CARTA DE BRAGA – “a rolinha das seis” por António Oliveira

À hora a que me levanto, ouve-se muito e só a passarada, em que os melros levam a melhor, pois nunca vi tantos em tão pouco espaço, mas não posso deixar de referir a minha ‘rolinha das seis’.

Vem todos os dias, mais minuto menos minuto e, enquanto eu refilo contra os homens que nos trouxeram o ‘corona’, por isto ser uma maquinação dos homens e não da natureza, a minha rolinha parece zangada com o dono das finanças lá da sua tribo porque, depois do canto estranho que usa para aterrar em qualquer lado, logo começa um outro que está na origem do que penso.

Não evoco a linda ‘Cucurrucucu Paloma’ com que Caetano Veloso nos alegrou já lá vão uns anos, por me parecer mais próximo de (peço desculpa por me servir da onomatopeia), ‘Cu…rru…pto’ e logo depois, mais algumas vezes, ‘Cu…rru…pto’, fazer uma pausa e voar depois para outro poiso, mas não suficientemente longe para deixar de a ouvir!

Já deve ser antiga a queixa da minha ‘rolinha das seis’, pois também a ouvi a outras rolas noutros lugares, sempre pausada e sempre repetida, como se a queixa faça parte do ADN das rolas, por elas se lastimarem tanto e assim!

Basta haver algumas árvores próximas (neste aspecto sou um privilegiado!), para que elas, logo de manhã ou a partir do meio da tarde, venham fazer queixa, como se eu ou algum dos vizinhos, tivéssemos poder para a entender e dar seguimento aos seus queixumes.

A grande, talvez a maior ‘invenção’ da inteligência humana, é a compaixão, aquilo que sinto quando a minha ‘rolinha das seis’, deixa escapar o seu lamento ao sair das árvores, já de si exemplo perfeito do que é a tolerância das árvores para com todas as formas de vida, que fazem um qualquer bosque, pequeno ou grande.

Disse-o Pessoa à sua maneira ‘Entre o luar e a folhagem, Entre o sossego e o arvoredo, Entre o ser noite e haver aragem, Passa um segredo. Segue-o minha alma na passagem’.

É, devia ser modelo para o homem, porque todas aquelas formas de vida, nem sempre tão sonoras como a minha rolinha, são quem mais faz, para se poder continuar a viver neste minúsculo pedaço do universo!

Aliás, Walt Whitman garante que o bosque e as suas espécies são uma lição de ética e, quando se entender isso, todos ficaremos a ganhar, por não mais se limitar, provocar erosão, envenenar nem destruir a vida.

Também, realçou um geógrafo há poucos dias a um jornal diário, ‘A tragédia de não se pensar no drama que é viver afastado da natureza’ pois, ‘se não houver alguma coisa a deixar raízes, ninguém se pode atrever a voar, nem a andar’.

A terminar esta Carta, bem longe do habitual, permito-me um aforismo da grande escritora que foi Maria Gabriela Llansol, ‘a beleza da forma e da cor, é a santidade das árvores’.

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

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