A Grande indústria farmacêutica – A cabeça da Hidra: a ascensão de Robert Kadlec (2ª parte-conclusão). Por Raul Diego e Whitney Webb

Espuma dos dias 2 Coronavirus e a Hidra

Seleção e tradução de Francisco Tavares 

Este é um importante e elucidativo artigo sobre a carreira de um homem que ocupa um lugar chave no sistema de governo dos Estados Unidos na área da saúde, intimamente ligado ao complexo militar industrial na área das armas biológicas. Apesar de os autores o apelidarem de “A Cabeça da Hidra”, do artigo é possível concluir que a Hidra da Grande Indústria Farmacêutica mais parece a Hidra de Lerna da mitologia grega que tem não se sabe quantas cabeças e que se uma desaparece logo reaparecem pelo menos mais duas para lhe ocupar o lugar. Potenciais sucessores à sua posição no sistema não faltam, seus companheiros de estrada: Tevi Troy, Yonah Alexander, Tom Daschle, Donna Shalala, Lewis “Scooter” Libby, Von Thaer, Craig Vanderwagen, Randall Larsen, Tara o’Toole, Jerome Hauer, Stephen Hatfill, William Patrick e muitos outros.

E o lugar requer alguém que, como ele, seja um alarmista do bioterrorismo, ficcionador de cenários iminentes, horríveis e apocalípticos de ataques com armas biológicas (por exemplo o exercício Dark Winter em junho de 2001) e que inspiraram, e inspiram, o medo entre presidentes, políticos de topo e o público americano. Os ataques de antrax ocorridos entre setembro e outubro de 2001 caíram que nem sopa no mel. Mais tarde, em agosto de 2008, o FBI acusou o cientista Bruce Ivins de ser o único responsável de tais ataques. Ivins trabalhava como investigador no Instituto de Investigação Médica do Exército dos Estados Unidos da América sobre Doenças Infecciosas, em Fort Detrick (Maryland), e suicidou-se dias antes em julho de 2008. As acusações nunca foram formalizadas e as conclusões do FBI foram contestadas, nomeadamente por senadores e deputados do Congresso que defenderam que Ivins não era o único responsável pelos ataques. Em 2011, um painel da academia de ciências concluiu não ser possível chegar a uma conclusão definitiva sobre a origem do antrax.

Não obstante, Kadlec e toda a entourage que o acompanha, e que ele acompanha, prosseguiram a sua “missão” de salvar os EUA e o mundo de hipotéticos ataques com armas biológicas. E a sua entourage não é outra senão a Grande Indústria Farmacêutica, o complexo industrial militar, e todo um conjunto de alarmistas bioterroristas e uma miríade de institutos (públicos e privados), fundações, empresas e outras organizações que percorrem e formam os interstícios deste sistema que é a Big Pharma, que toca e influencia os mais altos escalões do governo e das instituições dos EUA.

Cabe salientar que este senhor paranóico do bioterrorismo e da guerra biológica está intimamente associado à guerra, e subsequente destruição, do Iraque. Ele esteve presente no Iraque regularmente – 1994, 1996, 1998, 2003, 2004 – sem nunca ter conseguido comprovar, apesar das afirmações em contrário ou que deixavam a dúvida no ar (afirmações do tipo “a capacidade de descobrir a verdade sobre o programa de armas biológicas do Iraque nunca foi bem sucedida”, cf. declarações ao Comité de Segurança Interna da Câmara dos Representantes em fevereiro de 2014), a existência de um programa de armas biológicas do Iraque. O facto de “a verdadeira natureza do trabalho e a relevância para o esforço ofensivo das armas biológicas iraquiano nunca [ter sido] verificado” servia como suporte às afirmações da existência desse programa para lá de qualquer dúvida. Aliás, este tipo de afirmações falsas, incluindo a fabricação de provas, no que diz respeito à detenção de armas de destruição massiva pelo Iraque (também completamente desmentido pelo testemunho de ElBaradei, então diretor-geral da Agência Internacional de Energia Atómica, cf. A Era da Mentira, ed. Matéria-prima 2011) serviu de justificação perante o mundo para a invasão do Iraque em 2003, e a destruição que se lhe seguiu.

Naturalmente, este gigantesco sistema da Grande Indústria Farmacêutica envolve milhões de milhões, estamos a falar de medicamentos, vacinas, armas biológicas. O episódio relatado quanto ao ganho de 5 milhões de dólares por Donald Rumsfeld com as ações da empresa (Gilead) que descobriu e desenvolveu a vacina Tamiflu (contra a gripe aviária, 2005/2006) é tão só um pequeno apontamento sobre os montantes que estarão envolvidos. É curioso constatar como também na atual crise do Covid-19 declarações de responsáveis dos EUA sobre supostos resultados positivos de ensaios impactam imediatamente na valorização bolsista: “o NASDAQ aumentou 3,5%, depois de o conselheiro de saúde da Casa Branca, Dr. Anthony Fauci, ter anunciado que um ensaio com medicamentos Remdesivir, que envolveu cerca de 800 pacientes, deu boas notícias”, segundo relato de Victor Hill em A Journal of the Plague Year- Part the First. Com este medicamento encontramos novamente uma já nossa conhecida cara: a Gilead. Victor Hill refere também outro participante do Big Pharma: “no início de Abril, o Governo dos EUA afetou mil milhões de dólares a um projeto com a Johnson & Johnson (NYSE:JNJ), co-financiando a investigação através da BARDA- Autoridade de Investigação e Desenvolvimento Avançado Biomédico”.

Entretanto, hoje, Robert Kadlec é, desde 2017, confortavelmente, Secretário Adjunto da Saúde e dos Serviços Humanos para a Prevenção e Reação. Como dizem os autores, “vacinas, antídotos e medicamentos de propriedade federal – detidos em repositórios estrategicamente organizados em todo o país em caso de emergência sanitária – estão agora nas mãos de um único indivíduo. Esses repositórios, que compõem a Armazenagem Estratégica Nacional (SNS)”.

 

FT

Nota: Dada a sua extensão o artigo é apresentado em 2 partes. No final do texto apresenta-se uma listagem das iniciais utilizadas ao longo do texto e seu significado em português. 

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A Grande indústria farmacêutica – A cabeça da Hidra: a ascensão de Robert Kadlec (2ª parte-conclusão)

Por Raul Diego Raul Diego e Whitney Webb Whitney Webb

Publicado por MPN News em 15/05/2020 (ver aqui)

 

(2ª parte-conclusão)

Pondo as rodas em movimento

Apenas alguns meses antes do lançamento “oficial” da ANSER-IHS, foi lançada outra organização com um foco relacionado – a Iniciativa sobre a Ameaça Nuclear (NTI). Criada pelo magnata dos meios de comunicação social Ted Turner e pelo antigo senador Sam Nunn em Janeiro de 2001, a NTI visava não só “reduzir a ameaça” representada pelas armas nucleares, mas também pelas armas químicas e biológicas.

Ao anunciar a formação da NTI na CNN, rede fundada por Turner, Nunn declarou que, embora “as armas nucleares constituam um perigo gigantesco, as armas biológicas e químicas são as mais susceptíveis de serem utilizadas”. E há milhares de cientistas na antiga União Soviética que sabem como fabricar estas armas, incluindo químicas, biológicas e nucleares, mas não sabem como alimentar as suas famílias”. Nunn continuou, afirmando que a NTI esperava “começar a ajudar, alguma esperança de emprego remunerado para pessoas que não queremos que acabem a fabricar armas químicas e biológicas e nucleares em outras partes do mundo”. A missão da NTI a este respeito foi provavelmente uma boa notícia para Joshua Lederberg, que há muito defendia que os EUA oferecessem emprego a investigadores de armas biológicas da ex-União Soviética para evitar o seu emprego por “regimes desonestos”.

Ao lado de Nunn e Tuner na administração da NTI estava William Perry, um antigo Secretário da Defesa; o antigo Senador Dick Lugar, nomeado para o suspeito laboratório de armas biológicas dos EUA na Geórgia; e Margaret Hamburg, que era vice-presidente da NTI e supervisionava o seu trabalho sobre armas biológicas. O pai de Margaret Hamburg, David Hamburg, presidente de longa data da Carnegie Corporation, foi também conselheiro e “distinto companheiro” da NTI. David Hamburg foi durante muito tempo um conselheiro próximo, associado e amigo de Joshua Lederberg.

Tanto Sam Nunn como Margaret Hamburg da NTI, bem como altos funcionários da ANSER, reunir-se-iam em Junho de 2001 para participar num exercício de simulação de um ataque com armas biológicas chamado “Dark Winter”. Nunn desempenharia o papel de presidente em exercício e Hamburgo desempenharia o papel de chefe da HHS no cenário fictício. Jerome Hauer, então director-geral da Kroll Inc., empresa de serviços de informação, e vice-presidente da empresa de serviços de informação militar Scientific Applications International Corporation (SAIC), desempenhou o papel de chefe da FEMA (Federal Emergency Management).

O próprio exercício Dark Winter foi em grande parte escrito por Tara O’Toole (membro do conselho da ANSER-IHS) e Thomas Inglesby do Johns Hopkins Center for Civilian Bio-defense Studies, bem como por Randall Larsen da ANSER-IHS. Robert Kadlec também participou na criação do roteiro e aparece nos clipes de notícias fictícias e guiões utilizados no exercício.

Tal como se explica na Parte I desta série, o exercício Dark Winter previu de forma assustadora muitos aspectos do que se seguiria apenas meses depois, durante os ataques com antrax de 2001, incluindo previsões de que seriam enviadas cartas ameaçadoras aos membros da imprensa com a promessa de ataques com armas biológicas envolvendo antrax. Dark Winter forneceu também a narrativa inicial dos ataques com antrax de 2001, na qual se afirmava que o Iraque e a Al Qaeda tinham sido co-responsáveis. Contudo, logo após os ataques, as provas apontaram rapidamente para o facto de o antrax ter tido origem numa fonte interna ligada a experiências militares. Além disso, vários participantes e autores de Dark Winter tinham aparentemente conhecimento prévio desses ataques (especialmente Jerome Hauer) e/ou estavam envolvidos na controversa investigação do FBI sobre os ataques (nomeadamente Robert Kadlec).

No dia 11 de Setembro de 2001, Kadlec e Randall Larsen estavam prestes a começar a lecionar em conjunto um curso sobre “Segurança Interna” na Academia Nacional de Guerra. O programa do curso parte de citações sobre a ameaça iminente do bioterrorismo de Joshua Lederberg, bem como do participante do Dark Winter e antigo director da CIA James Woolsey, que chamou a um ataque com armas biológicas “a ameaça mais perigosa para a segurança nacional dos EUA num futuro próximo”.

O curso previa também incluir a sua própria longa utilização do exercício “Dark Winter”, em que os alunos iriam reencenar o exercício de Junho de 2001 como parte de um projecto de investigação de fim de semestre. Contudo, tendo em conta os acontecimentos ocorridos em 11 de Setembro de 2001, Kadlec nunca mais deu esse curso, uma vez que foi ao Pentágono para se concentrar na “ameaça bioterrorista” nas semanas que precederam os ataques com antrax de 2001.

O depois da festa (Antrax)

Imediatamente após os acontecimentos de 11 de Setembro de 2001, Kadlec tornou-se conselheiro especial para a guerra biológica do então Secretário da Defesa Donald Rumsfeld e do seu adjunto Paul Wolfowitz. Nos dias que se seguiram, Rumsfeld declarou aberta e publicamente que esperava que os inimigos da América, especificamente Saddam Hussein, ajudassem grupos terroristas não especificados a obter armas químicas e biológicas, uma narrativa análoga à utilizada no exercício do Dark Winter que Kadlec tinha ajudado a criar.

Na sequência imediata do 11 de Setembro, os outros co-autores de Dark Winter – Randall Larsen, Tara O’Toole e Thomas Inglesby – informaram pessoalmente Dick Cheney sobre Dark Winter, numa altura em que Cheney e o seu pessoal tinham sido avisados por outra figura de Dark Winter, Jerome Hauer, para tomarem o antibiótico Cipro para prevenir a infecção pelo antrax. Desconhece-se quantos membros da administração estavam a tomar Cipro e durante quanto tempo.

Hauer, juntamente com James Woolsey e a repórter do New York Times Judith Miller (que também participou no Dark Winter), passariam as semanas entre o 11 de Setembro e a divulgação pública dos ataques com antrax, fazendo numerosas aparições nos meios de comunicação social (e, no caso de Miller, escrevendo dezenas de reportagens) sobre a utilização do antrax como arma biológica. Os membros do controverso think tank Projecto para um Novo Século Americano (PNAC), que incluía Dick Cheney e Donald Rumsfeld entre as suas fileiras, alertaram também para o facto de um ataque com armas biológicas estar prestes a seguir-se ao 11 de Setembro. Estes incluíam Richard Perle, que depois aconselhou o Pentágono liderado por Rumsfeld, e Robert Kagan e Bill Kristol do The Weekly Standard.

Poder-se-ia pensar que todas estas advertências oportunas teriam deixado esta turma de infiltrados do governo menos surpreendida quando os ataques com antrax foram divulgados publicamente em 4 de Outubro de 2001. No entanto, apesar dos constantes avisos de apocalípticos cenários de ataque com antrax durante uma década e de aconselhar o Pentágono sobre esta mesma ameaça imediatamente a partir das semanas anteriores, Robert Kadlec afirmaria posteriormente ter gritado: “Tens de estar a gozar comigo!” quando soube pela primeira vez dos ataques.

Outro profeta do pré-ataque de antrax, Judith Miller, lembrar-se-ia de se ter desesperado e desanimado ao receber uma carta que parecia conter o antrax. A sua primeira reacção foi chamar William C. Patrick III, que a acalmou e lhe disse que o pó de antrax contido na carta “era muito provavelmente um embuste”. Com efeito, Patrick revelar-se-ia correcto na sua análise, uma vez que o pó da carta que Miller tinha aberto era, de facto, inofensivo.

Kadlec rapidamente começou a contribuir para a controversa investigação do FBI sobre os ataques, conhecida pelo seu nome de caso “Amerithrax”. Kadlec foi encarregado de acompanhar a alegada presença de bentonite no antrax utilizado nos ataques. A bentonite nunca foi efectivamente encontrada em nenhuma das amostras de antrax testadas pelo FBI, mas as afirmações de que foi encontrada foram utilizadas para ligar o antrax utilizado nos ataques à alegada utilização de bentonite pelo Iraque no seu programa de armas biológicas, de cuja própria existência ainda não se tinha provas concludentes.

Esta afirmação errada foi mencionada pela primeira vez ao Secretário Adjunto da Defesa Paul Wolfowitz por Peter Jahrling, um cientista de Fort Detrick, que afirmou durante um briefing que os esporos “pareciam ter sido tratados” com um “aditivo químico particular” semelhante à bentonite. Jahrling acrescentou então que o Governo iraquiano tinha utilizado bentonite para produzir “suspeitosamente” bacillus thuringiensis (Bt), um “primo não letal” do antrax amplamente utilizado na agricultura. “Todos se agarraram a isso”, recordaria Kadlec mais tarde sobre a ligação casual de Jahrling entre a bentonite e um primo inofensivo e distante do antrax.

Encarregado por Wolfowitz de reunir provas para a “arma fumegante” de bentonite, Kadlec contactaria um cientista da Marinha que o tinha acompanhado e a William Patrick ao Iraque nos seus esforços infrutíferos para encontrar provas das armas biológicas do Iraque em 1994, James Burans. Burans não estava convencido da ligação bentonítica e outros cientistas governamentais concordaram em breve.

Não obstante, os meios de comunicação social continuaram a fazer valer a alegação do bentonite-antrax como prova do papel do Iraque nos ataques com antrax, apesar das conclusões em contrário. No final de Outubro de 2001, uma sondagem a nível nacional concluiu que 74% dos inquiridos queriam que os EUA tomassem medidas militares contra o Iraque, apesar da falta de provas que ligassem o país ao 11 de Setembro ou aos ataques com antrax. Um mês mais tarde, Rumsfeld elaboraria planos em consulta com Wolfowitz sobre as justificações para iniciar a guerra com o Iraque, incluindo a descoberta de ligações entre Saddam Hussein e os ataques com antrax e o início de disputas com o Iraque por causa das inspecções às ADM.

Enquanto o Pentágono aconselhado por Kadlec procurava ligar os ataques com antrax ao Iraque, o NTI – encabeçado pelo “presidente” Sam Nunn, do Dark Winter – deu um forte impulso à sua agenda, afetando “2,4 milhões de dólares em subsídios iniciais para financiar a colaboração científica com cientistas que em tempos trabalharam no programa secreto de armas biológicas da ex-União Soviética”. A NTI também reservou mais milhões para transformar os laboratórios de armas biológicas da antiga União Soviética em “instalações de produção de vacinas” e “ajudar a identificar as empresas farmacêuticas ocidentais dispostas a trabalhar com os antigos fabricantes de armas biológicas soviéticos em empreendimentos comerciais”.

Investigação à porta fechada

William C. Patrick III participaria igualmente na investigação Amerithrax do FBI, apesar de ser inicialmente suspeito de envolvimento nos ataques. Contudo, após ter passado num teste de detector de mentiras, foi acrescentado ao “círculo interno” de consultores técnicos do FBI no caso Amerithrax, apesar de o protegido de Patrick, Stephen Hatfill, ser o principal suspeito do FBI na altura. Hatfill foi mais tarde ilibado de má conduta e o FBI acabou por culpar um cientista de Fort Detrick chamado Bruce Ivins pelo crime, escondendo uma “montanha” de provas que exoneravam de o ter feito, de acordo com o antigo investigador principal do FBI.

Nos anos 90, Patrick tinha falado aos associados do seu desejo de encontrar alguém que continuasse o seu trabalho, acabando por encontrar essa pessoa em Stephen Hatfill. Hatfill e a amizade de Patrick era próxima, com um especialista em bioterrorismo a chamá-los “como pai e filho”. Hatfill viajava frequentemente em conjunto e, por vezes, Hatfill levava Patrick aos seus empregos de consultor na SAIC, empresa de consultoria militar e de serviços secretos. Em 1999, Patrick retribuía o favor, ajudando Hatfill a conseguir um emprego na SAIC. Um ano mais tarde, Jerome Hauer, um amigo de Hatfill e Patrick, juntar-se-ia à SAIC como vice-presidente.

Nesse mesmo ano, Hatfill ofereceu a Patrick outro trabalho de consultoria na SAIC e encarregou Patrick de realizar um estudo descrevendo “um ataque terrorista fictício em que um envelope contendo antrax de qualidade de armamento é aberto num escritório”. O Baltimore Sun relataria mais tarde que o estudo de Patrick para o SAIC discutiu o “perigo de esporos de antrax se propagarem pelo ar e os requisitos de descontaminação após vários tipos de ataques”, bem como quantos gramas de antrax precisariam de ser colocados dentro de um envelope comercial padrão para se poder conduzir um ataque desse tipo.

O envolvimento de Patrick neste estudo SAIC é particularmente interessante dado que, na altura, ele também esteve envolvido noutro projecto envolvendo antrax, este gerido pelo Battelle Memorial Institute. Em 1997, o Pentágono criou planos para a engenharia genética de uma variedade mais potente de antrax, impulsionada pelo trabalho de cientistas russos que tinham publicado recentemente um estudo que descobriu que uma estirpe geneticamente modificada de antrax era resistente à vacina padrão contra o antrax, pelo menos em estudos com animais.

O objectivo declarado do plano do Pentágono, segundo um relatório de 2001 do The New York Times, era “ver se a vacina [de antrax] que os Estados Unidos pretendem fornecer às suas forças armadas é eficaz contra essa estirpe”. As instalações da Battelle em West Jefferson, Ohio, foram contratadas pelo Pentágono para criar o antrax geneticamente modificado, uma tarefa que foi supervisionada pelo então director de programas da Battelle para todas as coisas biológicas, Ken Alibek. Um artigo de 1998, publicado no New Yorker, referia que William Patrick, também consultor da Battelle e “amigo íntimo” da Alibek, estava a trabalhar com Alibek num projecto envolvendo o antrax na altura. Mais tarde seria revelado que o acesso à própria estirpe de antrax utilizada nos ataques, a estirpe Ames, era controlada pela Battelle.

Além disso, a suposta “arma de fumo” do FBI utilizada para ligar a de Bruce Ivins aos ataques com antrax estava o facto de ter sido determinado que um frasco no laboratório de Ivins com o rótulo RMR-1029 era a sua estirpe “mãe”. No entanto, seria mais tarde revelado que partes do RMR-1029 tinham sido enviadas por Ivins para as instalações da Battelle em Ohio antes dos ataques de antrax. Uma análise da água utilizada para fazer o antrax revelou também que os esporos de antrax tinham sido criados no nordeste dos Estados Unidos e análises de acompanhamento reduziram as únicas fontes possíveis como sendo provenientes de um de três laboratórios: Fort Detrick, um laboratório da Universidade de Scranton, ou instalação de West Jefferson.

Após o inoportuno “suicídio” de Ivins em 2008, os advogados civis do Departamento de Justiça contestariam publicamente as afirmações do FBI de que Ivins tinha sido o culpado e, em vez disso, “sugeriram que um laboratório privado em Ohio” gerido por Battelle “poderia ter estado envolvido nos ataques”.

O trabalho de Patrick com a Battelle na criação de uma forma mais potente de antrax, bem como o seu trabalho com a SAIC no estudo do efeito do antrax enviado através do correio, começou por volta da mesma altura em que BioPort tinha assegurado o monopólio da produção da vacina contra o antrax, recentemente tornado obrigatório para todas as tropas americanas pelo Pentágono. Conforme detalhado na Parte II desta série, as instalações do BioPort que produziam a sua vacina contra o antrax estavam, na altura, repletas de problemas e tinham perdido a sua licença para operar. Apesar de o Pentágono ter dado milhões ao BioPort para serem utilizados em renovações da fábrica, grande parte desse dinheiro foi destinado a prémios de gestão de topo e à redecoração dos escritórios executivos. Milhões mais simplesmente “desapareceram”.

Em 2000, pouco tempo depois de receber o seu primeiro resgate do Pentágono, o BioPort contratou nada mais nada menos que o Battelle Memorial Institute. O acordo deu à Battelle “exposição imediata à vacina” que estava a utilizar em ligação com o programa de antrax geneticamente modificado que envolvia tanto Alibek como Patrick. Esse programa começou então a utilizar a vacina fabricada pelo BioPort- em testes nas suas instalações em West Jefferson. Na altura, a Battelle também estava a emprestar “conhecimentos técnicos” ao BioPort e contratou 12 trabalhadores para enviar para as instalações problemáticas do BioPort em Michigan “para manter a operação a decorrer”.

Na altura, uma porta-voz do BioPort afirmou: “Temos uma relação com a Battelle para alargar o nosso alcance às pessoas que estamos a tentar atrair para posições críticas do nosso lado técnico. Estão também a ajudar-nos com os nossos testes de potência como uma espécie de apoio. Estão a validar os nossos testes de potência”. Relatórios sobre o contrato BioPort-Battelle declararam que os termos do seu acordo não foram divulgados publicamente, mas observaram também que as duas empresas tinham “anteriormente trabalhado em conjunto numa proposta infrutífera para fazer outras vacinas para o governo”.

Como já foi referido na Parte II desta série, o BioPort foi obrigado a perder totalmente o seu contrato para a vacina contra o antrax em Agosto de 2001 e a totalidade do seu negócio de vacinas contra o antrax foi resgatado pelos ataques de antrax de 2001, que viram a preocupação com a corrupção do BioPort ser substituída por pedidos fervorosos de mais da sua vacina contra o antrax.

Rumsfeld salva BioPort

Um dos defensores da salvação do contrato de vacina contra o antrax da BioPort foi Donald Rumsfeld, que declarou após os ataques que, “Vamos tentar salvá-lo, e tentar criar uma espécie de acordo que nos permita dar mais uma oportunidade de fazer o trabalho com esse equipamento [BioPort]. É o único equipamento neste país que tem alguma coisa em curso, e não está muito bem encaminhado, como refere”.

Enquanto Rumsfeld e outros trabalharam para salvar o problemático negócio da vacina BioPort-antrax, outra figura recorrente nesta sórdida saga, Jerome Hauer, também desempenharia um papel fundamental para impulsionar o aumento das compras do produto mais lucrativo e mais controverso do BioPort. Para além de ser director-geral da Kroll Inc. e vice-presidente da SAIC, Hauer foi também conselheiro de segurança nacional do Secretário da HHS Tommy Thompson em 11 de Setembro de 2001. Foi também nesse mesmo dia que Hauer disse também aos altos funcionários da administração para tomarem Cipro para prevenir a infecção pelo antrax.

Hauer desempenhou um papel fundamental no aconselhamento à liderança da HHS à medida que os ataques com antrax se desenrolavam. Após os ataques, Hauer pressionou Thompson a criar o Gabinete de Preparação da Saúde Pública (OPHP) dentro do HHS, que foi criado mais tarde nesse ano. Foi inicialmente dirigido por D.A. Henderson, um associado próximo de Joshua Lederberg e o fundador original do Grupo de Trabalho sobre Biodefesa Civil da Johns Hopkins, que incluía Jerome Hauer e a protegida de Henderson, Tara O’Toole. O próprio Hauer viria a substituir Henderson como OPHP apenas alguns meses mais tarde.

A legislação subsequente, moldada em parte por Robert Kadlec, veria o OPHP dar lugar ao cargo de Secretário Adjunto para a Preparação de Emergência da Saúde Pública (ASPHEP), um cargo que Hauer também preencheria. Hauer utilizaria este posto para promover a constituição de reservas de vacinas, incluindo a vacina contra o antrax da BioPort. Hauer e o seu adjunto, William Raub, ajudariam então a pressionar o Pentágono a reiniciar a vacinação das tropas, apesar das preocupações de longa data com a segurança da vacina. Pouco depois de deixar a HHS em 2004, Hauer seria rapidamente adicionado ao conselho de administração da BioPort com o seu novo nome Emergent Biosolutions, um cargo que ainda hoje ocupa.

Todos os sistemas funcionam

No rescaldo dos ataques com antrax, as previsões apocalípticas de Robert Kadlec sobre os incidentes bioterroristas tiveram um forte impulso. “Não é a varíola do tempo da tua mãe”, dizia Kadlec ao LA Times no final de Outubro de 2001, “É um caça furtivo F-17 – foi concebido para ser indetectável e para matar. Estamos a dar cabo dos nossos esforços em matéria de biodefesa. Não pensamos nisto como uma arma – olhamos ingenuamente para isto como uma doença”. Como o artigo observa, esta estirpe de “caça furtiva” da varíola não existia. Em vez disso, Kadlec – que agora tinha o ouvido de Rumsfeld em questões de biodefesa – esperava que essa estirpe pudesse em breve ser geneticamente modificada.

É claro que, na altura, o único governo que se sabia estar a modificar geneticamente um agente patogénico era o dos EUA, como relatou Judith Miller do New York Times. Miller relatou em Outubro de 2001 que o Pentágono, na sequência dos ataques com antrax, tinha aprovado “um projecto para fabricar uma forma potencialmente mais potente de bactéria antrax” através da modificação genética, um projecto que seria conduzido pelo Battelle Memorial Institute.

Esta era a continuação do projecto, que tinha envolvido William Patrick e Ken Alibek, e o Pentágono decidiu reiniciá-lo após os ataques, embora não seja claro se Patrick ou Alibek continuaram a trabalhar na iteração subsequente dos esforços de Battelle para produzir uma estirpe mais virulenta de antrax. Esse projecto foi interrompido um mês antes quando Miller e outros jornalistas revelaram a existência do programa num artigo publicado a 4 de Setembro de 2001.

Depois de terem sido noticiados os planos do Pentágono de voltar a desenvolver estirpes mais potentes de antrax, foram feitas acusações de que os EUA estavam a violar a convenção sobre armas biológicas. No entanto, os EUA evitaram por pouco ter de admitir que tinham violado a convenção, dado que, apenas um mês após o exercício Dark Winter, em Julho de 2001, os EUA tinham rejeitado um acordo que teria imposto a sua proibição de armas biológicas.

O New York Times observou especificamente que as experiências com antrax geneticamente modificado que estão a ser realizadas pelas instalações da Battelle em West Jefferson foram uma “razão significativa” por detrás da decisão da Administração Bush de rejeitar o projecto de acordo, tendo o Governo dos EUA argumentado na altura que “as visitas ilimitadas de inspectores estrangeiros a instalações farmacêuticas ou de defesa poderiam ser utilizadas para recolher informações estratégicas ou comerciais”. Evidentemente, uma dessas “instalações farmacêuticas ou de defesa” foi, em última análise, a fonte do antrax utilizado nos ataques.

O trabalho de base

No caos do final de 2001, a visão de Kadlec para a política de biodefesa dos EUA estava rapidamente a concretizar-se diante dos seus próprios olhos. O primeiro estatuto de habilitação para o SNS foi a Lei de Segurança da Saúde Pública e de Preparação para o Bioterrorismo de 2002, em grande parte motivada pelos ataques com antrax, que levou o Secretário do SNS a manter um “Armazém Estratégico Nacional (SNS)”. A legislação tinha sido o resultado directo de um processo iniciado anos antes, quando o Congresso afectou fundos para o CDC para o armazenamento de produtos farmacêuticos, em 1998. O programa foi inicialmente designado por Programa Nacional de Armazenagem de Produtos Farmacêuticos (NPS).

O papel de Kadlec na direcção dos desenvolvimentos subsequentes no SNS e de outros desenvolvimentos legislativos conexos foi considerável, dado que, em 2002, se tornou director para a biodefesa do recentemente criado Conselho de Segurança Interna. O seu trabalho no conselho, que deixou em 2005, resultou na “Política Nacional de Biodefesa para o Século XXI” da Administração Bush, que, sem surpresa, ecoou as recomendações do documento que Kadlec tinha patrocinado na Academia Nacional de Guerra.

Em 1 de Março de 2003, o NPS tornou-se o programa Estratégico Nacional de Armazenagem e foi gerido conjuntamente pelo DHS e HHS depois de George W. Bush ter emitido a Homeland Security Presidential Directive (HSPD-5). Dois dias antes, o Secretário da Segurança Nacional, Tom Ridge e depois o Secretário da HHS Tommy Thompson tinham apresentado o Projecto BioShield Act ao Congresso. Tratava-se de uma legislação que estabelecia o que viria a ser uma janela de dinheiro governamental para as Grandes Farmacêuticas, chamada Autoridade de Investigação e Desenvolvimento Avançado Biomédico (BARDA), entre outras entidades e poderes, entre os quais se destacava a transferência do controlo do SNS para longe do DHS e para mais perto do HHS.

Logo que o projeto BioShield foi aprovado como lei, BioPort/Emergent BioSolutions co-fundou um grupo de lobby chamado Alliance for Biosecurity como parte de sua estratégia para assegurar facilmente contratos lucrativos do BioShield. Esse grupo de lobby viu a Emergent BioSolutions unir forças com o Centro de Biossegurança da Universidade de Pittsburgh, que era então liderado por Tara O’Toole e aconselhado por Randall Larsen.

Com este enquadramento, a Política Nacional de Biodefesa para o Século XXI elaborada por Kadlec foi utilizada como enquadramento para a Directiva Presidencial 10 (HSPD-10) da Segurança Interna de Bush, que expandiu ainda mais o BioShield, o SNS e outros programas controversos. O lei BioShield foi aprovada em 2004 e, um ano depois, Kadlec juntou-se à subcomissão sobre bioterrorismo e saúde pública do senador Richard Burr. Lá, Kadlec atuou como diretor de pessoal no comité que elaborou a Lei de Prevenção para a Pandemia e Todos os Perigos (PAHPA), contendo as diretrizes políticas específicas para a implantação do Projeto BioShield e criando a futura posição da Kadlec no HHS.

O PAHPA foi aprovado no ano seguinte na sequência do furacão Katrina e estabeleceu a relação estatutária entre as várias agências promulgadas ou incluídas na legislação do BioShield. Isto inclui a delegação no novo cargo de Secretário Adjunto para a Preparação e Resposta (ASPR) do HHS do “exercício das responsabilidades e autoridades do Secretário [do HHS] no que respeita à coordenação do “arsenal e supervisionar a investigação avançada e o desenvolvimento de contramedidas médicas financiadas pelo BARDA, mas conduzidas pela Grande Indústria Farmacêutica”. Foi também atribuído à ASPR o papel de liderança na orientação da resposta da HHS a uma emergência sanitária nacional.

Ao lado de Kadlec na Casa Branca ao longo de todo este processo esteve Tevi Troy, Assistente Especial do Presidente para a Política Interna; um papel que fez dele o principal conselheiro da Casa Branca em matéria de cuidados de saúde, trabalho, educação e outras questões, com especial incidência na gestão de crises. Troy, que tinha vindo através do departamento do trabalho como assistente adjunto para as políticas, era já um Senior fellow tanto no Hudson Institute como no seu think tank satélite, o Potomac Institute for Policy Studies (PIPS), onde o verdadeiro trabalho de desenvolvimento de políticas era levado a cabo.

Tanto Troy como Kadlec abandonariam a administração no final do primeiro mandato de Bush e só regressariam na segunda metade do seu segundo mandato. Entretanto, as rodas tinham sido postas em marcha com a aprovação do Projecto BioShield e do PAHPA e, pouco depois desta aprovação, começou o pânico sobre um surto de “gripe aviária”, que se tinha propagado primeiro em 33 cidades do Vietname e depois levou a um surto da doença mortal das aves de capoeira que afectou toda a Eurásia, África e Médio Oriente. O surto desencadeou o pânico nos EUA no final de 2005, em grande parte graças aos avisos exagerados feitos pelo sucessor de Tommy Thompson como chefe da HHS, Michael Leavitt.

Apesar de as alegações de Leavitt serem extremamente inexactas, alguns funcionários da administração beneficiaram financeiramente do medo espalhado, como Donald Rumsfeld, cujas acções na empresa farmacêutica Gilead lhe renderam 5 milhões de dólares depois de o susto ter terminado. Parte da razão do salto de rentabilidade da Gilead resultou da decisão do Pentágono e de outras agências governamentais dos EUA de armazenar 80 milhões de doses de Tamiflu, um medicamento promovido para tratar a gripe das aves que foi originalmente desenvolvido pela Gilead. Rumsfeld tinha sido o executivo de topo da Gilead antes de entrar para a administração George W. Bush. Para além daqueles que beneficiaram monetariamente, o susto da gripe das aves também deu um impulso considerável à agenda “armazenamento” da biodefesa que Kadlec e outras fontes internas apoiaram.

Kadlec regressaria à Casa Branca como Assistente Especial para a Segurança Interna e Director Principal para a Política de Defesa Biológica em 2007 para solidificar ainda mais o seu eventual controlo sobre a Reserva Estratégica Nacional e o gabinete da ASPR, juntamente com o seu colaborador do Hudson Institute/PIPS, Tevi Troy, concomitantemente nomeado Director Adjunto da HHS. Isto colocou Troy a cargo da implementação das próprias políticas consagradas no PAHPA e das mudanças departamentais decretadas como parte do Projeto BioShield.

A Administração Bush chegou ao seu inevitável fim quando Barack Obama foi eleito e empossado, no início de 2009. Kadlec e Troy, mais uma vez, deixaram os seus cargos governamentais e desapareceram nos seus covis do setor privado. Mas, nesse mesmo ano, ocorreu a primeira corrida à reserva do SNS de Kadlec recentemente reequipada quando a pandemia de “gripe suína” (H1N1) desencadeou a sua “maior utilização” de sempre, distribuindo quase 13 milhões de regimes antivirais, bem como equipamento médico e outros medicamentos a nível nacional e internacional, em conjunto com o BARDA. A empresa Gilead (e Rumsfeld) beneficiou novamente de forma considerável, tal como outras grandes empresas farmacêuticas, que estavam ansiosas por reabastecer o SNS após a sua implantação em grande escala.

As origens do vírus têm sido objecto de controvérsia durante vários anos, tendo sido alternativamente identificadas como tendo surgido de suínos no México ou na Ásia. Um dos últimos estudos realizados em 2016 afirma ter localizado definitivamente a origem dos porcos no México. Independentemente da sua verdadeira origem, os observadores interessados puderam recolher dados vitais do exercício para se prepararem para o “próximo”.

Os cavalos de Tróia

Tevi Troy, director-adjunto da HHS, que deixava a HHS, assumiu rapidamente o cargo de lobista de alto nível da empresa JUUL e-cigarette, que tinha encontrado algumas barreiras regulamentares na sequência da Lei de Controlo do Tabaco, que tinham acabado de ser assinadas pelo então presidente Obama. Margaret Hamburgo, membro fundador da NTI, era então Comissária da FDA e paralizou a aplicação dos novos regulamentos; uma política de não aplicação tácita tinha persistido na FDA até à recente proibição do sabor, que se seguiu a novas preocupações em matéria de saúde levantadas por um relatório da NIH de 2018.

As razões por que um antigo funcionário da HHS se dedicaria a promover a utilização de um produto reconhecidamente prejudicial para a saúde podem ser respondidas analisando as estreitas ligações do Dr. Troy com o PIPS e o Instituto Hudson. Com uma retórica de mercado livre, estas instituições são veículos para as iniciativas políticas que os seus milionários financiadores querem ver implementadas, com os seus think tanks subsidiários, como o PIPS, a servir de satélites em órbita mais próxima do centro do poder.

Enquanto membro adjunto do Instituto Hudson e membro sénior do PIPS, Tevi Troy parece desempenhar um papel fulcral de coordenação entre os dois. O Hudson Institute foi fundado em 1961 por Herman Kahn, antigo estratega militar RAND, teórico de sistemas e inspirador do Dr. Strangelove. Após a morte de Kahn em 1983, o Instituto foi “fortemente contratado” pela Lilly Endowment – a maior fundação privada dos Estados Unidos, de longe – e tornou-se um íman para as mesmas redes milionárias conservadoras radicais que o patronizam hoje.

Entre os seus maiores doadores estão nomes familiares como Microsoft, Lockheed Martin Corporation, The Charles Koch Foundation, Boeing e Emergent BioSolutions. Em 2004, Lilly Endowment regressou a Washington D.C., anunciando que “voltaria às suas raízes de segurança nacional e política externa“, como resultado da guerra contra o terrorismo se ter tornado uma “preocupação nacional dominante”.

O PIPS e o Instituto Hudson viriam a desempenhar um papel central nos esforços seguintes de Kadlec para fazer da biodefesa uma prioridade nacional, com ele ao leme de um gabinete ASPR amplamente alargado. Mas, seriam ainda necessários alguns anos. Entretanto, havia mais a fazer no domínio da legislação, já para não falar da iniciativa privada.

Com base em todas as versões anteriores do PAHPA original de Kadlec, a Lei de Reautorização para a Prevenção da Pandemia e de Todos os Perigos (PAHPRA) de 2013 estabeleceu mais dois instrumentos que reforçaram o seu objectivo final. Em primeiro lugar, o Plano de Estratégia e Implementação da PHEMCE (SIP) foi codificado em lei, o que formalizou as ligações da legislação original ao gabinete do orçamento e, em segundo lugar, racionalizou a facilidade de Autorização de Uso de Emergência (EUA) para a FDA acelerar a aprovação de medicamentos.

Mostra-me o dinheiro

Logo ao voltar ao sector privado, Robert Kadlec ajudou a fundar em 2012 uma nova empresa chamada “East West Protection”, que desenvolve e fornece “sistemas integrados de prevenção e resposta a todos os riscos para as comunidades e nações soberanas”. A empresa também “aconselha comunidades e países sobre questões relacionadas com a ameaça de armas de destruição maciça e de pandemias naturais”.

Kadlec formou a empresa com W. Craig Vanderwagen, o primeiro HHS ASPR após a criação do posto ter sido largamente orquestrado pela Kadlec. O outro co-fundador da East West Protection foi Fuad El-Hibri, o fundador da BioPort/Emergent Biosolutions, que tinha acabado de se demitir do cargo de CEO da Emergent no início desse ano.

El-Hibri tem numerosas ligações comerciais ao Reino da Arábia Saudita, onde ele e o seu pai, Ibrahim El-Hibri, tinham em tempos vendido reservas de vacina contra o antrax ao governo saudita por um preço exorbitante por dose. A East West Protection perseguiu a oportunidade de equipar o Reino com um sistema de biodefesa personalizado, mas acabou por não concluir o acordo, apesar das ligações de El-Hibri. Em vez disso, a East West Protection vendeu os seus produtos a um punhado de estados dos EUA.

Kadlec foi o director da empresa desde a sua fundação até, pelo menos, 2015, tendo posteriormente vendido a sua participação na empresa a El-Hibri. Ao ser nomeado para servir como ASPR na administração Trump, Kadlec não revelou as suas ligações à East West Protection e a El-Hibri e, desde então, tem apenas afirmado ter estado envolvido na fundação da empresa, apesar das provas em contrário.

As incursões de Robert Kadlec no setor privado durante este período foram muito mais longe do que a East West Protection. A empresa de consultoria de Kadlec, a RPK Consulting, compensou-o em 451.000 dólares só em 2014, onde aconselhou directamente a Emergent Biosolutions, bem como outras empresas farmacêuticas como a Bavarian Nordic. A Kadlec foi também consultora de empresas militares e de serviços secretos, como a Invincea, apoiada pela DARPA, e a Scitor, contratada pela NSA, que foi recentemente adquirida pela SAIC.

O trabalho de consultoria da Kadlec para empresas ligadas aos serviços de informações valeu-lhe os elogios de espiões que se tornaram empresários, incluindo nomeadamente Steve Cash – um antigo agente da CIA e fundador da Deck Prism, ela própria uma empresa de consultoria que contratou Kadlec. Cash disse recentemente ao The Washington Post que “todos adoram o Dr. Bob [Kadlec]”, acrescentando que ele era um “tesouro nacional”.

Na véspera da guerra biológica

Kadlec tinha certamente vindo a acumular um baú de tesouros de poder, ajudado por algumas relações muito acolhedoras no negócio da consultoria e, por esta altura, já estava preparado o palco para um grande impulso para criar um organismo oficial dentro dos corredores da legislatura; uma empresa de consultoria incorporada, de certa forma, para promover os desígnios da clique da guerra biológica.

Nesse ano, Robert Kadlec reuniu um Painel de Estudos Blue Ribbon, patrocinado conjuntamente pelo Hudson Institute e uma instituição subsidiária do PIPS, o Centro Inter-Universitário de Estudos do Terrorismo (IUCTS), gerido pelo Dr. Yonah Alexander. O Painel Blue Ribbon de Kadlec foi presidido pelo Senador Joe Lieberman e incluiu a contribuição indispensável de Tom Daschle, Donna Shalala e outros membros do clube de política da guerra biológica.

No final de 2015, o painel de estudo publicou um relatório intitulado “A National Blueprint for Biodefense” [Um modelo nacional para a defesa biológica], que apelava a 33 iniciativas específicas, tais como a criação de um “sistema hospitalar de defesa biológica” e a implementação de uma “colaboração militar-civil para a defesa biológica”. Além disso, o painel recomendava que o gabinete do Vice-Presidente dirigisse um “Conselho de Coordenação” da Casa Branca para supervisionar e orientar a política de defesa biológica.

Pouco depois, seria constituído um organismo oficial denominado Comissão Bipartidária sobre Defesa Biológica, com todos os membros do Painel Blue Ribbon e muitos outros, como o co-presidente da Comissão Tom Ridge e, talvez sem surpresa, Tevi Troy e Yonah Alexander, que são membros ex officio [por dever do seu cargo]. Juntamente com eles está Lewis “Scooter” Libby, ex-Chefe de Gabinete de Dick Cheney e Vice-Presidente Sénior do Hudson Institute, que por acaso é também o patrocinador fiscal da Comissão.

Nos agradecimentos, o relatório de 2015 do painel inclui uma homenagem a Robert Kadlec, a quem conferem o mérito pelo resultado, que só “existe devido à clarividência, paciência e optimismo perpétuo do Dr. Robert Kadlec. Bob compreendeu que, por muito progresso que tenha sido feito no esforço nacional de prevenção e preparação para as ameaças biológicas, ainda não é suficiente. Ele sabia que, com o impulso certo, poderíamos fazer muito mais, e considerou este Painel como um meio para esse fim. Estamos satisfeitos por ele o ter feito”.

Kadlec montou esta última ofensiva enquanto era director-adjunto do Comité de Selecção do Senado do Senador Richard Burr, cargo que desempenharia até às vésperas da eleição de Donald Trump, em 2016. Trump iria então nomeá-lo para o cargo de ASPR e Kadlec seria confirmado no início de Agosto do ano seguinte.

Faltava apenas uma peça do puzzle, mas não demoraria muito até Robert Kadlec se tornar o maior capo de todos eles com uma mudança subtil que foi introduzida na PAHPRA de 2018:

Título III – Sec 301

1) DELEGAÇÃO AO ASPR.-Subsecção (a)(1) da secção 319F-2 da Lei do Serviço de Saúde Pública (42 U.S.C. 247d-6b) é alterada com a notável substituição de “em colaboração com o Director dos Centros de Controlo e Prevenção de Doenças” por “actuando através do Secretário Adjunto para a Prevenção e Resposta”.

 

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Os autores:

Whitney Webb é uma jornalista colaboradora da MintPress News, sediada no Chile. Tem contribuído para vários meios de comunicação independentes, incluindo Global Research, EcoWatch, o Instituto Ron Paul e 21st Century Wire, entre outros. Já fez várias aparições na rádio e televisão e é a vencedora do Serena Shim Award for Uncompromised Integrity in Journalism [Integridade sem compromissos no Jornalismo], em 2019.

Raul Diego é escritor do MintPress News, fotojornalista independente, pesquisador, escritor e documentarista.

 

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Iniciais (traduzidas para português):

ANSER – Analytic Services, Inc.

ANSER-IHS – Instituto para a Segurança Interna

ASPHEP – Secretário Adjunto para a Preparação de Emergência da Saúde Pública

ASPR – Secretário Adjunto para a Prevenção e Reação

AVA – Vacina contra o antrax absorvida

BARDA – Autoridade de Investigação e Desenvolvimento Avançado Biomédico

BASIS – Sistemas de informação e vigilância de aerossóis biológicos

BW – armas biológicas

DARPA – Agência de Projectos de Investigação Avançada em matéria de Defesa

DHS – Departamento de Segurança Interna

DTRA – Agência de Redução de Ameaças para a Defesa

FDA – Administração de Alimentos e Medicamentos

FEMA – Agência de Gestão de Emergências

HHS – Departamento de Serviços de Saúde e de Recursos Humanos

H.R. – Projeto de lei com origem na Câmara dos Representantes

IUCTS – Centro Inter-Universitário de Estudos do Terrorismo (subsidiária de PIPS)

JSOC – Comando Conjunto de Operações Especiais

MIC – Complexo industrial militar

NASA – Administração Nacional da Aeronáutica e do Espaço

NHSA – Agência para a Segurança Interna Nacional

NPS – Armazenagem Farmacêutica Nacional

NTI – Iniciativa sobre a Ameaça Nuclear

OPHP – Gabinete de Prevenção para a Saúde Pública (do HHS)

OTA – Gabinete do Congresso de Avaliação Tecnológica

PAHPA – Lei de Prevenção para a Pandemia e Todos os Perigos

PAHPRA – Lei de Reautorização para a Prevenção da Pandemia e Todos os Perigos

PDDs – Directivas de decisão presidencial

PFIAB – Conselho Consultivo de Informações Externas do Presidente

PIPS – Instituto Potomac de Estudos Políticos

PNAC – Projeto para um Novo Século Americano

SAIC – Science Applications International Corporation

SNS – Armazenagem Estratégica Nacional

UNSCOM – Comissão especial das Nações Unidas

WHO/OMS – Organização Mundial de Saúde

WMD – armas de destruição massiva

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