CARTA DE BRAGA – “de livros e escritores” por António Oliveira

Todos os dias os ecrãs, grandes e pequenos, se perguntam, ou nos perguntam, quando volta a praia, os festivais, os futebóis, para no lado de cá discutirmos, enchermos páginas de jornais, da especialidade ou não, como se futuro mais ou menos próximo, dependesse de tais coisas.

É verdade que são importantes, bem importantes, movimentam milhares de pessoas e muitos milhões dos donos e patrocinadores, influem até nos comportamentos e nas politicas e, mais importante, nos níveis de cultura e vivências de uma qualquer sociedade.

Não quero entrar numa polémica sobre tais temas, mas tão só fazer uma pergunta mais para mim do que para que alguém me queira responder: quando voltam os teatros, as feiras dos livros, os editores, os livreiros e mais relevante ainda, quando voltam os escritores?

Não me lembro de ter visto esta pergunta ou uma outra igual ou parecida, feita em lugar próprio na informação nossa, na que fazem pensando nas minorias, na dirigida às maiorias (onde até não será muito apreciada) mas, lembro-me sim das palavras do filósofo Epicteto no século I da nossa era.

Epicteto, que até foi escravo ao serviço do secretário de Nero, deixou escrito ‘Lembrai-vos que em todas as festas, tendes dois convivas a entreter – o corpo e a alma. O que dais ao corpo, na realidade, o perdeis. Mas o que dais à alma, permanece para sempre’.

Vejo com imensa tristeza, fotos de interiores de livrarias que já fecharam ou vão fechar, vejo também como os espaços nos supermercados destinados aos livros, são ocupados por gente isolada a ler jornais e li, há pucos dias, de um balãozinho de ar fresco para as pequenas editoras.

Acabei de tocar em dois temas capitais para quem vive da (ou com a) escrita. E os que penamos deste ‘ofício de viver’ sabemos bem dos ‘nãos’ mais ou menos bem-educados que acompanham a rejeição de um original.

Críamos ser a melhor escrita jamais feita, encomendámo-nos a todos os deuses protectores dos aparos, agora aos dos especialistas em teclas, mas cada ‘não’, trespassa-nos a alma. Se acertávamos num que acreditava em nós, após os fiascos das apresentações, corríamos às livrarias, sempre a começar pela mais importante do lugar e… corrida em vão!

Mas os livreiros são os intermediários indispensáveis entre escritor e leitor, apesar de quase nunca pensarmos neles nem na importância do seu trabalho. Tive um como amigo, muito importante para me orientar e ordenar conhecimentos, por saber bem o que procurava, por me contar as novidades logo à chegada e por vender um livro como uma peça de arte, não como um par de meias, ou uma cerveja sem álcool.

Não há muito tempo ouvi um outro amigo, também leitor e escritor, dizer-me com tristeza, ‘Quem tem um livreiro à cabeceira tem um tesouro’.

Vivemos tempos ‘escuros’, mas não esqueço por tudo o que li, mas sem me querer comparar, Hegel morreu pela epidemia da peste em Berlim, contaminado nas aulas que continuou a dar e escreveu até ao último dia, Kant nunca saía da sua cidade, Jean Cavaillés o jovem filósofo francês, escreveu o seu tratado de lógica até à noite anterior a ser fuzilado pelos nazis e Tomás Moro, escreveu sempre enquanto esteve preso.

As calamidades não impedem o exercício da razão nem o progresso do espírito, ou dito a maneira de John Dos Passos ‘em tempos de mudança, quando o raciocínio do homem se sente afundar nas areias movediças do medo, o sentido de continuidade com as gerações anteriores, pode ser o salva-vidas estendido sobre o presente’.

Na verdade, somos agora os últimos de uma linhagem de leitores, iniciada talvez na Grécia Antiga, a que conseguiu o salvamento de milhões de livros que, apesar dos séculos ainda estão vivos e os podemos ‘representar’, até ‘falar’ com o passado que, só por si, nos ilumina o presente e serve de guia para o futuro, apesar dos ecrãs pequenos e grandes que quase nunca nos fazem perguntas.

E a terminar, um ‘juízo’ de Luis Sepúlveda, partido há pouco, ‘Sempre vi a literatura como um ponto de encontro. Primeiro, é um ponto de encontro do escritor com a sua própria memória, com as suas referências culturais e sociais. Depois, é um ponto de encontro entre dois estados de alma: o do escritor, quando estava a escrever e o do leitor, no momento em que lê’.

Quando voltam os teatros, os editores, as feiras de livros, os livreiros e os escritores?

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

4 Comments

  1. *Quanto o Professor tem me restaurado mentalmente e psicologicamente .*

    *Obrigada * *Bem haja .*

    *Maria *

    *P.S.* *Posso publicar no meu face : * um ‘*juízo*’ de Luis Sepúlveda, partido há pouco, ‘*Sempre vi a literatura como um ponto de encontro. Primeiro, é um ponto de encontro do escritor com a sua própria memória, com as suas referências culturais e sociais. Depois, é um ponto de encontro entre dois estados de alma: o do escritor, quando estava a escrever e o do leitor, no momento em que lê*’. Quando voltam os teatros, os editores, as feiras de livros, os livreiros e os escritores?

    Sem vírus. http://www.avast.com

  2. Muito obrigado, Maria de Sá!
    Pode publicar o que quiser. A afirmação consta de uma ‘peça’ do Expresso de 16.04.
    A.O.

  3. As suas perguntas não só deviam deviam constituir umas das preocupações constantes da População mas, muito em especial, do Ministério da Cultura. Infelizmente não as temos ouvido. CLV

  4. Lembro-me da resposta de Churchill, em plena guerra mundial, a uma proposta para reduzir o orçamento da cultura, para aumentar o do esforço da guerra, «Se sacrificarmos a nossa cultura, alguém me pode explicar para que fazemos a guerra?»
    Creio bem que também poderemos fazer esta pergunta a muita gente, bem colocada ou não, neste país.
    Um abraço
    A.O.

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