

MAX BLUMENTHAL: Certo. Portanto, explique-nos o maior roubo da história que identificou  e como é que ele está a ser perpetuada sob a administração Trump de formas que considero bastante espantosas, inclusive através da imposição de sanções sem precedentes a algo como um terço da população mundial.

MICHAEL HUDSON: Bem, eu escrevi “Super Imperialismo” em 1972, e foi publicado exatamente um ano depois de o Presidente Nixon ter retirado a América do padrão-ouro, em Agosto de 1971. A razão pela qual ele tirou a América do padrão-ouro foi que todo o défice da balança de pagamentos, desde a Guerra da Coreia até à Guerra do Vietname, tinha um carácter militar.

Especialmente nos anos 60, o dinheiro que a América gastava no Vietname e no Sudeste Asiático tinha de ser gasto localmente. E os bancos eram bancos franceses, porque se tratava da Indochina francesa. Assim, todo o dinheiro era enviado para Paris, para as sedes dos bancos, transformado de dólares em francos, e o General de Gaulle acabava por ficar com esses dólares. Depois, todos os meses, enviava os dólares e queria o pagamento em ouro. E a Alemanha poderia vir a fazer a mesma coisa.

Assim, quanto mais a América lutava militarmente, mais esgotava o seu stock de ouro, até que finalmente, em Agosto de 1971, disse: “Usamos o ouro como chave da nossa potência mundial desde a Primeira Guerra Mundial, quando pusemos a Europa a rações. Por isso, vamos deixar de pagar em ouro”.

Eles fecharam a janela de ouro. E a maioria dos economistas dizia: “Oh, meu Deus, agora vai ser uma depressão”. Mas eu disse: “Esperem lá, agora que outros países já não conseguem obter ouro de todas estas despesas militares” – e quando se fala do défice da balança de pagamentos, não é o défice comercial, não é o investimento estrangeiro; tudo isto tem um carácter quase exclusivamente militar.

Então, todo este dinheiro que foi gasto no estrangeiro, como é que alguma vez o vamos conseguir de volta? Bem, estes dólares que gastamos em todo o mundo, principalmente para criar e manter as 800 bases militares e para as outras atividades militares que temos, estes dólares acabam nos bancos centrais estrangeiros.

A questão é: o que é que estes bancos centrais estrangeiros vão fazer com essas entradas de dólares no seus livros? Bem, não deixaríamos que os bancos centrais estrangeiros comprassem indústrias americanas. Deixávamo-los comprar ações, mas não para se tornarem  proprietários maioritários.

Um antigo meu mentor, o homem que me ensinou tudo sobre a indústria petrolífera na Standard Oil, tornou-se subsecretário do Tesouro para os assuntos internacionais. Quando Herman Kahn e eu fomos à Casa Branca, ele disse: “Dissemos aos sauditas que podem cobrar o que quiserem pelo seu petróleo, mas todo o dinheiro que conseguirem, têm de o reciclar para os Estados Unidos”. A maioria deles pode comprar obrigações do Tesouro, para que tenhamos o dinheiro para continuar a gastar”. Podem também comprar ações, ou podem fazer o que os japoneses fizeram e comprar imóveis de lixo e perder neles as suas próprias camisas.

Assim, basicamente, quando a América gasta dinheiro no estrangeiro, os bancos centrais realmente não especulam. Eles não compram empresas. Eles compram títulos do Tesouro. Portanto, temos um défice monetário; os dólares são gastos no estrangeiro; os bancos centrais emprestam-nos de volta ao Tesouro; e isso financia o défice orçamental, mas também financia o défice da balança de pagamentos. Por isso, continuamos a dar apenas  papel-moeda e não  ouro.

Penso que o Presidente George W. Bush disse: “Nunca vamos realmente pagar isto. Eles recebem as confirmações, têm os seus registos, mas nós não vamos retribuir”. E depois, por acaso, tem Tom Cotton, um senador do [Arkansas], a dizer: “Bem sabem que a China detém poupanças de cerca de 2 milhões de  milhões  de dólares em obrigações do Tesouro dos EUA”. Porque é que não recusamos pagar?  Eles deram-nos o vírus; vamos ficar com o dinheiro e anular a dívida “.

Podemos anular ativos iranianos, ativos venezuelanos – é como se um banco pudesse simplesmente eliminar outros depósitos que tem, se necessário for, pela via militar. Assim, os Estados Unidos não têm qualquer constrangimento em termos de despesas militares, pois deixaram de estar sob o regime do padrão-ouro.

Agora, Herman Kahn e eu próprio fomos, noutra ocasião, ao Departamento do Tesouro, e falámos sobre como seria o mundo sob o regime padrão-ouro. Eu disse: “O ouro é um metal pacífico”. Se temos de pagar em ouro, nenhum país num sistema de  padrão de ouro se pode dar ao luxo de ir para a guerra. Porque uma guerra implicaria um pagamento em divisas, e ter-se-ia de pagar essa divisa estrangeira em ouro, e não em moeda fiduciária e acabar-se-ia  por ir à falência muito rapidamente”.

Escusado será dizer que alguém do Departamento de Defesa disse: “É por isso que não o vamos fazer”.

Eis um exemplo: Vamos supor que você vai à mercearia e compra comida e depois assina uma declaração de  dívida  para tudo o que compra. Vai-se a uma loja de bebidas, a mesma coisa , dívida. Você compra um carro, a mesma coisa, declaração de dívida.

Você compra tudo o que quer só com uma declaração de dívida. Mas quando as pessoas tentam cobrar essas declarações de dívida, você diz: “Essa declaração de dívida não é para me ser cobrada a  mim”. Troquem-nas  entre vocês. Pensem nisso como  sendo as vossas poupanças, e troquem essas declarações de dívida entre vocês.  Tratem-nas  como um bem, tal como tratam uma nota de dólar guardada num frasco de bolachas e não gasta”.

Bem, assumiria assim a posição do passageiro à borla.  Ser-lhe-ia permitido  comprar o que quisesse e emitir declarações de dívida para tudo, e ninguém jamais lhe poderia cobrar fosse o que fosse. É essa a posição dos Estados Unidos, e é isso que eles querem manter.

E é por isso que a China, a Rússia, e outros países estão a tentar desdolarizar, a tentar ver-se livre do dólar. Estão a comprar ouro para poderem regularizar os défices de pagamentos entre si na sua própria moeda, ou moedas de países amigos, e evitar completamente o dólar.

BEN NORTON: Michael, na primeira parte desta entrevista, quando estávamos a falar do resgate devido à situação de crise do coronavírus e dos 6 milhões de milhões  de dólares que foram basicamente dados a Wall Street, o senhor mencionou que se tratava basicamente de um esquema fraudulento. Mas disse, realmente, que muitas pessoas estão surpreendidas, que acham que o sistema não pode funcionar desta forma, porque parece tão descaradamente montado contra elas, tão descaradamente injusto que é impossível ser verdade.

O seu livro “Super Imperialismo” é tão arrebatador porque, em termos simplistas para alguém que é definitivamente um não-especialista como eu, torna-se tão claro que, como diz, os EUA, desde o fim da Segunda Guerra Mundial, têm vindo a obter “o maior almoço grátis alguma vez alcançado na história”. .

Vou ler aqui apenas dois parágrafos muito rapidamente do seu livro, e depois talvez lhe peça para desmontar  detalhadamente como é que  isto funciona. Mas logo no início – e esta é a versão atualizada do seu livro, e vamos fazer a ligação ao seu livro nas notas deste  programa. Por isso, para todos,  eu recomendo vivamente que qualquer pessoa que esteja a ouvir possa ir comprar o Super Imperialismo.

MICHAEL HUDSON: Vou republicá-lo através do meu próprio instituto. É muito difícil conseguir o livro; é por isso que estou a comprar os direitos de volta. Na verdade, não é muito comercializado neste país. De qualquer forma, está no meu site, e não é preciso comprar o livro. Pode ir ao meu site e obter muitos dos capítulos.

BEN NORTON: Excelente, bem, vou fazer um link para o seu site nas notas do programa que é  michael-hudson.com E obrigado por colocar isso, porque tenho estado a ler o PDF, e é incrível.

Por isso escreveu na introdução da nova versão atualizada, que escreveu em 2002, na véspera da invasão do Iraque:

“O padrão de financiamento internacional dos títulos do Tesouro permitiu aos Estados Unidos obter o maior almoço gratuito alguma vez alcançado na história. Os Estados Unidos viraram o sistema financeiro internacional de pernas para o ar, enquanto anteriormente se apoiava no ouro, atualmente as reservas dos bancos centrais são detidas sob a forma de moeda fiduciária do governo dos Estados Unidos, que pode ser aumentada sem limites.

“Com efeito, a América tem vindo a comprar a Europa, a Ásia e outras regiões com crédito em papel fiduciário, os  US Treasury, e  informaram o mundo de que têm pouca intenção de alguma vez pagarem.

“E há pouco que a Europa ou a Ásia possa fazer quanto a isso, exceto abandonar o dólar e criar o seu próprio sistema financeiro”.

Parece-me, portanto, visto de fora, que se trata de uma situação totalmente insana, de um esquema de conluio total. Pode-nos explicar como funciona esse esquema, e especialmente à luz da economia neoliberal?

Tive, apenas na faculdade, aulas básicas de economia introdutória que eram obrigatórias, especialmente de microeconomia, e nessas aulas ensinam-nos esta forma neoliberal e libertária de economia, e ensinam-nos a famosa citação de Milton Friedman: “Em economia não existe uma tal coisa,  almoços grátis”. Mas está a salientar que, na realidade, no palco internacional, tudo isto é um gigantesco almoço gratuito para o império americano.

MICHAEL HUDSON: A economia financeira é basicamente um almoço gratuito. E se vai ter um almoço gratuito, então protege-se dizendo que não existe  uma tal coisa,  um almoço gratuito. Obviamente, não se quer tornar isso visível. Quer tornar-se tão invisível quanto possível.

A maioria destes países da Ásia recebe dólares das despesas militares dos EUA e dizem:  “o que vamos fazer com os dólares?”. Compram obrigações do Tesouro dos EUA, com estas,  financiam-se as despesas militares nas bases militares que  rodeiam esses países. Por isso, financiam o seu próprio cerco militar!

É um fluxo circular. Os Estados Unidos gastam dólares nesses países; os beneficiários locais  desses dólares trocam-nos contra moeda local; os beneficiários da moeda local, os vendedores de alimentos e os fabricantes, entregam os dólares aos bancos contra moeda nacional, que é como eles funcionam; e esses  dólares são enviados de volta para os Estados Unidos; e é um fluxo circular que tem um carácter basicamente militar.

Por isso, se de economia se fala  como se toda a economia consistisse em os trabalhadores gastarem os seus salários em bens e serviços, onde o governo não tem um papel a não ser o de interferir. Mas o governo é 40 por cento do PIB, principalmente de carácter militar. Portanto, é óbvio que em  economia não fala realmente do que  você  pensa da economia. Não se fala sobre a sociedade.

As canhoneiras não aparecem nos seus manuais de economia. Aposto que a vossa teoria de preços  ensinada na microeconomia não tinha barcos armados, nem o sector do crime. E provavelmente  esses agentes da microeconomia  também não tinham dívidas.

Na economia fala-se  de um segmento muito estreito que é  isolado, como se estivéssemos a falar de um pequeno órgão do organismo, sem ver o organismo como um sistema económico global, um sistema inter-relacionado que é dominado e controlado pelo sector financeiro e imobiliário, que também ganhou controlo sobre o governo.

E se o complexo financeiro, segurador e militar-industrial se torna invisível e ausente dos livros de ensino de economia, então as pessoas não vão olhar  para a economia  e perguntar: “Como é  isso afeta a nossa vida? Como é que isso afeta a economia?”. E não vão ver o que está a tornar a economia pobre e a ser levada para a depressão.

MAX BLUMENTHAL: Bem, não posso passar declarações de dívida para tudo, para as minhas próprias dívidas, porque quando o cobrador de dívidas vem, não tenho canhões; não tenho metralhadoras; não tenho nenhuma arma.

Se eu quisesse comprar uma arma, não a conseguiria comprar, porque são todas compradas na Virgínia, do outro lado do rio, porque sabem, todos vivem em  pânico. E tenho a certeza que se estão a defender, como se as suas armas tivessem  sido disparadas acidentalmente e matassem os seus cães.

Mas isso é o que falta também nesta teoria é que, se as pessoas tentarem cobrar a sua dívida aos EUA, os EUA podem fazer-lhes graves danos, militares ou outros.

Vamos jogar a isto. Quero dizer, como veem isto a acontecer na Venezuela, onde o Governo venezuelano tentou contornar as sanções dos EUA, tentou trabalhar com a Rússia e a China para vender ouro; no ano passado foram roubados pelos EUA em cerca de 5 mil milhões de dólares  em ativos  através de pura pirataria.

E agora os EUA enviaram, penso eu, mais navios navais do que aqueles que alguma vez vimos na América Latina ou na América do Sul em qualquer altura nos últimos 30 anos.

MICHAEL HUDSON: Bem, essa é a outra parte do “Super Imperialismo”: a servidão pela  dívida. A Venezuela teve há alguns anos um ditador instalado pelos  Estados Unidos, um homem de direita, e mudou a lei na Venezuela para que a dívida soberana venezuelana, contraída  em dólares, fosse suportada pela garantia das suas reservas de petróleo. E possui as maiores reservas de petróleo da América do Sul.

Por isso, os Estados Unidos querem apanhar  as reservas de petróleo. Tal como o Vice-Presidente Cheney disse que vamos ao Iraque e à Síria para apanhar o petróleo, a América gostaria de fazer o mesmo a   todas essas reservas de petróleo na Venezuela.

Como é que as pode obter? Bem, não tem tecnicamente de levar a cabo uma invasão. As finanças são o novo modo de guerra. Os EUA tentaram agarrar essas reservas dizendo: “Vamos bloquear a Venezuela de ganhar o dinheiro exportando o petróleo e de obter  dinheiro com os seus investimentos americanos para pagar a dívida externa”. Por isso, vamos fixar-nos apenas o investimento e vamos escolher um mini-ditador”. Vamos designar  Guaidó como chefe de Estado e dizer: “Este petróleo e os depósitos bancários não pertencem à Venezuela; estamos a colocar arbitrariamente tudo isto de lado e vamos  dar os ativos de distribuição de petróleo que estão na América do Norte ao Guaidó”. Vamos impedir a Venezuela de pagar a dívida”.”

Isso significa que se irá entrar em incumprimento em dívida estrangeira, pelo que os fundos ditos  abutres [como o de Paul Singer que “visitou Portugal em plena crise da dívida   especulando sobre a então PT] e os obrigacionistas podem agora sacar petróleo venezuelano, em qualquer lugar, ao abrigo do direito internacional, porque é penhorado como garantia da sua dívida, tal como se tivesse contraído uma dívida hipotecária e se tivesse penhorado a sua casa e o credor pudesse tirar-lhe a casa, tal como Obama fez a tanta gente perder as suas casas[1].

Mas a Venezuela ainda está a conseguir sobreviver. Por isso, podem precisar de uma força militar para invadir a Venezuela, como Bush invadiu o Panamá ou Granada. É uma questão de petróleo. Por isso, o que o financiamento não conseguiu, finalmente, precisa mesmo do punho militar. A finança é  basicamente apoiada pelos militares no exterior, e a nível interno a finança é apoiada pela força, pelo xerife, pelo departamento de polícia. É a força necessária para nos expulsar de casa.

Portanto, a questão é: qual é a defesa das pessoas endividadas na América? Será que tem de haver aqui uma revolução armada para anular as dívidas? Será que eles têm de comer os ricos? Essa é a questão que está a moldar a política de hoje na América.

Não a vejo a ser resolvida. Se não for resolvida pelas pessoas endividadas que simplesmente morrem à fome, se suicidam, ficam doentes ou emigram, então terá de haver uma revolução. Estas são as escolhas na América.

A Venezuela disse: “Não vamos morrer à fome no escuro”. Por isso há uma “construção”  militar pretendendo  que se trata de drogas, quando é a Venezuela que ameaça interromper o comércio de drogas da CIA. É essa a ironia da situação! É a CIA que é o traficante de droga, não o governo venezuelano. Portanto, estamos no mundo orwelliano que trabalha através dos órgãos ou do New York Times, do Washington Post, da MSNBC, da Rádio Pública Nacional, a verdadeira direita da América.

Estou tão satisfeito com a exposição que acaba de fazer . Porque muito do que fazemos no Grayzone é esburacar nas construções de propaganda que são usadas basicamente para dar cobertura liberal ao que é puro gangsterismo.

MICHAEL HUDSON: É muito mais preto e branco do que cinzento.

MAX BLUMENTHAL: Sim, bem, devíamos chamar-lhe As Zonas Negra e Branca.

Estamos a vê-la também na Síria, onde temos tido acções de propaganda dos direitos humanos construídas uma após outra. E agora, no fim da linha, quando toda a guerra por procuração terminar, Trump diz: “Temos de manter as tropas lá por causa do petróleo. Precisamos deles para guardar os campos petrolíferos”.

Assim, tudo se torna claro. Mas não é claro para todos aqueles que têm estado confusos nos últimos anos, na sequência da forma como a guerra lhes tem sido propagandeada através destes meios de comunicação social empresariais  e publicações governamentais dos EUA que acabaram de citar. É que nós estamos lá pelo petróleo.

Bem Norton. Michael, quero dizer que há muitas maneiras de explorarmos melhor este tema, e espero que possamos ter-te de volta mais vezes no futuro, porque precisamos definitivamente de mais cobertura económica. Falamos frequentemente sobre o lado político de muitas destas questões do imperialismo americano, mas é claro que o elemento económico é absolutamente fundamental para compreender o que está a acontecer.

Estou também muito interessado, você  mencionou antes de começarmos esta entrevista, que o seu livro “Super Imperialismo” é muito popular na China, e que mesmo nas escolas de lá as pessoas o estão a ler. A questão da China, penso eu, é a questão central deste século – a ascensão da China, a chamada “ameaça” que a China representa, entre aspas assustadoras, para os EUA. É claro que a China não ameaça o povo americano, mas sim o estrangulamento que os EUA fazem sobre o sistema financeiro internacional.

E temos visto sob  Trump – quer dizer, isso já acontece desde há anos. Na verdade, começou sob Obama com o “Pivot to Asia”, e essa foi a estratégia do Departamento de Estado de Hillary Clinton – avançar em direção ao cerco da China.

Mas agora sob Trump tornou-se o principal bicho-papão da política externa da Casa Branca. E especialmente agora com o coronavírus, todos os dias os meios de comunicação social empresariais  estão cheios de propaganda anti-china sem parar – “A China é o regime totalitário maléfico que vai dominar o mundo, e nós temos de nos unir aos republicanos para lutar contra a China”.

E agora até vemos números a defender abertamente a “nova guerra fria”, como eles lhe chamam. Dizem que estamos numa nova Guerra Fria, como disse recentemente o historiador de direita de Harvard Niall Ferguson no New York Times.

Por isso pergunto-me, o seu livro, penso eu, é ainda mais relevante agora do que quando o escreveu pela primeira vez, é mesmo muito mais relevante. Mas então e a questão da China? E quanto à questão desta nova guerra fria? Acha que isso poderia desafiar o sistema financeiro dominado pelos EUA que foi criado após a Segunda Guerra Mundial, utilizando as armas do Banco Mundial e do FMI, tal como o senhor refere? Estaremos talvez a caminhar para a criação de um novo sistema financeiro internacional?

MICHAEL HUDSON: O que torna a China tão ameaçadora é que está a seguir exatamente as  mesmas políticas que tornaram a América rica no século XIX. É uma economia mista. O seu governo está a fornecer infraestruturas básicas a preços subsidiados para baixar o custo de vida e fazer negócios, para que a sua indústria de exportação possa ganhar dinheiro. Está a subsidiar a investigação e o desenvolvimento, tal como os Estados Unidos fizeram no século XIX e no início do século XX.

Assim, a América diz basicamente ao resto do mundo: “Façam como dizemos, não como nós fazemos, e não como nós fizemos”.

A China tem uma economia mista que está a funcionar muito bem. Podemos apenas ver as mudanças que aí ocorrem. Compreende-se que os Estados Unidos estão a tentar desativá-la, que os Estados Unidos querem controlar todos os sectores de produção que têm preços monopolistas – tecnologia da informação, tecnologia de microchips , comunicações 5G, despesas militares.

Os Estados Unidos querem poder pagar por mercadorias do resto do mundo com as suas exportações a preços exagerados, filmes americanos, tudo o que tenha uma patente que produza um preço de monopólio.

A América, nos anos 50, tentou combater a China, sancionando as exportações de cereais para a China. Referiu-se há pouco às sanções, as primeiras sanções foram utilizadas contra a China, tentando matá-la à fome com cereais. O Canadá quebrou esse embargo, e a China foi muito amistosa com o Canadá, até o Primeiro-Ministro do Canadá receber agora as suas ordens de uma pequena cave no Pentágono, e concordar em prender  os funcionários chineses. O Canadá já não é um país. Por isso, a China não se sente tão amiga do Canadá agora que este país se tornou um satélite americano.

A China percebeu que não pode depender da América para nada. Os EUA podem cortar-lhes os víveres com sanções como tentaram fazer com o Irão, com a Venezuela, com Cuba. Assim foi a ideia da China, da Rússia e de outros países da Organização de Cooperação de Xangai: “Temos de ser independentes dentro de nós mesmos  e estabelecer  uma zona comercial euro-asiática, e vamos descolar porque somos um capitalismo industrial bem sucedido, evoluindo para o socialismo, para uma economia mista, com o governo a tratar de todos os sectores monopolistas para impedir a criação aqui de  preços monopolistas”.

“E nós não queremos que os bancos americanos entrem, criem dólares de papel e comprem todas as nossas indústrias. Não vamos deixar a América fazer isso”.

Visitei frequentemente a China. Sou professor na Universidade de Pequim, e tenho cátedras honorárias em Wuhan. Há uma série de artigos no meu site da Academia Chinesa de Ciências Sociais sobre a desdolarização, essencialmente a explicar como  é que a China pode evitar a utilização  do dólar ao tornar-se independente na agricultura, na tecnologia e na banca.

A ameaça da China é a de não ser uma vítima. Os vitimizadores olham sempre  para as vítimas como viciados  agressores  delas mesmas.  A América diz, pois,  que a China é uma ameaça viciosa porque não nos deixa explorá-la  e vitimizá-la. Esta é a retórica orwelliana do valentão. O rufia acredita sempre que a pessoa que está a atacar é uma ameaça. Tal como na Alemanha, Goebbels disse que a sua forma segura de mobilizar a população por detrás de qualquer ataque era dizer: “Estamos a defender-nos contra um ataque estrangeiro”.

Assim, o ataque americano contra a China finge ser uma defesa contra o seu desejo de serem tão independentes quanto  os Estados Unidos sempre foram. Os Estados Unidos não querem que nenhum outro país tenha qualquer influência a exercer sobre os Estados Unidos. Os Estados Unidos insistem em vetar o poder em qualquer organização a que venham a aderir – o Banco Mundial, o FMI, as Nações Unidas.

E a China diz essencialmente, ok, esta é a própria definição de independência nacional, ser independente de outros países capazes de nos sufocar, quer se trate de cereais de que precisamos, ou da tecnologia, ou do sistema de compensação interbancária SWIFT para fazer funcionar o nosso sistema financeiro, ou o sistema da Internet.

Ao travar esta guerra económica contra a China para proteger os monopólios americanos, a América está a integrar a China e a Rússia. E provavelmente o principal nacionalista chinês do mundo, o principal nacionalista russo, é Donald Trump. Ele diz: “Escutem rapazes, eu sei que vocês são influenciados pelos neoliberais americanos. Eu vou ajudar-vos. Acredito que vocês devem ser independentes. Vou ajudar-vos, chineses, russos e iranianos, a serem independentes. Vou continuar a pressionar as sanções na agricultura para garantir que se possam alimentar. Vou continuar a pressionar as sanções sobre a tecnologia, para garantir que se podem defender”. Portanto, é óbvio que é um agente chinês e russo, tal como diz a MSNBC

BEN NORTON: Sim e Michael, isto faz-me lembrar, eu costumava acompanhar-te   regularmente no The Real News, e trabalhei lá durante algum tempo, e infelizmente houve ali um simpático golpe interno, que  levou a que a situação se tenha deslocado  um pouco para a direita.

Mas a questão é que, há alguns anos atrás no The Real News, lembro-me que fizeram um debate incrível entre você e o economista canadiano Leo Panitch, e foi sobre a natureza do sistema BRICS.

Isso foi antes da série de golpes que derrubaram a esquerda no Brasil e instalaram o governo fascista agora de Jair Bolsonaro, um extremista de extrema-direita. E na época havia a Dilma Rousseff, uma progressista do Partido dos Trabalhadores. O Brasil e a Rússia estavam a ajudar a tomar a liderança no sistema BRICS. Ou seja,  Brasil, a Rússia, a Índia, a China e a África do Sul.

E, claro, a série de golpes de Estado no Brasil, como que pôs fim a esse projeto de integração regional Sul-Sul. E também a ascensão da direita, da extrema-direita, na Índia, com Narendra Modi.

Mas  houve um momento em que a comunidade BRICS, estes países estavam a tentar construir o seu próprio banco. A China, evidentemente, tem uma série de bancos. Mencionou a Organização de Cooperação de Xangai. Portanto, houve estas instituições internacionais, instituições multilaterais, criadas para desafiar a hegemonia do Banco Mundial e do FMI.

Lembro-me que, nesse debate, Leo Panitch defendia que “Oh, o sistema BRICS e a Organização de Cooperação de Xangai, todas estas instituições vão ser apenas a nova forma de neoliberalismo”. Vão apenas substituir o Banco Mundial e implementar muitas das mesmas políticas”. Não concordou com isso.

Por isso, será que pode, de certa forma, relançar um pouco esse debate aqui e articular um pouco a sua posição para os nossos espectadores?

MICHAEL HUDSON: O Banco Mundial tem um objetivo principal, que é o de tornar outros países dependentes da agricultura americana. Este objetivo está incorporado nos seus artigos de acordo. Só pode fazer empréstimos em moeda estrangeira, pelo que só concederá empréstimos a países para o desenvolvimento agrícola, estradas, se for para promover as exportações.

Assim, os Estados Unidos, através do Banco Mundial, tornaram-se, penso eu, a organização mais perigosa, de direita e maligna da história moderna – mais maligna do que o FMI. É por isso que tem sido quase sempre dirigida por um secretário da defesa. Tem sido sempre explicitamente militar. É o punho duro do imperialismo americano.

A sua ideia é fazer com que os países latino-americanos, africanos e asiáticos exportem culturas de plantação, especialmente plantações que sejam de propriedade norte-americana ou estrangeira. A principal diretiva do Banco Mundial aos países é: “Não devem produzir alimentos para vocês mesmos; não devem cultivar os seus próprios cereais ou os seus próprios alimentos; devem depender dos Estados Unidos para isso. E podem pagar por isso exportando culturas de plantação que não podem ser cultivadas em zonas temperadas como os Estados Unidos”.

Portanto, a China e a Rússia não são realmente economias agrícolas. O pilar da balança comercial da América tem sido a agricultura, não a indústria. Obviamente, nós desindustrializámos. A agricultura, desde a Segunda Guerra Mundial, tem sido a base da balança comercial.

Os EUA exigem uma dependência externa dos seus cereais, tecnologia e finanças. O objetivo do Banco Mundial é fazer com que as economias de outros países sejam distorcidas e empenadas a ponto de dependerem dos Estados Unidos para as estruturas de comércio internacional .

BEN NORTON: Bem, Michael, não é também verdade que a China tem uma produção agrícola massiva  e que a Rússia produz muito trigo, não é assim?

MICHAEL HUDSON: Claro, mas não tem de basear as suas exportações  sobre a agricultura para os países africanos.  A China pode dar-se ao luxo de ter países africanos como seus parceiros comerciais a cultivar para satisfazer as suas próprias necessidades  alimentares  para que não tenham de comprar alimentos americanos.

Imagine, se a China ajudar outros países a cultivar os seus próprios alimentos e cereais, então o excedente comercial americano evapora-se. Porque essa é a principal vantagem que a América tem sobre o setor agroalimentar.

BEN NORTON: Sim, é como aquela famosa citação: Se você der um peixe a um homem, ele  tem comida para um dia; se você ensinar um homem a pescar, ele vai ter comida para o resto da vida. E então eu acho que Marx não complicou isso?

MICHAEL HUDSON: Mas se lhes emprestares o dinheiro para comprar um peixe, então  ele acaba por falir e tu acabas por ficar  com todos os seus  bens.

Sim, quero dizer que vimos claramente este jogo no Haiti.

MICHAEL HUDSON: Sim, isso é o típico – o que a América tem quando tem é completamente livre, é exatamente a história do Haiti. Isso é absolutamente terrível. É deprimente de ler.

Tenho uma dissonância cognitiva, porque é tão injusto. É tão horrível de ler; afasto os meus olhos da página.

MAX BLUMENTHAL: Sim, só de observar tudo isto foi o que me levou ao ponto de concluir que tinha de haver outro sistema financeiro internacional, quando vi como o Haiti foi posto de rastos. Primeiro com a Escola das Américas a realizar um golpe de Estado, e Bill Clinton reinstala Jean-Bertrand Aristide. Tudo se passa sob o pretexto da boa vontade de Washington. Mas Aristide é obrigado a assinar, basicamente a assinar a perda da capacidade de produção agrícola interna do Haiti. E, de repente, a economia do arroz deles fica  dizimada e estão a importar arroz da Louisiana.

E a única economia que resta, a única oportunidade económica, é trabalhar nestas zonas de comércio livre para as empresas americanas. Esse é apenas o modelo em grande escala. Ajudou a levar ao próximo golpe, que afastou Aristide, e vejam onde está hoje o Haiti.

MICHAEL HUDSON: Certo, significa que não deve proteger a sua própria economia; só a América pode proteger a sua própria economia. Mas não deve protegê-la. Isso é comércio livre, ao estilo dos EUA.

MAX BLUMENTHAL: Certo, voltando ao programa JFK Seeds of Peace. São grandes subsídios agrícolas, e depois bombardeiam o Terceiro Mundo com sementes e mercadorias baratas, e depois têm uma crise migratória.

MICHAEL HUDSON: Sementes para a Fome é o nome pelo qual  o programa é conhecido. Porque ao darem um preço baixo de ajuda estrangeira a estes países, impediram o desenvolvimento agrícola interno, porque nenhum agricultor podia competir com as culturas gratuitas que a América estava a dar. O objetivo do programa Sementes para a Fome era impedir que os países se alimentassem a si próprios e torná-los assim dependentes.

MAX BLUMENTHAL: Sim, quando eu vivia em LA encontrava famílias que inicialmente tinham atravessado a fronteira por causa do programa – elas apontavam o dedo diretamente para Seeds for Starvation. Diziam: “Viemos do México rural, e o nosso ganha pão  foi reduzido a nada “.

Portanto, este é um programa de longa data. E já vimos no resgate  do coronavírus cinco vezes mais dinheiro fornecido à USAID para os chamados programas de estabilização do que para os trabalhadores hospitalares. Foi exatamente isso que acabou de descrever: A USAID é a ponta de lança destes programas que visam acabar com os programas de reforma agrária e substituí-los por ajuda dos EUA sob a forma destas sementes baratas, etc., bananas baratas para o Burundi, e para todo o lado.

Vê então, através da sua experiência na China, que a Iniciativa Uma estrada, uma cintura (Belt and Road) é uma verdadeira alternativa a este modelo?

MICHAEL HUDSON: Bem, eles estão certamente a tentar que assim seja. A propósito, o que você acabou de descrever, não é um bug; é uma característica. Quando você tem o mesmo problema a ocorrer  desde há mais  de 50 anos, ou é insanidade – e nós sabemos que não é – ou é a intenção. Você tem que assumir em dado  ponto que os resultados destes programas de ajuda são os resultados pretendidos. E certamente se você olhar para os testemunhos do Congresso, o Congresso sabe disso, mas os meios de comunicação social não captam nada disso.

Na China, eles estão realmente a tentar criar uma alternativa. Eles querem libertar-se dos Estados Unidos. E se as políticas do Trump de “América Primeiro” continuarem, e como ele disse, “temos que ganhar todos os acordos”, isso significa que qualquer acordo que fizermos com qualquer país estrangeiro, esse país tem que perder.

Então ele está a integrar o mundo inteiro, e a isolar os Estados Unidos. Quando você isola os Estados Unidos, a China percebe que o que será isolado é a filosofia neoliberal que é a história de capa, a economia do lixo que justifica essas políticas destrutivas.

BEN NORTON: Bem Michael, este foi, penso eu, um dos nossos episódios mais interessantes. Queremos mais cobertura económica, por isso esperamos poder falar mais contigo e obter mais algumas das tuas análises.

Acho que só para concluir aqui, mencionei que o termo Guerra Fria tem sido muito usado. E, claro, a Nova Guerra Fria vai ser diferente da velha Guerra Fria de muitas maneiras diferentes.

E é claro que a Rússia não é de todo a União Soviética. A Rússia não tem um sistema socialista. O sistema chinês, como referiu, é misto, ainda existem elementos socialistas, mas mesmo a economia da China não é tão controlada pelo Estado como a União Soviética era no auge da Guerra Fria. Por isso, pergunto-me, é bastante claro se ouvirmos a retórica vinda do Pentágono, que a ” concorrência das grandes  potências”, como lhe chamam, é agora a filosofia subjacente à política externa dos EUA. Onde está a economia nisto?

Porque a economia do neoliberalismo, após a destruição do Bloco Socialista, e a declaração de George H. W. Bush de uma “Nova Ordem Mundial”, que é obviamente apenas neoliberalismo e hegemonia americana – nesse período, a filosofia económica clara, o tipo de política externa orientadora, foi a destruição de Estados independentes e socialistas e a integração forçada desses países na economia neoliberal internacional. Vimos isso com o Iraque; vimos isso com a ex-Jugoslávia; vimos isso com a Líbia – que é realmente apenas um Estado falhado.

Por isso, agora penso que estamos numa espécie de nova fase. O Pentágono lançou há dois anos a sua estratégia de segurança de defesa nacional dizendo que o novo objetivo da política externa do Pentágono e dos EUA é conter a China e a Rússia. Esse é o objetivo declarado. Será que isso parece ser economicamente viável para o futuro?

MICHAEL HUDSON: Penso que é muito correto. Irá conter a Rússia e a China, e não há nada que a Rússia e a China queiram mais do que ser contidas.

Por outras palavras, estão a falar da dissociação da economia dos EUA. E os EUA vão dizer: “Bem, não vamos deixá-los ter acesso ao mercado dos EUA, e não vamos ter nada a ver com eles”. E a Rússia e a China dizem: “Rapaz, isso é maravilhoso, OK, estamos no mesmo comprimento de onda lá. Podem conter-nos; nós vamos conter-vos”. Vocês seguem o vosso caminho; nós seguiremos o nosso”.

Assim, basicamente a Guerra Fria foi uma tentativa de neoliberalismo e privatização. É o Thatcherismo. É: “Como é que fazemos a China e a Rússia parecerem a Inglaterra de Margaret Thatcher, ou a Rússia nos anos 90 sob o jugo de Boris Ieltsine?

“Como impedir que outros países protejam a sua indústria e o seu sistema financeiro do sistema financeiro dos Estados Unidos e das exportações americanas? Como impedir que outros países façam por si próprios o que a América faz por si própria? Como se introduz uma duplicidade de critérios nas finanças mundiais, no comércio mundial e na política mundial?”

O resultado de tentar evitar que outros países o façam é simplesmente apressar o convidado de saída, acelerar a sua compreensão de que têm de fazer uma pausa. Têm de criar o seu próprio abastecimento alimentar, não depender das exportações americanas de alimentos. Eles têm de criar o seu próprio sistema 5G, não deixar que o 5G da América com os seus portais de espionagem incorporados os invada. Eles têm de criar a sua própria sociedade, e seguir o seu próprio caminho.

Esta era a filosofia chinesa antes do século XVI. Foi sempre o Reino do Centro [Império do Meio, para os portugueses]; a China via-se como independente do resto do mundo. Está a voltar a isso, excepto que sabe que precisa de matérias primas de África e de outros países.

A questão é a seguinte: o que é que a Europa vai fazer? Será que a Europa vai simplesmente seguir as políticas deflacionárias da direita à Thatcher na zona euro e acabar por se parecer com a Grécia? Ou vai juntar-se à Eurásia, à Rússia e à China, e fazer todo um continente asiático?

A Guerra Fria é realmente sobre o que vai acontecer à Europa. Porque já isolámos a China e a Rússia e a Organização de Cooperação de Xangai.

A questão é o que vai acontecer à Europa, e o que vai acontecer a África?

BEN NORTON: Ótimo, bem, penso que é a nota perfeita para terminar. Estávamos a falar com o economista Michael Hudson. Ele é um analista financeiro de Wall Street e um distinto professor de economia na Universidade do Missouri – Kansas City.

É também autor de muitos livros, e estávamos a falar de Super Imperialismo: A Estratégia Económica do Império Americano. Ele tem duas versões disso, e nós vamos ligar-nos a esse livro nas notas do programa deste episódio.

Também faremos um link para o seu site, onde poderá encontrar muitas entrevistas fantásticas com transcrições, os seus artigos – que é michael-hudson.com.

Michael, muito obrigado. Foi uma entrevista realmente fantástica, em duas partes. Aprendi muito, e penso que os nossos espectadores irão beneficiar muito.

Sim, muito obrigado, Michael.

MICHAEL HUDSON: Obrigado. Espero que possamos preencher todos os detalhes em transmissões subsequentes.

MAX BLUMENTHAL: De acordo,  muito obrigado Michael.

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[1] Nota do tradutor:  Pode-se estranhar a dureza para com Obama. Mas, curiosamente basta comparar a atitude firme de George Bush pai contra os fundos  abutres, e em particular contra Paul Singer,  e a posição bastante complacente de Obama face a este mesmo personagem com a crise da Argentina, e as dúvidas desaparecem.

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Pode ler este artigo no original clicando em:

Transcript – How the US makes countries pay for its wars: Economics of American imperialism with Michael Hudson

Também o pode ler clicando em:

Max Blumenthal and Ben Norton With Michael Hudson: How The US Makes Countries Pay For Its Wars – Economics Of American Imperialism

 

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Nome completo: João Manuel Pacheco Machado

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