DA DESTRUIÇÃO DE ESTÁTUAS AOS FOCOS DE INFECÇÃO DA COVID – UMA REFLEXÃO SOBRE AS TRAJECTÓRIAS DA NOSSA JUVENTUDE – COVID-19 VAI ATINGIR DURAMENTE OS PAÍSES EM DESENVOLVIMENTO – por MARTIN WOLF

 

Covid 19 will hit developing countries hard, por Martin Wolf

Finantial Times, 9 de Junho de 2020

Selecção e tradução de Júlio Marques Mota 

 

A permanência das perdas causadas pela pandemia depende do tamanho das cicatrizes

© James Ferguson

 

“A Covid-19 é o choque mais adverso em tempo de paz para a economia global em todo um século”.

Além disso, esta recessão “é a primeira desde 1870 a ser desencadeada unicamente por uma pandemia”.

Ambas as observações provêm do excelente texto do Banco Mundial As  Perspetivas Económicas Globais do Banco Mundial.

Elas dão-nos uma panorâmica da escala dos danos. Nunca poderá ter havido uma maior necessidade de uma resposta ambiciosa e cooperativa como agora. Infelizmente, não há memória de que estas qualidades estejam tão ausentes como agora.

Uma das conclusões salientes do relatório é a escala de incerteza sobre o que se avizinha. Sabemos que nos encontramos no meio de uma extraordinária contração económica global. Não sabemos, porém,  qual será a sua profundidade e persistência, nem quanto tempo durarão os seus efeitos adversos.

Afinal de contas, estamos numa fase inicial da gestão da doença. Isto é particularmente verdade para os países emergentes e em desenvolvimento, onde a Covid-19 ainda está a descolar. As medidas para a conter são especialmente difíceis de implementar aí, dada a dependência de tanta gente  do trabalho no sector informal e a limitada capacidade sanitária e orçamental  dos governos.

A sua única vantagem é a relativa juventude das suas populações.

No entanto, a gestão da doença é apenas uma parte do desafio que os países emergentes e em desenvolvimento enfrentam atualmente. Muitos deles são altamente vulneráveis aos choques económicos globais. Este choque é de proporções devastadoras. Estes países têm sido fustigados, em graus variáveis, por uma quebra global na produção, fortes quedas nos preços das mercadorias, pelos  movimentos de capitais,  pelo  risco nos mercados financeiros, por um enorme declínio nas remessas e nas  receitas do turismo e um grande declínio no comércio mundial.

É provável que muitos países sejam forçados a entrar em incumprimento. Além disso, o impacto nas suas economias é pouco provável que seja breve. É provável que muitas economias e milhões de pessoas fiquem com cicatrizes. Isto pode ser o início de muitos anos perdidos, ou pior ainda, de muitíssimos anos.

Muito depende das consequências económicas.

O banco indica que a gama de resultados possíveis para o crescimento económico global este ano (a taxas de câmbio de mercado) se situa entre menos 3,7 e menos 7,8 por cento. Para economias de mercado emergentes e em desenvolvimento, cai entre menos 0,5 e menos 5 por cento.

O banco espera um regresso ao crescimento em 2021, entre 1,3 e 5,6% no mundo e entre 2,7% e 6,4% nas economias emergentes e em desenvolvimento. Isto significa que é bastante provável que a produção não recupere para os níveis de 2019 antes de 2022 nos países emergentes e em desenvolvimento. Não voltará aos níveis implícitos pela continuação do crescimento pré-pandémico até muito depois disso, se é que alguma vez o fará.

A permanência das perdas depende da natureza das cicatrizes. Como o relatório observa, “a recessão severa tem sido associada a perdas altamente persistentes na produção”. Os baixos níveis de utilização de capacidade dissuadem o investimento e deixam um legado de capacidade obsoleta. As expectativas de fraco crescimento futuro desencorajam o investimento e assim tornam-se autorrealizadoras.

Os longos períodos de desemprego causam perda de competências e podem impedir permanentemente os trabalhadores de procurar emprego. Inúmeras empresas vão desaparecer para sempre.

 

Além disso, nos países emergentes e em desenvolvimento, a crise ameaça um grave subfinanciamento de importantes programas de saúde e  outros programas públicos de bem-estar. A perda de sustento para muitos pode causar graves problemas de saúde  a longo prazo e trazer outras consequências malignas para os trabalhadores e as  suas famílias.

Muitos podem morrer de enfermidades não relacionadas com a pandemia. A educação de muitas crianças pode ser permanentemente prejudicada.

Outras ameaças importantes a longo prazo incluem reações políticas de curto prazo. Pode haver, como na década de 1930, uma mudança permanente da economia de mercado e do comércio internacional. As erradas e prejudiciais  políticas de  substituição de importações seguidas por muitos países em desenvolvimento após a segunda guerra mundial tiveram as suas raízes nas calamidades daquela época.

Hoje em dia, é quase uma sabedoria convencional condenar a globalização e a integração internacional das cadeias de abastecimento. Mas, como sublinha o relatório, ambos se revelaram poderosos motores de desenvolvimento económico. Recordemos que assistimos a um extraordinário declínio na proporção de pessoas em extrema pobreza, de 43% em 1980 para 10% em 2015.

É crucial evitar tanto danos duradouros como erros permanentes. Mas também é assim necessário que hoje se preste uma ajuda adequada. Um recente apelo de alto nível ao Grupo dos 20 países considerava  que a crise pode mergulhar 420 milhões de pessoas na pobreza extrema.

 

Além disso, acrescenta o relatório, 80 por cento das crianças têm estado fora da escola. É uma questão de alta urgência moral e prática, dada a interdependência entre os países, conter tais resultados, com todas as consequências terríveis que estes resultados arrastam consigo. .

É necessária mais ajuda.

O FMI tem argumentado que os países emergentes e em desenvolvimento precisam de 2,5 milhões de milhões de  dólares, muito mais do que agora está disponível como ajuda. O alívio suplementar da  dívida é uma necessidade para os países mais pobres e também para os países emergentes com dívidas pesadas. É crucial, também, ajudar os países emergentes e em desenvolvimento a enfrentarem  os desafios de saúde pública que se lhes deparam.

Para além disto, há uma oportunidade de acelerar a mudança do mundo para um padrão de atividade económica que se afasta de um padrão de carbono intensivo. Escusado será dizer que os resultados dependem também das escolhas políticas feitas pelos próprios líderes dos países emergentes e em desenvolvimento.

Quando as gerações futuras olharem para trás para esta crise, irão encará-la como um ponto de viragem decisivo e, em caso afirmativo, em que direção? Concluirão eles que compreendemos que uma pandemia é uma crise partilhada que necessita de uma resposta eficaz e cooperativa?

Ou irão concluir, em vez disso, que permitimos que a nossa capacidade de cooperação e o frágil progresso do desenvolvimento económico se desfizessem  em estilhaços?

Não sabemos a sua resposta.

Isso depende do que decidirmos agora.

Sabemos o que devemos fazer: agir, juntos.

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Leia este artigo no original clicando em:

https://www.ft.com/content/31eb2686-a982-11ea-a766-7c300513fe47

Pode também lê- lo clicando em:

http://gonzaloraffoinfonews.blogspot.com/2020/06/covid-19-will-hit-developing-countries.html

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