CARTA DE BRAGA -“de rosas e futuro” por António Oliveira

Dei por mim a ler entrevistas feitas a gente que escreve prosa e ou poesia, e fiquei espantado com as peculiaridades de cada um, pela quantidade de sítios e sonhos que guardavam, pelos modelos e padrões que os norteavam.

Mas, em todos havia um lugar comum, desde a epopeia de Gilgamesh, o rei que, há cinco mil anos, se atreve a perguntar aos deuses ‘Porque não sou imortal’, até Victor Hugo o enorme escritor francês, ‘Julgar-se-ia bem mais correctamente um homem por aquilo que sonha, do que por aquilo que pensa’.

De qualquer maneira, entre esta duas sentenças, mais as muitas outras e notáveis que se lhes seguiram, está todo o percurso do homem, este que só chegou até ao século XXI pela enorme capacidade de sonhar e de fabular, por só assim poder deixar aos vindouros quem e donde somos, em que acreditamos e, acima de tudo, tudo o que quisemos para nós e queremos para eles.

São tudo coisas que não cabem nuns ridículos cento e quarenta caracteres, porque pressupõem um ‘antes’, um ‘durante’ e um ‘depois’, aquela ‘risível’ sequência que estes tempos tanto detestam, por ser necessário fazer um apelo à história, à cultura e à memória, agora só e principalmente necessárias para lembrar os palpites dos ‘influencers’ e ‘lifestyles’.

E, a este propósito, li ainda que George Bernard Shaw, o escritor que recusou o prémio Nobel da Literatura em 1925, afirmou um dia ‘Qual o homem inteligente, se lhe dessem a escolher entre viver com rosas e viver sem couves, não correria para assegurar as couves?

E algures, no meio disto tudo, ainda é bom recordar como se salientaram e ‘vivemos’ o Rei Artur e Picasso, Beethoven e o Graal, Ulisses e Maquiavel, Pessoa e Verdi, Gaudi e a Alice das Maravilhas, tão desordenados e tantos como nos foram ‘sentidos’, mais os muitos outros que nem arranjaria espaço para eles caberem.

E de uma poeta, li a palavra mais bonita que ela aprendeu, ‘nuannarpog’ (nem sei como soará!) mas que, no norte da Gronelândia onde viveu, significa ‘sentir-se feliz só por estar vivo’, por as palavras lá serem polissintéticas, ou formadas por outras palavras a atribuir-lhes sentidos diferentes, dependendo de quem as diz e de como são ditas.

E li, dum cronista russo, que a vida é como uma ‘matrioshka’, por nunca se deixar nada atrás, levando sempre tudo cá dentro e escrever não é mais do que a maneira de nos sujeitarmos a experiências, porque ‘nós os humanos também necessitarmos de estórias, do mesmo modo que um animal necessita e procura alimento’.

Mas Brett Easton Ellis, o autor de ‘Psicopata Americano’ também contrapõe ‘os jovens não lêem, são muito inteligentes e encontram a gratificação estética de forma quase instantânea, clic, clic e… meu Deus! Eu poupava durante semanas, para comprar um disco e hoje têm toda a música algum dia criada, a um clic. Mas irão gozá-la da mesma maneira?

E por isso creio que o livro continua a ser a melhor das companhias, às vezes até a mais incómoda e a mais pesada das possíveis alternativas, mas a melhor para nos abrir outros e novos caminhos, mundos, gentes e soluções de formação e reestruturação espiritual e cultural.

Aliás, para Umberto Eco, também ‘não há melhor suporte para a leitura do que um livro. As alterações para o objecto/livro, não mudaram a sua função, ou a sintaxe, já com quinhentos anos. O livro é como a colher, o martelo, a roda, a tesoura. Uma vez inventado não conseguiram fazer nada melhor!

Na verdade e na realidade, ‘só a palavra’, apreendida verdadeiramente no livro, para ser mostrada e ensinada depois, como a da poeta na Gronelândia, ‘nos põe em contacto com as coisas mudas’, afirma Giorgio Agamben.

E adianta ‘a natureza e os animais são desde logo prisioneiros de uma língua, falam e respondem a signos, mesmo quando se calam; só o homem consegue interromper, na palavra, a língua infinita da natureza e colocar-se por um instante, diante das coisas mudas. A ideia de rosa, só existe para o homem’.

E, por falar disso e para terminar esta Carta, socorro-me dos primeiros versos, lidos e apreendidos em ‘Norton Queimada’, um poema de T. S. Eliot

 

O tempo presente e o tempo passado

Estão talvez presentes, no tempo futuro

E o tempo futuro contido no passado

O pensamento de um homem só e alinhavado, se calhar, frente à linguagem infinda da natureza!

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

Leave a Reply

%d bloggers like this: