A Universidade em declínio a Alta Frequência – Comentário às reações desencadeadas pelo texto “A Universidade em declínio a Alta Frequência – Em forma de carta aberta aos reitores de ontem e de hoje, que espero não sejam os de amanhã também”. Por Júlio Marques Mota

Espuma dos dias 2 UNIVERSIDADE 2

 

Comentário às reações desencadeadas pelo texto “A Universidade em declínio a Alta Frequência – Em forma de carta aberta aos reitores de ontem e de hoje, que espero não sejam os de amanhã também”

 

julio-marques-mota Por Júlio Marques Mota

Coimbra, 20 de maio de 2020

 

Na sequência da publicação do texto A Universidade em declínio a Alta Frequência – Em forma de carta aberta aos reitores de ontem e de hoje, que espero não sejam os de amanhã também, recebi várias mensagens de apoio. Destaco aqui algumas delas e, sobretudo, saliento a primeira e o última mensagem que serão a base de um comentário mais ou menos desenvolvido deste meu texto a completar o anterior, precisando assim um pouco melhor um ou outro ponto do texto que não tenha ficado claro e acrescentando um outro detalhe que falta no texto anterior.

 

Comentários:

1. L.P. Parece haver no texto uma contradição: diz não querer uma caça às bruxas mas diz quem são os alunos.

2. N.S. Um grande abraço e parabéns por colocar o problema a quem de direito, para além de dar nota dele a quem o desconhecia.

3.A.G.M. Nunca me imagina a ler uma descrição destas

4.O.A. Incrível! Não quero acreditar. A denúncia desta situação é uma obrigação.

5.A.R. Quando pensamos que já vimos tudo, ainda é possível surgir pior.

6. M.S. Aqui se desmonta a mentira da “geração mais qualificada”, talvez só em termos estatísticos. O programa de Bolonha veio degradar um sistema que não era bom mas que, pelo menos, dispunha de tempo para consolidar e experienciar conhecimentos. As bolsas Erasmus são simpáticas para se viajar e fazer turismo. O numero de licenciaturas + mestrados corresponde afinal ao n.º de licenciaturas antes de Bolonha. E os testes? E os trabalhos de grupo? E os semestres de três meses? Ao Júlio Mota o agradecimento pela coragem da denúncia.

 

O primeiro comentário deu-me algum sobressalto, interrogando-se se eu, contrariamente ao que dizia, não estava a querer uma caça as bruxas, ao colocar no texto o nome dos estudantes. Respondi secamente, estava muito cansado, pois foi um texto muito doloroso para mim escrevê-lo. Respondi, dizendo que tinha tornado claro que os nomes eram invenção minha e que se caça às bruxas deve haver, é contra os verdadeiros autores da fraude, e esses têm nome de Senhores, de Senhores Comissários Europeus, de Senhores Membros da Comissão Europeia, de Senhores Ministros, de Senhores Reitores. Dizia ainda que os estudantes faziam o que viam fazer aos mais velhos, mesmo que a uma escala relativamente diferente: os trabalhos, os exercícios a desenvolver em casa, os relatórios e sei lá que mais. Somos claros?

Relembro de memória, um personagem de André Malraux, Kyo creio eu, do romance A Condição Humana, onde a certa altura este se pergunta o que é um homem e dá como resposta: um homem é a soma dos seus atos. No caso em presença, no ensino superior, parafraseando Malraux, um professor pode ser visto pelo que vale a soma dos seus resultados e estes últimos onde estão? Estes estão nos conhecimentos e práticas adquiridas pelos alunos, nas capacidades aquisitivas de novos conhecimentos e na capacidade de utilização científica e prática desses conhecimentos que os alunos terão alcançado com o apoio dos seus docentes.

Ora os documentos que apresentei em anexo ao meu texto que nos mostram eles? Mostram-nos um vazio brutal, vazio em termos de conhecimentos, vazio em termos de ética, vazio em termos de respostas ao mínimo dos estudantes que é estarem preparados para as suas provas de avaliação, vazio em termos de respeito pelas Instituições, vazio inclusive em termos de maturidade emocional. Em suma, são o espelho do que é a desgraça das nossas Instituições de Ensino, hoje, são o seu espelho nestes seus resultados. Parafraseando ainda Malraux, uma Instituição é representada também, pela soma dos seus resultados e estes são principalmente simbolizados naquilo que são os seus estudantes como seu produto. Lamento, mas não vejo outra volta a dar à questão.

É verdade que é muito duro ler aqueles emails, para mim foi mesmo muito doloroso, mas repito alto e bom som: não são os seus autores os principais responsáveis por estes emails, ou melhor, pela substância desses emails. Os principais responsáveis são as Instituições que deixaram levar as situações a este ponto, tendo ao longo de décadas andado a chutar para a frente, e para muito longe, as possíveis soluções de que tanto carecia o ensino superior, enquanto iam degradando de ano para ano a qualidade do ensino fornecido até chegarem aos doutorados descartáveis, com as “suas manifestações de interesse” em serem trabalhadores precários nas Faculdades. Não culpemos pois estes estudantes de 20 anos por se portarem como garotos, culpemos sim aqueles que são os verdadeiros responsáveis pelo estado calamitoso em que se encontram as Instituições Universitárias e pela triste situação intelectual em que se encontram estes mesmos estudantes. Se uma caça às bruxas deve ser feita, esta deveria ser a da responsabilização de quem é verdadeiramente responsável pela situação que atualmente se atravessa e que tem agora como ponto de referência máxima o que se passa com a avaliação à distância. Pensemos bem nisto. Se a avaliação à distância não fosse agora um dado, estes emails existiriam? Não, claramente que não. E estes alunos existiriam e nestas mesmas condições? Claramente que sim, os alunos estariam exatamente na situação em que encontram agora, mas simplesmente sem este tipo de avaliação seriam então invisíveis. O problema de crítica às autoridades reside no facto destas não quererem enfrentar a realidade do ensino de que são a tutela, ou pior ainda, em que tudo fazem para que esta realidade não seja transparente, visível. E o que não é visível, isso, politicamente não existe!

Ainda retomando os emails, contactou-me um antigo aluno meu a declarar-se solidário com a minha indignação, ele que também é explicador, na região Norte. E reproduz-me situações equivalentes. Pedi-lhe que mandasse o texto de dois dos pedidos semelhantes que lhe tinham sido feitos. Tinha alguns nas mensagens do telemóvel e enviou-me então o que lhe pedi, que aqui apresento com a devida correção ortográfica:

  1. Primeiro Pedido. “Boa tarde! Vi que dá explicações de microeconomia. Preciso de ajuda na resolução de uns exercícios amanhã às 14:00, com duração de uma hora. A matéria é a teoria do consumidor e teoria de produção. Será que me pode ajudar?”
  2. Segundo Pedido. “Boa tarde, vi o seu perfil. Bem o intuito desta mensagem não é bem ter uma explicação. Uma vez que vou ter teste amanhã gostava de saber se está disposto a ajudar-me. Sendo assim remunerado numa quantia a combinar. (Disciplina: cálculo financeiro) “

E a abundância de pedidos destes é tanta que o Manuel Gomes no portal da plataforma Explicas-me tem o seguinte cartaz:

NOTA: NÃO PACTUO COM FRAUDES E POR ISSO NÃO RESOLVO EXAMES ONLINE EM TEMPO REAL

https://www.explicas.me/index.php?op=explicador&id=3853

 

E porquê este cartaz? Pasme-se então. O anúncio do explicador na plataforma é pago com direito a um número “x” de contactos, renovável com novo pagamento. Ora, se os contactos fixados forem, por exemplo, 10 e se o Manuel Gomes for contactado 10 vezes para fazer os pontos on-line aos alunos e os rejeita, significa que perdeu o custo pago para utilização da plataforma sem ganhar nada em troca. Para impedir esta situação coloca então na plataforma o cartaz que acima reproduzo. Haverá alguém neste mundo que considere isto aceitável?

Para lá desta malha subterrânea a minar o ensino, também ela, não é necessário pensarmos em plataformas de explicadores para fazerem os exames à distância. Imaginemos 6 alunos de Medicina, por exemplo. Decidem fazer o exame à distância em conjunto. Reúnem-se na casa de um deles, cada um munido do seu HP portátil topo de gama. Decidem fazer o exame “em grupo” fazendo cada um deles uma sexta parte da prova, que é distribuída imediatamente pelos seus colegas. E viva a avaliação à distância. Ou ainda uma outra forma corriqueira de fraude: como nestas idades a maturidade das raparigas é normalmente superior e em muito à dos rapazes, genericamente são eles que, tendo uma amiga ou namorada para os ajudar, lhe pedem para os ajudar a fazer a prova de avaliação. Tudo entre amigos.

Estamos a ver estes alunos a deterem amanhã o grau de Mestre e depois talvez até doutorados! E depois…até diretores dos centros de Investigação.

 

Vinte anos depois de Bolonha muitos dos investigadores atuais são já o produto dessa Reforma do Ensino Superior e a investigação em princípio deveria refletir essa deformação na aprendizagem universitária nuclear, onde  prevalecerá, portanto, a palavra de ordem que publicar, publicar, seja como for e o que for. Tomemos como exemplo a crise pandémica Covid 19. Sobre a forma como decorreu a investigação científica nestes meses infernais diz-nos o British Medical Journal, uma das mais influentes e conceituadas publicações sobre medicina no mundo:

Uma avalanche de investigação de má qualidade está a sabotar uma resposta eficaz baseada em provas

O mundo da investigação médica está a responder à pandemia de Covid-19 a uma velocidade vertiginosa. O turbilhão da investigação global tem tido consequências mistas. Os aspetos positivos incluem um acesso mais alargado aos estudos Covid-19, uma maior colaboração, uma governação acelerada e aprovações éticas de novos estudos clínicos e uma utilização mais alargada das pré-impressões.

Mas muitos problemas  tornaram-se evidentes. Antes da pandemia, estimava-se que até 85% da investigação era desperdiçada devido a questões de deficiência, conceção deficiente dos estudos, regulamentação e realização ineficazes e falta ou má comunicação dos resultados (1). Muitos destes problemas são agora ampliados na investigação Covid-19, com limitações de tempo e infraestruturas de investigação inadequadas a contribuir para estes problemas.

Tudo isto reflete um mundo que me escapa, que me ultrapassa  mas mantenho a pergunta: de quem é a responsabilidade? E a resposta para mim é única: é das Autoridades que tutelam o ensino superior e, por consequência, dos governos que tutelam essas Autoridades.

Mas deixando a questão da fraude na avaliação à distância, deixo aqui e sobre esta matéria uma pergunta: porque carga de água é que os estudantes do ensino secundário terão de ter aulas presenciais e exames finais enquanto aos alunos do superior é-lhes oferecido a avaliação à distância? Porquê essa discriminação, quando é certo que a flexibilidade de calendários para se poder encontrar outras soluções é de longe muito mais elevada no ensino superior do que no ensino secundário, e no pleno respeito pelas condições sanitárias exigidas face ao Covid 19, soluções mais fiáveis, mais dignas do que as soluções encontradas pelos reitores de hoje? Alguém é capaz de me explicar?

Fala-nos o Manuel Simões em trimestres que correspondem a semestres. Sejamos claros: os estudantes em cada semestre têm apenas um trimestre de aulas. Encurtando o período em que se fazem avaliações sobre avaliações, testes e testinhos, em que se gasta muito tempo por cada “semestre”, não seria possível remeter a conclusão do ano letivo para Setembro ou mesmo Outubro, recalendarizando o próximo ano escolar mas sem o degradar, em vez desta fantochada a que dão o nome de Avaliação à Distância? Seria possível, é esta pura e simplesmente a resposta a dar. Dava algum trabalho mas fazia-se. Mas não dava créditos, isto é, não melhoraria o rating docente e, portanto, não vale a pena. É esta a lógica do sistema.

Mais ainda: O Governo faz agora a mesma coisa que se fez com Bolonha: tem uma pressa enorme em colocar as pessoas na rua, sem emprego. A crise medonha que aí vem diz-nos também que as duas a três próximas gerações, como a que vai sair desta avaliação à distância, serão pasto para queimar no altar do Desemprego e nos consultórios dos psiquiatras. Para quê então tanta pressa para os colocar na rua com um diploma alcançado nestas condições ?

Pessoalmente, só vejo uma explicação: vai haver uma enorme quebra nas receitas das Universidades, a viveram algumas delas das receitas dos estrangeiros a estudar em Portugal, em que as suas matrículas custam na ordem de 4 a 6 vezes mais que as matrículas para nacionais ! Ora, o número destes estudantes irá cair a pique [1]. Saindo os estrangeiros, muitos desses mestrados ficam com pouca clientela. As Universidades irão dramaticamente ter necessidade de preencher as vagas e, agora, com quem? Logicamente, com os únicos estudantes possíveis, com os nacionais colocados com uma licenciatura nas mãos concluída nestas condições.

Ter o último ano letivo degradado fará com que os estudantes sintam a necessidade de completar de forma mais séria este ciclo de estudos. E a porta de entrada para essa solução será querer completá-lo com um ciclo de mestrado ou de pós-graduação. Face ao desemprego que irá assustadoramente grassar nesta camada da nossa população jovem, essa situação remetê-los-á para mestrados, ao menos como terapia ocupacional, em que muitos destes mestrados são caros, muito caros, caros demais. E para quê forçar a que os estudantes se sintam obrigados a ir frequentar um mestrado? Para assim o sistema universitário poder preencher as suas vagas apenas com estudantes residentes nacionais, mantendo-se a ideia de querer produzir uma elite, selecionada na base do dinheiro que se tem contra os que o não têm. Para isso é necessário pressupor ou “inventar” que há Universidades ou Faculdades de primeira e de segunda ou até mesmo de terceira ordem. Os rumores e os ratings das Universidades assim como os media e os anúncios pagos na imprensa encarregar-se-ão de estabelecer esta ordem das coisas. Exemplo disto temo-lo na Universidade Nova de Lisboa que se quer assumir como a Faculdade de elite e para as pessoas de elite deste nosso país. Vejam-se as operações de marketing que sobre ela têm sido publicitadas. A necessidade a que isso obriga. Mas a crise terá impactos sobre os que não abundam em liquidez e o normal será uma diminuição do número de candidatos nacionais, quer nos mestrados de topo quer ainda nos mestrados menos elitistas, e sobretudo nestes. Não vemos, pois, que isso seja uma solução para resolver o subfinanciamento das Universidades que aí vem. Apanhar a boleia do Covid 19 para degradar o ensino e aumentar a massa de estudantes nacionais que possam frequentar os mestrados e cursos de pós-graduação é uma explicação aparentemente coerente mas que julgo inaceitável pois pressupõe uma maldade que está para lá de qualquer racionalidade pensável.

Mas mesmo nesta ótica terrível, do tanto quanto pior melhor, seria uma estratégia errada pois a base de recrutamento de estudantes irá diminuir pela própria crise, crise que vem já de trás e é agora aumentada pela situação do Covid. Mas isso deixa-nos nas mãos com a pergunta acima: Para quê então tanta pressa para os colocar na rua com um diploma alcançado nestas condições ? Não conseguimos vislumbrar nenhuma razão válida para a opção seguida de colocar rapidamente essa gente à procura de empregos que não existem.

Este problema do suporte financeiro é um problema que já se começa a sentir em países como Inglaterra, Austrália e sobretudo Estados Unidos. Com efeito diz-nos Yves Smith em Naked Capitalism:

“Dependência/preferência para estudantes estrangeiros, muitas vezes não pelas suas realizações, mas pela sua capacidade de pagar propinas completas e até mesmo de encargos adicionais. Os estudantes chineses representavam um terço do total. A partir de 2019, o número de matrículas já estava em queda.118 JM Comentário às reações ao texto A Universidade em declínio a Alta Frequência

Mas a contribuição dos estudantes chineses para as receitas não é proporcional ao seu número. Do New York Times, em Março:

As universidades dos países de língua inglesa, especialmente da Grã-Bretanha, Austrália e Estados Unidos, estão cada vez mais dependentes das propinas dos estudantes chineses, um modelo de negócio que o vírus pode desmantelar.

Com o adiamento dos exames de qualificação, a proibição de viagens e o aumento do mal-estar dos estudantes e dos pais chineses face à atitude permissiva do Ocidente para com a saúde pública, as matrículas poderão cair nos próximos anos, afirmam os especialistas, deixando potencialmente países com buracos multibilionários nos orçamentos das suas universidades”.

Porém, no caso português vejo uma solução: que o governo e a UE tenham uma atitude digna: garantir para o próximo ano letivo a um custo relativamente simbólico, a inscrição em mestrado para todos os alunos saídos este ano das Universidades que o desejem. Mas isto era pensar ao largo, fora da caixa, coisa que na UE é banido.

O Manuel Simões refere ainda alguns detalhes com os quais concordo:

1. “O programa de Bolonha veio degradar um sistema que não era bom mas que, pelo menos, dispunha de tempo para consolidar e experienciar conhecimentos”. Temos já escrito muito sobre o tema pelo que nos dispensamos de nos estar aqui a repetir.

2. ”As bolsas Erasmus são simpáticas para se viajar e fazer turismo”. Bom, as bolsas Erasmus são ridículas enquanto bolsas e mais ainda: não são precedidas de nenhuma preparação linguística de qualquer candidato face ao país de destino, e de resto nem a bolsa Erasmus contempla um adicional monetário para essa preparação. E não me venham dizer que as aulas do país para onde vão são em inglês! Em tempos na Suécia, a opção de ir estudar um ano para o estrangeiro era programada com um ano de antecedência obrigando o candidato à bolsa a estudar durante um ano a língua do país de destino. Hoje, as bolsas são apenas de seis meses e nada disto se exige. Imagine-se, por exemplo, estudantes dos países de Leste com um inglês das docas a virem estudar para um outro país cuja língua desconhecem com bolsas de seis meses. Quando começam a aprender a língua do país de acolhimento vão-se embora. Imagine-se uma situação que eu como professor tive pela frente: três estudantes turcos durante um ano a estudar em Portugal e nem inglês sabiam. Estafei-me com eles e. por misericórdia, face à brutalidade do sistema que os pôs cá naquelas condições dei-lhes 10 valores. Ou seja, por falta de programação da estada do estudante para o país de destino e da sua monotorização, a bolsa de estudos é, basicamente, um bom pretexto para se andar a passear. É assim que a UE vê a juventude. Nisso o Manuel Simões tem toda a razão

3. Diz-nos o Manuel Simões: “O número de licenciaturas + mestrados corresponde afinal ao n.º de licenciaturas antes de Bolonha.” Não é verdade, é bem pior que isto. Mas será ainda pior quando a fraca equivalência entre os quatro anos do ensino superior de outrora e do ensino de agora se degradar ainda mais com a nova estrutura de mestrados imposta pelo atual Ministro do Ensino Superior que exige apenas que se lecionem Mestrados de Especialidade. Até aqui, os mestrados são de dois tipos: os mestrados integrados e os de especialidade. Os mestrados integrados correspondem a que o estudante contorne Bolonha, mantendo assim o curso de 4 anos, ornamentado com o título de Mestrado e com uma tese de mestrado ou relatório feita nesse mesmo quarto ano. Os outros mestrados, ditos de especialidade significam que pós o terceiro ano o estudante está já em condições de escolher uma fileira dita de especialidade de duração de um ano em que em simultâneo faz a sua tese de mestrado. Parte desse dito 4º ano é gasto a preparar e depois a redigir a tese. Neste caso, este quarto ano é ainda menos comparável ao quarto ano de outrora do que o que se passa com o mestrado integrado em que as disciplinas são equivalentes ou até as mesmas de outrora.

Ao nível dos dois tipos de mestrados, entende-se que os estudantes precisam de menos aulas daí que as disciplinas tenham uma redução de carga horária.

No fundo, em ambos os mestrados há uma frequência de 4 anos mas a equivalência com o antigo curso é apenas no número de anos. O ensino nem de longe nem de perto é o mesmo, é hoje muito mais simplificado e logo a partir do primeiro ano. Portanto os 4 anos de hoje não podem corresponder aos quatro anos de outrora. E a tornar mais inquestionável o meu ponto de vista, sublinho que o que representa os primeiros anos de ensino superior de agora também pode ser inferido dos emails dos estudantes apresentados. Mas mais grave ainda: os quatro anos de Mestrado agora saem muito mais caro do que a anterior licenciatura, seja ao estudante seja ao Estado, ficando-se a saber bem menos. Mas pelos vistos nada disto é por acaso, sendo certo que a manutenção da situação usufrui da cumplicidade ou do apoio explícito de muita gente cientificamente bem mais importante que eu. Eu serei aqui uma espécie de velho do Restelo de segunda ou terceira ordem ordem.

Posto tudo isto, tomo aqui como conclusão a posição bem frontal assumida pelo professor Patrick Deneen, um professor habituado às escolas de elite americanas, que na sua análise sobre o ensino nos EUA, situação esta nada diferente do que se passa na Europa e em Portugal, nos diz o seguinte:

Caímos no mau e inquestionável hábito de pensar que o nosso sistema educacional está falido, rebentado, mas está a funcionar com todos os seus motores, com todos os seus cilindros, está a atingir o máximo do seu sucesso. O que o nosso sistema educacional pretende produzir é amnésia cultural, uma falta de curiosidade generalizada, agentes livres sem história e metas educacionais compostas de processos sem conteúdo e palavras-chave que não fazem parte do glossário do “pensamento crítico”, “diversidade”, “formas de saber”, “justiça social” e “competência cultural”.

Os nossos alunos são a realização de um empenhamento sistémico em produzir indivíduos sem um passado para quem o futuro é um país estrangeiro, em criar pessoas despidas de qualquer cultura que podem viver em qualquer lugar e realizar qualquer tipo de trabalho sem se questionar sobre os seus objetivos, as suas finalidades, em produzir pessoas que sejam ferramentas aperfeiçoadas para um sistema económico que defende a “flexibilidade” (geográfica, interpessoal, ética).

E mais descrente que eu quanto a uma reforma do interior do sistema, acrescenta o professor Patrick Deneen:

Eu gosto dos meus alunos – como qualquer ser humano, cada um tem um enorme potencial e grandes dons para dar ao mundo. Mas lamento por eles, pelo que é deles por direito mas que não lhes foi dado. Nos nossos melhores dias, percebo o seu anseio e angústia e sei que o seu desejo humano inato de saber quem são, de onde vêm, para onde devem ir e como devem viver sempre se reafirmará. Mas mesmo naqueles melhores dias, não posso deixar de pensar que o mundo que eles herdaram – um mundo sem herança, sem passado, futuro ou preocupações mais profundas – está prestes a cair, e que este colapso seria o verdadeiro começo de uma verdadeira educação.”

________________________________

Em tempo:

Já depois deste texto publicado recebo uma nota da Universidade de Coimbra  (agora inserida)  onde se diz o seguinte:

” O Despacho Reitoral 89/2020 e o Plano da Universidade de Coimbra para o levantamento progressivo das medidas de contenção motivadas pela pandemia COVID-19 considera possível a existência simultânea de avaliações presenciais e avaliações à distância na época especial. A avaliação à distância é obrigatória e, caso coexista com a avaliação presencial, terá de ser realizada no mesmo dia, hora e condições, sendo o método de avaliação exatamente igual ao proporcionado aos estudantes na versão a distância. Para além disso, os estudantes devem ser livres de decidir o tipo de avaliação que pretendem efetuar”.

 

A “lei” neoliberal de referência  quanto à soberania dos mercados está aqui bem expressa e tem a ver com a soberania  do consumidor : o cliente é rei face ao prestador de serviços. A universidade presta um serviço: atribuir um diploma. Como  as universidades americanas agora “argumentam muito explicitamente, estas não estão nesta atividade  para formar  mas sim para  conferir credenciais, diplomas. É este diploma que cada estudante está a pagar. Cabe, pois,  ao estudante decidir o que lhe é mais agradável para a sua obtenção! Este é o caminho que os nossos neoliberais estão a imprimir ao ensino superior em Portugal.

E fico-me por aqui no que diz respeito às modificações em curso no Ensino Superior em Portugal deixando-vos com uma pergunta: como explicar o silêncio das Instituições sobre esta questão da avaliação à distância e do resto também, já agora, e sobretudo, como se explica o silêncio profundamente ruidoso dos nossos média sobre o problema?

______________________

NOTA

[1] O leitor pode pensar que estou a fazer ironia. Lembro, porém, que este é já um problema nas Universidades americanas pois até aqui as faculdades de elite têm ocupado muitas das suas vagas com estudantes estrangeiros. Como disse um blogger americano: os estudantes estrangeiros constituem a vaca leiteira do sistema de ensino superior nos Estados Unidos. Com os estudantes estrangeiros, a uma menor escala talvez, passa-se em Portugal e do ponto de vista financeiro o mesmo. Na Inglaterra o programa OK Student revela a mesma realidade, com o Governo inglês a “emprestar” dinheiro ao estudante estrangeiro ( e nacional) para estudar no Reino Unido pois caso assim não fosse, para a frequência existente, as faculdades estariam, praticamente todas, tecnicamente falidas ! Uma soma de dívida estudantil que está para lá dos 100 mil milhões de libras esterlinas.

One comment

  1. Carlos Leça da Veiga

    Aluno do 6º ano de medicina: “Ver doentes é que não: publicar trabalhinhos”. Interno de Medicina a orientar estudantes do 5º ano :”não auscultem os doentes pois podem pegar-lhes qualquer coisa” CLV

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