Cimeira da UE: avanço ou recuo na reconstrução da Europa? Texto 5 – A grande interrupção continua. Por Martin Wolf

Europa avanço ou recuo 6

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

 

Texto 5 – A grande interrupção continua

 

Martin Wolf mai2020 Por Martin Wolf

Publicado por FTimes em 30/06/2020 (ver aqui)

Republicado por Gonzallo Rafo (ver aqui)

 

Os líderes devem agora perguntar-se como é que se pode estabelecer a mais forte possível retoma da economia.

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© James Ferguson

O texto World Economic Outlook Update do FMI editado em junho não é um documento alegre. No entanto, contém um ponto otimista: o segundo trimestre de 2020 deve ser o nadir da crise económica Covid-19.

Se assim for, o desafio é gerar a melhor retoma possível da economia.

A redução das previsões do FMI desde abril é grande, com uma previsão de crescimento global de -4,9% este ano, contra -3% em abril.

O crescimento previsto para o próximo ano é de 5,4 por cento.

Em consequência, espera-se que a produção global exceda ligeiramente os níveis de 2019 em 2021.

No entanto, no quarto trimestre de 2021, o produto interno bruto dos países de alto rendimento ainda estaria abaixo dos níveis do primeiro trimestre de 2019.

A produção também estaria cerca de 5% abaixo dos níveis implícitos pelas tendências de crescimento pré-Covid-19.

Temos vivido o que o Banco de Pagamentos Internacionais, no seu último relatório anual, chama de “paragem súbita global”.

A Organização Internacional do Trabalho afirma que, globalmente, o declínio das horas de trabalho no segundo trimestre será provavelmente equivalente à perda de mais de 300 milhões de empregos a tempo inteiro.

O FMI salienta corretamente estas incertezas: a duração da pandemia e os confinamentos nacionais ou locais adicionais; a extensão do distanciamento social voluntário; a severidade dos novos regulamentos de segurança; a capacidade dos trabalhadores deslocados para garantir emprego; o impacto a longo prazo do encerramento de empresas e do desemprego; a extensão das reconfigurações das cadeias de abastecimento; os prováveis danos à intermediação financeira; e a extensão de novos deslocamentos dos mercados financeiros.

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A resposta política tem sido, corretamente, numa escala sem precedentes para tempo de paz.

O FMI prevê que a dívida pública aumentará 19 pontos percentuais, em relação ao PIB, este ano. As políticas do Banco Central não têm sido menos espantosas.

O apoio das autoridades orçamentais e monetárias é também de natureza revolucionária.

Os governos têm surgido como seguradoras de último recurso. Os bancos centrais têm ido muito além da responsabilidade pela banca.

Onde necessário, eles assumiram a responsabilidade por todo o sistema financeiro. De facto, com as suas intervenções, incluindo acordos de swap com outros bancos centrais, a Reserva Federal dos EUA assumiu a responsabilidade por grande parte do sistema financeiro global. Tempos desesperados ditam medidas desesperadas.

Sob a gestão de Agustín Carstens, ex-chefe do banco central mexicano, o BIS endossa corretamente as ações dos bancos centrais. O seu relatório explica que os bancos centrais têm dois objetivos: “evitar danos duradouros à economia, assegurando que o sistema financeiro continue a funcionar” e “restaurar a confiança e apoiar a despesa privada”.

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Isto não é o fim das intervenções massivas. Pode até não ser o fim do seu início. Enormes incertezas estão pela frente. Mas, como Christine Lagarde, presidente do Banco Central Europeu, observou recentemente, citando Abraham Lincoln, “A melhor maneira de prever o seu futuro é criá-lo”.

Então como devemos criar o futuro que queremos, um futuro em que haja o menor dano possível e a mais forte recuperação possível para um futuro economicamente sustentável? Essa é a tarefa a que agora os líderes se devem dedicar.

No futuro imediato, o importante desafio continua a ser minimizar os danos à saúde e à economia causados pelo Covid-19.

Para conseguir isso, uma forte cooperação continua a ser essencial.

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Isto será particularmente importante para os países emergentes e em desenvolvimento, que ainda precisam de ajuda substancial. O FMI já acordou programas para ajudar 72 países em dois meses.

No entanto, apesar da melhoria dos mercados financeiros, o alívio da dívida e o apoio oficial adicional serão necessários nos próximos meses e, quase certamente até durante os próximos anos.

Com o fim dos confinamentos e a recuperação das economias, será também essencial mudar as políticas para promover a recuperação e, mais importante ainda, para evitar o erro do período após a crise financeira de 2008, passando demasiado cedo do apoio à consolidação orçamental para a política monetária restritiva.

Será necessária uma política orçamental e monetária agressiva e continuada para recolocar ao serviço os recursos inutilizados e reorientar as economias para novas atividades

A nova economia em que emergimos será – e deverá ser – diferente da antiga.

Terá de tirar partido da revolução tecnológica atual em direção ao virtual e afastar-se da interacção física constante. Precisará também de proporcionar um futuro melhor às pessoas que foram mais duramente atingidas com a crise.

Terá de acelerar a mudança para uma economia mais sustentável.

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Ao sustentar a procura, os decisores políticos podem tornar tais mudanças muito mais fáceis. Sim, há alguns riscos decorrentes de o fazer.

Mas estes riscos são muito menores do que o resultado político e económico de outra ronda de austeridade suportada pelos beneficiários da despesa pública.

Desta vez, deve ser diferente.

Acima de tudo, volta-se a ter governo assim como um desejo de competência no exercício das suas funções. Os políticos anti-governamentais conseguiram transformar os seus próprios fracassos num argumento: quem confiaria num governo dirigido desta forma? Mas aqueles com olhos podem ver que não tem de ser assim.

Os contrastes entre a Alemanha de Angela Merkel e os EUA de Donald Trump ou o Reino Unido de Boris Johnson são demasiado gritantes. Talvez esta catástrofe traga um benefício: descobriremos não só que o governo a sério está de volta, mas também que a exigência de um governo sensato dirigido por pessoas competentes está de volta.

Este ganho nunca faria com que uma tal crise que estamos a passar valesse a pena. Mas nunca se deve desperdiçar uma crise.

Os seres humanos podem aprender com experiências dolorosas. Façamo-lo.

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O autor: Martin Wolf (1946-) é um jornalista britânico que se concentra na economia. É o editor associado e comentarista-chefe de economia do Financial Times. Bibliografia: The Shifts and the Shocks: What We’ve Learned—and Have Still to Learn—from the Financial Crisis (Penguin Press 2014), Fixing Global Finance (The Johns Hopkins University Press 2008), Why Globalization Works (Yale University Press 2004), The Resistible Appeal of Fortress Europe (AEI Press 1994).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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