CARTA DE BRAGA – “de cuecas e virus” por António Oliveira

Parece-me que a crise que estamos a viver, a do ‘corona’, deixou ‘em cuecas’ a maioria da classe política actual, a começar pela das grandes potências que, pela interpretação ou interesses, reagiu unilateralmente, esquecendo que este mundo é apenas uma comunidade gigantesca, em que o mal de alguém se transmite sem respeitar cabeleiras nem penteados, por muito louros ou excêntricos que sejam.

A única coisa que os movimentou foi a estratégia simplista de sempre, a do confronto, como se o ‘outro’ fosse um inimigo, sem olharem a própria retaguarda, onde uma pesada e imutável administração, exigiria outra atitude, pelos próprios interesses.

E a História moveu-se mais depressa nos últimos meses que nos últimos anos, por cada um estar mais interessado em esconder as vergonhas, do que cuidar deste minúsculo grão de areia, na infinita praia do universo.

É a continuação da prepotência já posta ‘à mostra’ em 2008, quando todos vimos que ‘eles’ já tinham perdido a noção da responsabilidade nas relações com os outros e mais vulgares mortais, cegos pela sua avidez sem limites.

E nesse ‘eles’ estão abrangidos todos os que de uma maneira, ou de outra, decidem sempre por nós, empoleirados nos seus pedestais/púlpitos, onde têm às ordens os donos todos das câmaras e microfones, já também donos das tecnologias para nos deixarem embatucados.

Mas este ‘corona’, um minúsculo e feioso vírus, veio mostrar-nos e mostrar-lhes, que a natureza é maior que ‘eles’, que está farta dos abusos e que a ‘sucessão de crises que nos assaltam desde o final do século passado, climática, ecológica, migratória, financeira, europeia e agora sanitária, tem um condutor comum, que entramos em horizontes de uma ignorância não omitível e que devemos como sujeitos, organizar bem a nossa interacção’.

É Daniel Innerarity quem o afirma, por ver a distância enorme que os separa dos habitantes do planeta, por estarem entregues a desvarios variados, mais de acordo com tamanho das algibeiras que do bem comum, por também não terem noção do que ‘comum’ quer dizer!

Será que alguma vez terão pegado (para ler!) em ‘A Peste’ de Albert Camus? Tem muitos mais caracteres do que os 140 autorizados pelo Twitter, mas conta o pesadelo de uma cidade isolada do mundo, de famílias separadas, do medo, da angústia e da morte e, onde o eventual triunfo sobre o bacilo não o consegue iludir, por Camus até por saber.

O bacilo da peste não morre nem desaparece nunca, pode ficar adormecido nos móveis ou entre a roupa, aguarda pacientemente nos quartos, nas caves, nas malas, nos lenços ou na papelada, e que, possivelmente, viria um dia em que, para infelicidade e ensinamento dos homens, a peste acordaria os seus ratos e enviá-los-ia para morrerem numa cidade feliz’.

Mais dramática é a pergunta que se fez há poucos dias Hirokazu Kore-eda, já vencedor da Palma de Ouro em Cannes e agora confinado com a sua filha em Tóquio, ‘E se o ser humano for o vírus do planeta Terra?

Será que ‘eles’, agora só preocupados em tapar as vergonhas, saberão responder?

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

2 comments

  1. Maria de sa

    *Mais um artigo a repensar :afinal quem somos?Como nos comportamos com este “inimigo invisível”?*

    *Congratulo -me com a referência à PESTE de Camus .Estudei esta obra na FAC em “LOURENÇO MARQUES “.Ainda hoje a conservo toda “chichadinha” ,pois tive uma PROFESSORA francesa sem “papas na língua .Certamente ,por isso “não aqueceu o lugar”.* *Muito obrigada ,PROFESSOR .*

    *Maria *

    Sem vírus. http://www.avast.com

  2. António Oliveira

    Muito obrigado, Maria!
    AO

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