DA DESTRUIÇÃO DE ESTÁTUAS AOS FOCOS DE INFECÇÃO DA COVID – UMA REFLEXÃO SOBRE AS TRAJECTÓRIAS DA NOSSA JUVENTUDE – NOVA SÉRIE – A INTRODUÇÃO DE JÚLIO MARQUES MOTA

 

 

Meus caros Amigos e Amigas

 

Vivemos momentos trágicos, hoje, com uma crise pandémica e com uma crise económica como não há memória e para a qual também não se sabe bem a que ferramentas de politica económica se deve recorrer, sendo certo e seguro que não poderá ser a caixa de ferramentas da austeridade cujos estragos provocados pela sua aplicação na última década ainda hoje são visíveis .

Entretanto, em Lisboa, os racistas vêm à rua dizer que não há racismo em Portugal e, calculamos, com mais gente do que o CDS levaria numa manifestação equivalente. Em paralelo com o que em parte se faz no resto do mundo, em Portugal e num outro plano político que não o desta crise, em movimentos que a população em geral, e a direita em particular, assume que se trata de movimentos radicais de esquerda, começa-se a decepar estátuas, como se o problema do racismo seja a representação de um passado que foi vivido, que está materializado, que ninguém poderá anular, apagar. Não é a destruir estátuas que se resolve o problema dos racismos e das desigualdades que lhes são inerentes. É assumindo esse passado criticamente pelo que foi e é à luz do presente que podemos encontrar as respostas contra os racismos, os fascismos e outros ismos que com esses dois se misturam.

Nesta prática de destruição de estátuas, segue-se de muito perto o radicalismo da juventude universitária americana, pertencente ao movimento dito de interseccionalismo, que vem de muito antes da morte de George Floyd.

As estátuas, penso eu, são a representação material de um passado que devemos assumir como tendo sido, e a rejeição desse passado poderá e deverá assumir antes uma outra forma bem mais coerente do que andar a destruir estátuas ou outras obras de representação do passado. Na minha opinião, devemos reagir quanto ao futuro medonho que nos espera se andarmos distraídos perante os graves problemas do presente e cuja não solução está na base da contestação atual mesmo que esta apareça por outras formas, como é o caso com a destruição de estátuas. Temos de ter consciência política quanto às coordenadas do presente que estrangulam o futuro da nossa juventude, encurralada muita dela na situação de sem emprego, sem formação, sem estudos, temos de estar conscientes dos mecanismos geradores da precariedade profunda, dos racismos que a estas precariedades estão ligados. Mas as múltiplas formas de precariedade em que as classes dominantes assentam o seu domínio dizem respeito não só à juventude, mas a todos nós. A história é a história da luta de classes terá dito Marx, e parafraseando-o, diremos que a história é também e sobretudo o registo da luta de classes, em que a arte aparece como expressão simbólica desse registo, seja pela sua afirmação, pela sua negação ou pela indiferença face a esta mesma luta de classes. Querer destruir a arte a pensar que assim se corrige a história aos olhos e na mente de todos nós é uma triste ilusão[1], porque se correção há a fazer, não é ao passado que já foi mas é sim face ao futuro como contraponto do que agora se quer rejeitar. É, pois, a lógica da luta de classes que se deve assumir e não as questões colaterais em  sua substituição.

Para complicar ainda mais a situação, estes mesmos mecanismos de classe geradores do mal-estar que hoje se vive irão, possivelmente, ser exacerbados com a crise Covil-19 e irão ser exacerbados porque a resposta que as classes dominantes darão à crise, resposta esta que inclui a utilização dos mecanismos de aprofundamento do racismo, irão aprofundar as desigualdades económicas e sociais. Neste processo, é certo e seguro que serão sempre os mais frágeis a pagar a tripla fatura que lhes será imposta. Dizemos tripla fatura porque a pressão sobre os mais desfavorecidos exercer-se-á a três níveis:

– a fatura de não se ter disposto de meios para responder à crise pandémica e que já está a ser paga, muitas vezes com a vida, sobre a qual curiosamente não se pedem responsabilidades

– a fatura do longo período de estagnação que vamos sofrer, porque seguramente a retoma da economia não estará ali à frente, já ao virar da esquina. A recessão corre o risco de ser longa, caracterizada por um U de base bem alargada, a significar que os efeitos destrutivos sobre a economia e sobre o tecido social serão duros e difíceis de recuperar. A recessão será dura e exige gente de coragem, a recessão será dura e exige que se exijam responsabilidades políticas a quem é responsável e nada disto tem a ver com a destruição de estátuas ou até, e porque não então e na mesma lógica, com a destruição dos próprios museus. Qual a diferença então?

– a fatura da retoma, depois. É necessário aumentar a formação de capital fixo, para substituir a degradação do capital atual ou até para o recompor devido à sua própria obsolescência, física ou moral. É então preciso, em nome da criação futura de empregos baixar o nível das remunerações dos trabalhadores ditos essenciais, para assim permitira acumulação de capital.

Enquanto as faturas se desenham, se escrevem, para serem apresentadas e cobradas num futuro muito próximo, fico com um sentimento de amargura em ver a energia da nossa juventude indiferenciada politicamente a ser canalizada:

– para os copos, para a festa em contínuo, porque para eles a vida é uma festa onde se insere colateralmente todo o resto, Trata-se de uma grande massa de jovens, culturalmente indiferenciada, mesmo que diplomada, uma vez que hoje culturalmente os diplomas pouco valem. Emblemática a reunião na praia de Carcavelos de centenas de pessoas que não se conheciam, indiferente às regras sanitárias, em festa. Este comportamento faz-me lembrar a resposta que me deram há dias a uma pergunta que eu fiz a dois jovens adultos. Estes estavam a conversar na rua, um deles estudante e o outro distinto professor desta nossa universidade, de letra u bem minúscula. Estavam a falar sem máscara. Dirigi-lhes a palavra, a certa distância, questionando-os pela ausência de máscara, num e noutro. A resposta do distinto professor, foi de que a máscara era para os velhos, uma vez que a Covid lhes passava ao lado. Curiosamente a resposta estava a ser dada a um velho de 77 anos que sou eu. Curiosamente, apenas isso.

Ou:

– canalizada para a destruição de estátuas, como se o passado só pudesse ser visto e analisado à luz, nem sequer do presente, mas de um futuro longínquo, de uma sociedade a ser então unidimensional, se esta for estabelecida com os parâmetros ideológicos daqueles que andam a destruir estátuas . E à conta desta “diversão do sistema” deste canalizar de energias juvenis polarizada sobre ícones do passado, não se está a correr o risco de levar a que se aprofundem ainda mais, mas muito, muito mais, as questões de fundo que agora se diz estarem a combater? Não será mesmo assim? Eu creio que é mesmo assim, além de que com estas práticas se gera um outro efeito politico muito mais poderoso a favor das classes dominantes e que subterraneamente se pode estar a gerar: ou seja a contestação nos moldes em que é feita pode estar a criar um sentimento de indignação na população em geral que a leve a encostar-se ainda mais à direita. No quadro das democracias liberais os exemplos abundam nesse mesmo sentido.

Ou:

-uma outra camada de jovens, minoritária e sem intersecção com os dois grupos anteriores, sendo tecnicamente gente muito evoluída e de muitos recursos do país nela investidos , é canalizada pelo sistema, pelas elites dominantes, para a indiferença ou para a impotência, o que é grave, muito, muito grave. Um exemplo disso referi eu há dias num texto saído em A Viagem dos Argonautas a propósito das pessoas  ultra especializados, sabendo muito de muito pouco e pouco de muita coisa, com o exemplo de um programa de Prós e Contra e a intervenção de Clara Raposo, atual diretora do ISEG, uma mulher de curriculum brilhante, possivelmente muitíssimo eficiente na área em que se especializou mas que politicamente, out the box, era de uma pobreza intelectual aflitiva. Uma camada de gente tecnicamente altamente especializada que se prepara para ser uma camada substituta da classe política atual e disposta a tudo para servir o mesmo sistema, o sistema que temos vindo a criticar. Um exemplo de como essa camada se prepara com tempo para se assumir como classe dirigente temo-la no ensaio experimental do jovem líder do CDS ou melhor ainda num grupo que podemos chamar o grupo Health Parliament Portugal que de resto dispõe de uma boa cobertura televisiva e tem a cobertura do Expresso, da Microsoft, da Janssen (indústria farmacêutica) e da Universidade Nova de Lisboa e onde no conselho consultivo pontuam nomes como Maria Antónia Almeida Santos. Álvaro Almeida, Isabel Vaz, António Correia de Campos, Adalberto Campos Fernandes, Maria de Belém Roseira, Alexandre Lourenço, entre muitos outros. Deste grupo, no programa de Prós e Contras de ontem tivemos o “desprazer” de ouvir como referência para a política a seguir o  que nos diz o celebérrimo teorema da equivalência ricardiana, uma das bandeiras dos defensores das politicas de austeridade de muito má memória, de que mais despesa pública hoje significa mais impostos para amanhã. Esta posição deixou-nos de boca aberta quando estamos numa brutal crise económica à escala mundial e implicitamente se defende a contenção da despesa pública com o argumento do teorema, de que esta despesa é ineficaz[2]! Esse economista do grupo de jovens turcos ao assalto do poder num futuro não longínquo falava para o futuro e prevê-se facilmente o futuro que nos querem impor se os deixarmos. Os nomes do Conselho Consultivo deste grupo  são nomes bem conhecidos como são bem conhecidas e  lembradas as políticas aplicadas por  alguns deles.

É a partir da massa desse grupo extremamente minoritário e das múltiplas vias de diferenciação que lhe são oferecidos criados que o sistema procura garantir os meios da sua própria reprodução, no fundo, a reprodução das suas elites.

E, por fim,

– uma outra camada, que diremos de uma outra galáxia, temos uma camada de jovens de menor dimensão ainda, de relevante e ampla capacidade tanto técnica como política, características que desta forma o grupo anterior não tem. Neste grupo farão parte, sobretudo as gentes à esquerda do PS, gente que quer ser e esperemos que seja, o porta-estandarte de uma juventude que vive o presente a pensar num futuro condigno para todos nós. Trata-se de gente que o sistema tentará enredar em múltiplas formas para que estas fiquem condicionadas aos seus próprios objetivos sistémicos. Destes jovens, e alguns deles já estão no Parlamento português, esperemos que nos fale positivamente o futuro.

Dissemos acima que é, pois, a lógica da luta de classes que se deve assumir e não as questões colaterais como a sua substituição. Com efeito, a luta de classes está cada vez mais patente aos olhos de toda a gente com o Covid 19, mas que muita gente a não quer ver, agarrando-se aos efeitos colaterais menores como já referimos. De entre os múltiplos exemplos dessa evidência que nos salta aos olhos vejamos o problema das migrações económicas através de dois exemplos, China, Índia, e completemo-los com um exemplo sobre Portugal embora neste caso sobre migrações económicas externas.

Sobre a China e a Índia[3] diz-nos Éric Sautedé

“Entre as populações socialmente mais em risco estão os migrantes internos, as populações flutuantes, na sua maioria do campo, que deram um grande contributo para a modernização de ambos os países nas últimas décadas. Na Índia, existem cerca de 100 milhões deles, ou um quarto da população ativa – com uma taxa de participação da força de trabalho de apenas 42,7% até ao final de 2019. Na China, existem quase 291 milhões, ou seja, mais de um terço da população ativa, enquanto a taxa de participação global (que está em declínio) é de cerca de 68%.

Bastaram algumas imagens de rostos mascarados e rostos cansados amontoados em autocarros e comboios, proibidos de chegar às suas aldeias ou forçados a caminhar nas estradas, por vezes ao ponto de morrerem de exaustão, para que estes migrantes se tornassem símbolos de desigualdade perante a doença.

Na Índia, as consequências do confinamento para os migrantes têm sido muito mais trágicas e imediatas. As imagens de centenas de milhares deles a invadir comboios e autocarros, mas na sua maioria a pé ou de bicicleta, por vezes durante centenas de quilómetros e arriscando as suas vidas – à data de 1 de junho, não menos de 852 pessoas tinham morrido em resultado do confinamento e sem terem sido infetadas – deram a volta por todo o mundo.

 Com o prolongamento do confinamento – foi de facto prolongado na maioria dos grandes centros urbanos até 31 de maio – só no final de abril é que o governo decidiu finalmente restabelecer os transportes para permitir aos trabalhadores migrantes regressarem a casa em condições mais decentes.

Mas deixou os vários estados da federação sozinhos para coordenar o reinício das ligações ferroviárias, exigindo aos migrantes a produção de um certificado médico que garanta que estão assintomáticos e o registo em linha nos sítios Web nos seus estados de origem, que são muitas vezes difíceis de ler e inacessíveis.

Finalmente, muitos não beneficiaram de subsídios governamentais que supostamente cobriam 85% do custo dos bilhetes de comboio, enquanto no início de junho, cerca de 5,7 milhões de migrantes apanharam cerca de 4.000 comboios Shramik especialmente reservados. Para dezenas de milhões de outros, caminhar continuou a ser a única opção, uma vez que a perseguição policial sistemática das primeiras semanas deu lugar ou à indiferença cínica ou a proibições rigorosas de viajar ao longo das auto-estradas. (…)

Na China, embora a atividade tenha sido retomada em março, pelo menos 20% dos migrantes não puderam regressar aos seus empregos pré-crise. E para aqueles que encontraram um emprego, após dois meses de perda de rendimentos não compensada, as condições mudaram: apenas os salários básicos estão a ser pagos novamente, frequentemente indexados ao salário mínimo local – todos os bónus e horas extraordinárias foram abolidos – que é geralmente quatro a cinco vezes mais baixo do que o salário médio na mesma localidade. Por exemplo, as trabalhadoras do vestuário no Delta do Rio das Pérolas viram os seus salários serem reduzidos para metade ou mesmo três vezes, muitas vezes depois de serem forçadas a tirar todas as suas licenças de férias e por vezes licenças não remuneradas. (…)

Alguns economistas chineses, como Liang Qidong da Academia de Ciências Sociais de Liaoning, não escondem a sua inquietação e não hesitam em mencionar a possibilidade de um movimento social em grande escala se “os jovens trabalhadores migrantes não conseguirem encontrar trabalho na cidade ou regressar à terra nas suas aldeias de origem”. A situação é ainda mais explosiva porque os trabalhadores migrantes estão muito mal protegidos.

Em 2016, a última vez que o Gabinete Nacional de Estatística publicou tal informação, quando é publicado anualmente um quadro (quase) completo da situação dos migrantes, apenas 65% dos trabalhadores migrantes chineses tinham um contrato de trabalho, em total violação da lei. Não é, portanto, surpreendente que menos de 25% deles beneficiem dos cinco principais seguros contratuais (velhice, saúde, maternidade, desemprego e contra acidentes de trabalho), especialmente porque o sistema de autorização de residência (hukou) – a maioria dos migrantes vem do campo – proíbe-lhes o acesso aos serviços sociais nas zonas urbanas sem o benefício de um contrato”

Estes são custos da globalização feliz, e da concorrência selvagem que a mesma implica, que os neoliberais nos vendem até à exaustão e de que não se fala e sobre os quais em lado nenhum se veem manifestações de protesto. Mas olhemos agora para Portugal onde temos em termos de trabalhadores estrangeiros efeitos colaterais sobre os que fogem ao inferno acima descrito.

Em Portugal descobre-se que os trabalhadores agora chamados de essenciais representam um perigo pelo não respeito das regras de confinamento ou de distanciamento social. Nunca ninguém se preocupou com isso, antes. Viaje-se pelo Algarve, assista-se à saída do pessoal das estufas e ver-se-á que estamos perante uma torre de Babel. Gentes dos mais diversos países, brasileiros, venezuelanos, paquistaneses, indianos, nepaleses, etc. tudo gente de salário mínimo e condições de vida bem abaixo de qualquer mínimo. Ninguém se questiona sobre os sítios onde dormem as mulheres romenas que vêm para a colheita do morango no Alentejo, dizia o engenheiro Oliveira Batista num debate organizado em Coimbra, por volta de 2010. Ninguém se preocupou ontem nem ninguém se preocupa hoje. Em plena crise da Troika descrevi uma situação de uma casa alugada a este tipo de trabalhadores em que num T3 dormiam mais de 20 pessoas! As camas nunca arrefeciam. Hoje não sei como será, mas não será muito diferente. E assim, os focos da pandemia continuam a verificar-se. Deixando o Algarve ou o Alentejo descobrimos possivelmente que a mesma situação se passa em muitos lados. Salários mínimos, condições de trabalho abaixo dos mínimos, condições de vida aos nossos olhos altamente degradantes. Imagine-se uma exploração agrícola no interior do país, onde estão trabalhadores de muitos países. Muitos deles trabalham sete dias por semana, semana a semana, levam para casa ( qual casa) pouco mais de 600 euros no total, dormem em casas superlotadas e em que condições? Se ali entra um qualquer migrante assintomático, é uma perfeita razia que se gera a seguir. Preocupações de quem? Manifestações feitas por quem? E será isto muito diferente do que se passa em certas zonas de Lisboa e Vale do Tejo? Não o creio[4]. Se tenho razão, uma das respostas à pandemia passará por exigir condições de vida, de remunerações e de trabalho a toda essa gente, espalhada pelo interior deste país. E para acrescentar, nesse mar de gente de trabalho essencial haverá inclusive licenciados à espera de passarem 5 anos para adquirirem direitos de cidadania na Europa. Não têm passaporte dourado também não têm quem que se preocupe com eles. É também tempo de acordarmos para as verdadeiras lutas que dão significado à contestação, que dão sentido à vida das  pessoas e lhes conferem um sentimento de dignidade como o conferem também à nossa. Olhemos bem mais para isso do que para as estátuas, ou parafraseando um pouco Albert Camus, olhemos menos para o trabalho morto das civilizações passadas e mais para o trabalho vivo da civilização em que se vive.

Pela parte que me toca e por tudo o que acima se disse vejo com muita apreensão o futuro próximo, com a crise económica em cima da cabeça de todos nós. Veja-se a incapacidade de resposta da UE, 5 meses depois da crise pandémica ter disparado na Europa. Suspendeu o Pacto de Estabilidade, pouco mais que isso! E veremos o que se irá passar na cimeira de Julho.

Chegados aqui relembro sobre o mesmo tema o que escreveu Tommaso Di Francesco, um dos editores do jornal italiano Il Manifesto:

“O que falta é uma força unitária, representativa e revolucionária – a revolução é uma forma elevada de política – que se comprometa imediatamente a partir de baixo a reconstruir uma identidade e unidade de classe do antigo e novo proletariado, dos precários, dos desempregados, do trabalho de cuidados generalizados que a pandemia fez emergir; que reivindique a atribuição social exclusiva da montanha do financiamento proposto. Eles arriscam, na melhor das hipóteses, cobrir abismos, e na pior das hipóteses – como já anunciado pelas reivindicações da Confindustria, Fca, Benetton, dos bancos e do poder financeiro – restaurar a ordem das coisas pré-existentes.

Haverá um longo caminho a percorrer.”

Um longo caminho a percorrer, aqui na Europa, lá longe, nos Estados Unidos, e também no resto do mundo, é, pois, o que nos espera. Se dúvidas ainda há, veja-se o que se passa nos Estados Unidos, onde as rédeas do poder se disputam entre um louco, Donald Trump, e alguém com claros sinais de senilidade, Joe Biden, o que nos mostra um sistema bloqueado politicamente e incapaz de responder às necessidades prementes de um presente terrível que ali se desenrola. É aqui certo que ao longe se veem figuras jovens capazes de assumir o estandarte da verdadeira social-democracia, mas estamos a falar ao longe, para lá do médio prazo, para lá de duas campanhas presidenciais, para mais de oito anos. Ora, a extrema urgência da maioria do povo americano coloca-se para já no presente e deste não se vê aí nenhuma escapatória, a menos que à última hora, o establishment político americano, meio perdido, saque um coelho da cartola e este seja o atual Presidente da Câmara de Nova Iorque. A verificar-se esta hipótese, esperemo-lo, teremos uma meia solução, nada mais que isto. A ver vamos.

O que vos proponho agora é a leitura de cinco textos onde se analisam alguns destes mesmos mecanismos. Os textos em análise são:

  1. Martin Wolf, Financial Times, Covid-19 vai atingir duramente os países em desenvolvimento

  2. John Mauldin, Para onde vamos a partir daqui

  3. Victor Hill, 2020 – O ano em que a América irá destituir Donald Trump

  4. James Galbraith, Sim, alguém é culpado

  5. Martin Wolf, Financial Times, Como Covid-19 irá mudar o mundo.

[1] Posição semelhante parece ser a do encenador francês face à ocupação selvagem do palco onde se ia representar a peça de Esquilo, As suplicantes, no âmbito de um festival de teatro antigo em Paris, LES DIONYSIES. Em 27 de Março de 2019 e  relativamente à ocupação do palco impedindo a representação desta peça de Esquilo  na Sorbonne com o argumento de que era  racista, escrevia a revista Marianne:

Os ativistas que afirmam ser antirracistas impediram uma representação da peça de Esquilo, As Suplicantes, na Sorbonne, na segunda-feira 25 de março de 2019, equiparando as máscaras escuras usadas pelos atores à prática racista dita “blackface”. Exigem o fim das atuações, um pedido de desculpas da Universidade e um colóquio de reeducação.

A peça, dirigida por Philippe Brunet como parte do festival de teatro “Les Dionysies”, apresenta o confronto entre os gregos de pele branca de Argos e os Danaïdes de pele escura das margens do Nilo. Para retratar esta oposição, o famoso helenista e o seu grupo de teatro, Demodocos, usaram primeiro maquilhagem escura e depois, uma vez esta terminada, máscaras de cor de cobre correspondentes aos códigos do teatro antigo. “Não há malevolência, mas, pelo contrário, um desejo de realçar as influências africanas. Não há malevolência”, argumenta o realizador à revista Marianne, “Não há malevolência, mas, pelo contrário, há um desejo de fazer emergir as influências africanas. Querer apagar esta herança  é um contrassenso, é a deformação histórica”. “É uma prática de terror”, acrescenta ele

Tudo isto não deixa de nos fazer lembrar o clima de terror criado  pelas brigadas revolucionárias  de Mao-Tsé-Tung,  a sua Revolução Cultural e a sua destruição de símbolos culturais assim como os seus campos de reeducação. Veja-se, mas criticamente, a descrição encantatória escrita  na época pela maoista Maria Macchiocci, apologista daquele movimento,  no seu livro De la Chine, editado pela Seuil.

[2] Curiosamente, e que podemos tomar como contraponto a este jovem turco, diz-nos Gavyn Davies,  antigo economista-chefe da Goldman Sachs  e atualmente gestor de um fundo de cobertura, um homem que não pode, portanto,  ser tomado como de acusado de esquerda, no Financial Times, relativamente às respostas à crise atual:

“ainda mais notável tem sido a unanimidade entre os macroeconomistas de que um estímulo orçamental e monetário massivo  é a resposta apropriada a uma emergência económica “em tempo de guerra”. Quase ninguém contesta seriamente que a política deve  fazer “tudo o que for preciso” para superar o choque provocado pelo vírus. Este acordo reflete uma conclusão chave da teoria das finanças públicas: que uma dívida pública mais elevada é o amortecedor correto para o sector privado face a crises económicas imprevisíveis e temporárias. Evita as distorções que se seguiriam às grandes variações nas taxas marginais de imposto que de outra forma seriam necessárias para financiar um aumento da despesa pública durante um curto período.

O autor acrescenta ainda:

 “A maioria dos novos economistas keynesianos, incluindo Paul Krugman e Lawrence Summers, acreditam que os elevados níveis de endividamento não serão, em si mesmos, um problema para as economias avançadas. Sugerem mesmo que seriam desejáveis novos aumentos da dívida, pois isso ajudaria a inverter a tendência para a estagnação secular na Europa e nos EUA”.. Veja-se Financial Times, Will public debt be a problem when the Covid-19 crisis is over?, 26 de junho de 2020

[3] Éric Sautedé, Covid-19: na China e na Índia, os novos amaldiçoados da terra. Texto a publicar em A Viagem dos Argonautas

[4] Deste ponto de vista parece-me um insulto a toda a gente  do nosso sistema de saúde que com poucos recursos esteve empenhada na resposta à crise pandémica ser agora acusada de incompetente por gente como Rui Rio e Fernando Medina. E isto quando se é obrigado a navegar à vista. O oportunismo político  destes senhores, em primeiro lugar, é o que isto significa.

 

(Texto revisto por Francisco Tavares e João Machado)

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