Cimeira da UE: avanço ou recuo na reconstrução da Europa? Texto 14 – Os quatro frugais, ventríloquos de uma União Europeia em descalabro. Por Valentin Chevallier

Europa avanço ou recuo 6

Seleção e tradução de Júlio Marques Mota

 

Texto 14 – Os quatro frugais, ventríloquos de uma União Europeia em descalabro

Valentin Chevallier Por Valentin Chevallier

Publicado por  Le Vent se Lèveem 18 de julho de 2020 (“Les quatre frugaux, ventriloques d’une Union Européenne dans la débâcle”, ver aqui)

Cimeira UE 14 Le vent se leveOS QUATRO VENTRÍLOQUOS FRUGAIS DE UMA UNIÃO EUROPEIA 1

 

Enquanto o Conselho Europeu está a decorrer, soldados monges e outros condottieris eurobeatos estão empenhados em pregações irrealistas em que a União Europeia poderia finalmente estar à altura do desafio. Destes vãos vaticínios há uma realidade que permanece inviolável, a saber, as múltiplas divisões entre os Estados-Membros. Os culpados de um possível fracasso no Conselho já foram encontrados: os chamados “quatro frugais”. Porém, a Áustria, a Dinamarca, a Holanda e a Suécia só têm defendido aquilo que é intrinsecamente a União Europeia desde há três décadas: a liberdade total de circulação de capitais, bens, serviços e pessoas num mercado livre de todas as restrições estatais. A ideia de que devemos mostrar solidariedade no jogo europeu de soma zero é-lhes estranha. Recriminá-los por não respeitarem a letra dos mandamentos da União Europeia, sem pôr em causa a concorrência institucionalizada pelos Tratados europeus, que torna inevitáveis os passageiros clandestinos, é a última maldade das elites neoliberais da Europa.

 

Os dramaturgos europeus encontraram um novo número para a sua peça. Começou em fevereiro de 2020, quando o presidente do Conselho Europeu, Charles Michel, reuniu os chefes de Estado para negociar em Bruxelas o próximo orçamento plurianual europeu, de 2021 a 2027. A propagação do Covid-19 também não alarmou tão pouco os cenáculos nas capitais europeias. A partida efetiva do Reino Unido, porém, perturbou o que poderia ter sido uma negociação habitual, ou seja, a manutenção do rácio concedido à Política Agrícola Comum (PAC) ou o aumento do orçamento para a Política Externa e de Segurança Comum (PESC). Como conseguir manter um orçamento equivalente com a partida de um dos seus maiores contribuintes?

[Para eles], uma maior integração europeia não pode conduzir a nada se não for levada a cabo pelos Estados uma política de ajustamento estrutural das finanças públicas – entenda-se, fala-se dos Estados do Sul.

 

Foi sem contar com a vontade de vários Estados-Membros, incluindo a França, tirar partido da situação para aumentar o orçamento europeu. Verhoging van de Europese begroting? (“um aumento do orçamento europeu?”) preocuparam-se os holandeses. Os Países Baixos, órfãos do Reino Unido, começaram assim a desempenhar o seu novo papel como adversários de qualquer reforço da integração europeia. O primeiro-ministro liberal holandês, o inamovível Mark Rutte, veio a Bruxelas com uma biografia de Frederic Chopin debaixo do seu braço. A ideia era clara: os Países Baixos estavam prontos para negociar, mas com um orçamento constante, ou mesmo com um orçamento ligeiramente reduzido, de 1.100 mil milhões, ou 1% do orçamento total da UE. O pensamento calvinista que tem influenciado as elites de Amesterdão desde o século XVI recorda um ponto essencial: um cêntimo é um cêntimo. Se um Estado-Membro deixa a União Europeia, então faz sentido contribuir menos para o orçamento europeu.

[Para uma análise da idiossincrasia holandesa nesta matéria e do papel dos Países Baixos na União Europeia, leia-se em LVSL, do mesmo autor: “Os Países Baixos, novos campeões do egoísmo neoliberal na Europa? »]

Charles Michel, como pobre negociador, pensou que poderia abalar o homem apelidado de Sr. Teflon. Afinal, o orçamento europeu é votado por unanimidade, e com o apoio dos holandeses, as negociações poderiam revelar-se frutíferas, uma vez que a Alemanha aceitou a ideia de que um aumento sensível do orçamento europeu poderia servir os seus próprios interesses. O Presidente do Conselho Europeu convidou assim o seu homólogo holandês para uma troca bilateral a negociar os principais pontos de tensão. Mark Rutte estava de facto lá … acompanhado por três dos seus homólogos, os primeiros-ministros da Áustria, Dinamarca e Suécia, Sebastian Kurz, Mette Frederiksen e Stefan Löfven, respetivamente. Os quatro frugais estavam a apresentar a sua aliança.

A LIGA HANSEÁTICA DOS AVARENTOS

A comédia das cimeiras europeias encontrou os seus novos histriónicos. Uma evolução subtil da nova Liga Hanseática, popularizada pelo Financial Times, os quatro frugais têm a particular delicadeza de ser, como Harpagon em l’ Avare de Molière, avarentos. Não só se recusam a desempenhar um papel ativo no futuro orçamental da União Europeia, como a crise do coronavírus revelará a sua alergia a qualquer solidariedade financeira com os Estados Membros gravemente afetados pela pandemia, em primeiro lugar e acima de tudo para com a Itália. De facto, um mês após o seu surto mediático, os quatro frugais encontraram-se numa posição comum quando a ideia de emitir coronavírus, de mutualizar a dívida estatal ou de conceder subsídios foi proposta por uma dúzia de estados europeus, a começar pela França, Itália e Espanha. A atitude do Ministro das Finanças holandês, o conservador Wopke Hoekstra, que sugeriu a ideia de um inquérito europeu para descobrir por que razão certos Estados-Membros não conseguiam gerir sozinhos as consequências económicas e sociais do confinamento, é suficiente para captar o espírito de grandeza dos frugais quanto à solidariedade europeia.

Alguns chamar-lhe-iam dogmatismo. Mas os quatro frugais revelam ser sobretudo descendentes eminentes de Pirro, cujo cepticismo em relação aos seus homólogos vai para além da estrita oposição entre o Norte e o Sul da Europa. Afinal de contas, a Irlanda, a Bélgica e os Estados Bálticos acrescentaram as suas assinaturas à proposta de emissão de coronabunds. Por detrás desta aliança conjuntural escondem-se, em última análise, três órfãos do Reino Unido e um estado isolado, órfão da relação especial com a Alemanha. Não é segredo para ninguém que a Áustria tem decalcado, desde há décadas, e especialmente desde a sua adesão à União Europeia em 1995, a sua posição pela da Alemanha na Europa. Para a diplomacia austríaca, esta posição corresponde a uma neutralidade que o país preza. A proximidade cultural, política, senão mesmo espiritual, entre Viena e Berlim já não necessita ser estabelecida. Apenas os movimentos extremistas austríacos, quando o extremista Jörg Haider governou pela primeira vez num país europeu depois de 1945 em coligação com a direita em 1999, foram capazes de crispar as relações entre os dois países.

As eleições parlamentares de 2017 levaram ao poder o ambicioso e jovem ministro dos Negócios Estrangeiros Sebastian Kurz, que mais uma vez quebrou a antiga tradição de co-gestão entre conservadores e social-democratas austríacos e se aliou ao partido de extrema-direita de Heinz-Christian Strache, o FPÖ. A coligação entre as duas partes não foi do agrado das hierarquias da CDU ou mesmo, o que é mais surpreendente, da CSU bávara. As novas eleições parlamentares de 2019, que obrigaram Kurz a aliar-se aos Verdes, não alteraram fundamentalmente a natureza da relação entre o primeiro-ministro austríaco e a chanceler alemã. Merkel censura Kurz por se ter aliado a um dos partidos mais extremistas da Europa. Enquanto o primeiro censura a Chanceler alemã pelas suas posições demasiado heterodoxas em matéria económica (!) e demasiado afastadas dos valores conservadores. O episódio da abertura das fronteiras aos migrantes na Alemanha marcou profundamente uma Áustria que é muito reticente em relação à imigração em massa. O jovem líder austríaco emaciado encontrou assim na figura de Mark Rutte um aliado ideal para bloquear o caminho para a chamada generosidade orçamental que a União Europeia poderia mostrar.

Enquanto a aliança com a Áustria continuará muito provavelmente a ser circunstanciada às negociações sobre o “Fundo de Recuperação” lideradas pela Presidente da Comissão von der Leyen e pelo Presidente do Conselho Michel, os Países Baixos podem contar com a assertividade dos líderes social-democratas dinamarqueses e suecos. Tal como Haia, Copenhaga e Estocolmo costumavam manter um baixo perfil nas negociações europeias, contentavam-se com a intransigência dos líderes britânicos para transmitir as suas exigências. Sozinhos, embora contribuintes líquidos para o orçamento europeu, os dinamarqueses e os suecos pesam muito pouco no palco europeu e não são sequer membros da zona euro.

A Dinamarca, tal como os Países Baixos, sempre teve dificuldade em aceitar que as escolhas decisivas para a União Europeia se limitassem à ação do casal – em França – ou do motor – na Alemanha – franco-alemão. O pequeno reino escandinavo prosseguiu, portanto, uma política externa atlantista – alguns falam de superatlantismo – em estreita cooperação com os Estados Unidos e o Reino Unido, capaz de contrabalançar o eixo Paris-Berlim. É neste sentido que podemos ler a decisão do antigo primeiro-ministro dinamarquês Anders Fogh Rasmussen de entrar na guerra contra o Iraque em 2003, seguindo o exemplo do Reino Unido e da Polónia. Naturalmente, Brexit foi difícil de viver em Copenhaga e desde então o país tem procurado confiar em Estados que são capazes de partilhar as suas orientações.

Esta inclinação diplomática é encorajada pelo relativo afastamento dos Estados Unidos no palco europeu desde que o ex-presidente americano Barack Obama operou o chamado “pivot” em direção à Ásia. Ao contrário da crença popular, Donald Trump continua esta política, causando embaraço aos países pró-Washington dentro da União Europeia, tais como a Polónia mas também a Dinamarca. Incapaz de contrabalançar a sua retirada dos assuntos europeus com um atlantismo sustentado, a Dinamarca viu nos Países Baixos, também um país atlantista e rigoroso nas finanças públicas, um novo Estado líder capaz de levar a voz do Norte da Europa. Não é estranho para ninguém que a Dinamarca se tenha sempre mostrado cautelosa quando se trata da questão da integração orçamental e económica da União Europeia. A visita oficial de Emmanuel Macron à Dinamarca em agosto de 2018 para se encontrar com o seu homólogo Lars Løkke Rasmussen não dissipou essa clivagem.

Para a Suécia, que, tal como a Áustria, aderiu à União Europeia em 1995, a posição oficial nos assuntos internos limitou-se à integração sem entrada no euro e ao alinhamento de posições com o Reino Unido. Mais do que na Dinamarca, o Brexit tem sido um cataclismo para o reino escandinavo, embora esconda isso. O país tem trabalhado continuamente de mãos dadas com Londres para obter descontos na elaboração do orçamento europeu, e Estocolmo sempre se opôs fortemente a uma maior integração. Para os suecos, e a atual Ministra das Finanças Magdalena Andersson confirma isto, mais integração não pode ser alcançada se não houver uma política de ajustamento estrutural das finanças públicas praticada pelos Estados – leia-se, os Estados do Sul. Em 2016, a Ministra disse: “Para uma economia pequena e aberta como a da Suécia, pertencer ao seu mercado [o maior mercado interno do mundo] é uma grande vantagem. Para que o mercado se mantenha eficiente e seja reforçado, as reformas devem ser levadas a cabo no interesse dos cidadãos”. Embora a Suécia não tenha qualquer desejo de deixar a União Europeia, o status quo é preferível à integração. De facto, pareceu natural que o governo social-democrata de Löfven se aliasse aos eurorrealistas holandeses.

Giuseppe Conte acrescentou, não sem azedume, que os quatro frugais tinham todo o interesse em assinar o plano, correndo o risco de que a destruição das economias do Sul tivesse um efeito de arrastamento em toda a zona euro e, mais amplamente, no seio da União Europeia.

Na altura da crise grega em 2014, a Dinamarca, mas sobretudo a Suécia, tinha podido contar com uma aliança já cíclica entre o britânico David Cameron, o holandês Mark Rutte, a alemã Angela Merkel e o sueco Fredrik Reinfeldt. Lembremo-nos dos quatro líderes europeus juntos num pequeno barco na residência de Verão do primeiro-ministro sueco, em oposição frontal aos estados gastadores do sul da Europa. A recente aproximação da Alemanha à França voltou a sinalizar mais uma vez os dois Estados escandinavos que já não suportam ver as duas principais potências económicas a encontrar soluções sem consultar os outros líderes europeus. A aliança com os Países Baixos, apesar de liderada pelo neo-liberal Rutte, não os perturbou demasiado. Pelo contrário, as lógicas económicas ultrapassam facilmente as reivindicações partidárias na Dinamarca e na Suécia. O apego europeu continua relativo nos países escandinavos e é inconcebível, qualquer que seja a cor política de cada um deles, que a sobriedade económica reivindicada no Norte seja utilizada para pagar as aventuras do Sul.

O Primeiro-Ministro sueco Stefan Löfven, que vem da mesma família política social-democrata que o seu homólogo espanhol Pedro Sanchez, não hesitou, não sem alguma relutância, em ameaçar com um veto sueco nas negociações se se verificasse que a Espanha não aceitaria empréstimos com contrapartidas numa reunião entre os dois chefes de Estado esta semana na residência de Verão do Primeiro-Ministro sueco. Pela sua parte, Mette Frederiksen, a primeira-ministra dinamarquesa, afirmou repetidamente que os principais beneficiários de qualquer política a nível europeu devem ser os dinamarqueses e o Estado social dinamarquês.

 

UMA ALIANÇA AD HOC PRONTA PARA ABORTAR

Se os quatro frugais estão a sobreaquecer os gabinetes das chancelarias europeias, o seu grau de influência deve ser colocado na sua devida perspectiva. Mark Rutte e os seus manobristas são pura construção mediática e a sua aliança serve apenas interesses de muito curto prazo. É uma peculiaridade aliarem-se avarentos entre si, uma vez que esta aliança irá beneficiar ao mais frugal (sic). Ninguém é suficientemente idiota para acreditar que Rutte, Frederiksen, Löfven e Kurz partilham desmesuradamente objetivos comuns. A única e verdadeira convergência reside na vontade dos três primeiros de manter, no próximo orçamento europeu, os descontos que obtiveram da mesma forma que o Reino Unido para o quadro financeiro plurianual. Além disso, a França está disposta a abandonar a exigência de acabar com os descontos, a fim de convencer os seus homólogos frugais a aceitar o plano de apoio de 750 mil milhões de euros proposto pela Comissão Europeia na sequência da proposta conjunta de Emmanuel Macron e Angela Merkel.

[Para uma análise detalhada deste plano, leia em LVSL: “Plan de relance européen : la montagne accouche-t-elle d’une souris ? »]

Muitos líderes europeus, começando por Emmanuel Macron, Pedro Sanchez, Giuseppe Conte e Angela Merkel, que assumiu a presidência rotativa da União de 1 de Julho até 31 de Dezembro de 2020, integraram-no perfeitamente. O objetivo para os apoiantes do plano de recuperação europeu, por muito criticável que seja, é convencer cada um dos frugais sobre o que lhes interessa à primeira vista, a fim de cortar pela raiz essa aliança. Por outras palavras, para conseguir que esta nova liga aborte. De facto, são os interesses nacionais, tanto políticos como económicos, que têm precedência.

Sebastian Kurz parece ser o primeiro a querer largar o lastro limitando simplesmente o montante dos subsídios concedidos aos Estados mais afetados, mas aceitando o princípio de que todo o plano não contenha apenas empréstimos. Por muito anedótica que esta posição possa ser, contrasta com a posição do Primeiro-Ministro holandês que condiciona o plano de recuperação a estar sujeito ao acordo unânime dos Estados-membros. Esta inclinação é o resultado de uma pressão suave, mas real, dos seus parceiros ambientalistas na coligação governamental, por um lado, sendo os Verdes a favor de mecanismos de solidariedade mais profundos. Por outro lado, a proximidade económica e geográfica entre Viena e Roma poderia convencer o líder austríaco a ter em conta o projeto de reformas apresentado por Conte, a fim de aprovar o plano de recuperação. O primeiro-ministro italiano não hesitou em visitar Viena, mas também Berlim e Haia para convencer os seus homólogos da seriedade da sua agenda de reformas.

Pedro Sanchez, cujo capital político interno foi fortemente prejudicado pelo severo confinamento da população, também teve o cuidado de se encontrar um a um com os seus homólogos para tentar levá-los a estarem a favor do plano. Sem verdadeiro sucesso até agora, Mark Rutte disse-lhe que só assinaria o acordo se “fossem feitos esforços substanciais pela Espanha”. O seu encontro, como mencionado acima, com o Primeiro Ministro sueco não conduziu a nenhum progresso real. No entanto, ao contrário da posição bizarra do holandês, Stefan Löfven não excluiu a ideia de que um acordo poderia ser alcançado em última instância. Na verdade, disse aos jornalistas que “não se entra numa negociação com esta atitude, entra-se numa negociação para tentar encontrar uma solução”. Foi também a Paris na quinta-feira para limar as arestas com o Presidente Emmanuel Macron antes de voar para Bruxelas. A posição sueca é semelhante à posição dinamarquesa. O governo social-democrata de Mette Frederisken indicou que quer ver alcançado um compromisso. O interesse particular dos dois reinos escandinavos reside no facto de que ambos poderão ver os seus respetivos governos sair ganhadores destas negociações. Esta é já uma aposta bem sucedida na Dinamarca, tendo Mette Frederisken ganho o apoio da oposição liberal no Parlamento dinamarquês. Na Suécia, Stefan Löfven pretende manter esta atitude até ao fim, a fim de paralisar o progresso dos Democratas suecos, situados na extrema direita, que continua a ser a segunda ou terceira força política nas intenções de voto.

Não, a verdadeira pedra no sapato dos europeus é a Holanda de Mark Rutte. A visita oficial de Emmanuel Macron a Haia no final de junho, rapidamente seguida por Giuseppe Conte e depois Pedro Sanchez não são estranhas à situação, tal como o convite de Angela Merkel a Mark Rutte para visitar Berlim no início do mês. O chefe de governo holandês, como um estilista, aumenta a parada ao ameaçar colocar um veto holandês ao plano europeu, mesmo que os seus três espadachins acabem por colocar a sua assinatura no Fundo de Recuperação. De acordo com a sua leitura pessoal dos acontecimentos, o Primeiro-Ministro não tem de se preocupar muito com um veto holandês. Este último está no topo das sondagens, com aliados que têm sido discretos desde o CDA do Ministro das Finanças Wopke Hoekstra, que tem lutado internamente sobre quem poderia concorrer nas eleições parlamentares holandesas de março de 2021.

61% dos holandeses rejeitam o plano europeu proposto pela Comissão Europeia e consideram Mark Rutte como o melhor primeiro-ministro do pós-guerra. Por exemplo, ele declarou, em resposta à pressão dos seus homólogos, que não é “feito de massapão” – que rapidamente se desfaz em migalhas – e que pode “resistir a esta pressão sem qualquer problema”. A única concessão real que ele fez foi que achou o projeto de orçamento da UE de Charles Michel mais apresentável do que em fevereiro. Também decidiu não trazer a biografia de Chopin com ele para Bruxelas.

O que aqui se exprime é menos uma atitude individualista do que a consequência da lógica da União Europeia. As elites pró-europeias não têm qualquer problema em denunciar a atitude dos quatro frugais. Mas será que estes quatro não estão a tentar respeitar a letra do Tratado sobre o Funcionamento da União Europeia (TFUE)?

O impetuoso chefe de estado holandês sabe que a sua posição como líder dos quatro frugais serve tanto os interesses dos Países Baixos como os seus próprios interesses na cena política interna. O que Mark Rutte não se apercebe é que corre o risco de ficar rapidamente isolado no caso de um veto holandês. Não é o Reino Unido que quer. De facto, a preservação da moeda única e do mercado comum foi o que levou Angela Merkel e o seu governo ao outro campo. O Ministro das Finanças alemão Olaf Scholz está, além disso, a pressionar Stefan Löfven e Mette Frederiksen. Mais preocupante para Mark Rutte, Angela Merkel, numa conferência de imprensa com o seu homólogo italiano, advertiu o chefe de Estado holandês e os outros frugais, deixando claro que não serão feitas concessões reais sobre uma redução global do plano. Giuseppe Conte acrescentou, não sem azedume, que os quatro frugais tinham todo o interesse em assinar o plano, correndo o risco de que a destruição das economias do Sul possa ter um efeito de arrastamento em toda a zona euro e, mais amplamente, no seio da União Europeia.

O VERDADEIRO PROBLEMA É A NÍVEL DA UNIÃO EUROPEIA

A atitude de cada um dos quatro Estados é certamente questionável. No entanto, os quatro frugais não são os únicos a tentar obter concessões sobre o plano de recuperação e, por extensão, sobre o futuro orçamento europeu. A Hungria e a Polónia, embora sejam grandes beneficiários do próximo plano, exigem, por sua vez, que nenhuma contrapartida em termos de respeito pelo Estado de direito seja invocada para o próximo orçamento europeu. A República Checa, por seu lado, parece estar disposta a aceitar o plano tal como está, mas na condição de que lhe sejam concedidos suplementos adicionais no próximo orçamento.

O que aqui está a ser expresso é menos uma atitude individualista do que a consequência da lógica da União Europeia. As elites pró-europeias não têm qualquer problema em denunciar a atitude dos quatro frugais. Mas estes não estão eles a tentar respeitar a letra do Tratado sobre o Funcionamento da União Europeia (TFUE) e do Tratado da União Europeia (TUE), cujo nascimento foi tornado possível pelo Tratado de Maastricht? Num colóquio realizado em Zurique em fevereiro de 2019, Mark Rutte salientou, com razão, que era a favor de mais Europa e de um papel acrescido da Europa na cena geopolítica mundial. Acrescentou ainda, não sem alguma malícia, que todos internamente tinham de respeitar escrupulosamente as regras estabelecidas em conjunto e ratificadas por todos os Estados-Membros: “Mas um acordo é também um acordo em relação ao euro e ao Pacto de Estabilidade e Crescimento. porque também aqui, a violação das regras pode contribuir para a erosão de todo o sistema, e não podemos aceitar isso.

A pandemia do coronavírus abalou de facto o edifício europeu e a sua natureza excecional obriga os Estados e a União Europeia a ativar instrumentos que são eles próprios excecionais. É, aliás, a linha seguida pela Alemanha que, em apenas alguns meses, deu uma reviravolta espetacular na questão. Uma crise exógena seria, portanto, suficiente para assustar os europeus mais frugais, quando são estes últimos que se têm mostrado, à primeira vista, os mais íntegros no seu respeito pelas instituições e pelas regras orçamentais?

Vista nesta configuração, esta análise mostra o absurdo da arquitetura europeia que, no fim de contas, obriga os Estados a envolverem-se numa concorrência dura e imperfeita, utilizando truques legais. A Holanda é um dos países que mais beneficiou da União Europeia, ao contrário da França ou Itália, mas ninguém se comoveu pelo dumping fiscal praticado pelos holandeses até agora, desde que estes respeitassem o pacto de estabilidade orçamental. O problema, portanto, não é tanto que os holandeses tenham sido mais maliciosos na sua gestão dos assuntos europeus, mas sim que as regras decretadas, de facto, mostram o impasse, se não o descalabro, que a União Europeia oferece. O que a União Europeia e a sua elite neoliberal sofrem é de uma incapacidade de tomar decisões, incapacidade esta que mesmo uma crise à escala da Covid-19 parece apenas ter só parcialmente curado. É esta mesma elite que, descaradamente, não hesitou em aplicar a austeridade, cujas consequências estão longe de terem terminado, à Grécia, Espanha, Chipre, Portugal e Irlanda. É ainda a mesma elite que, a todo o custo, quis preservar a moeda única, com as consequências dramáticas que vemos todos os dias em termos de desemprego e pobreza, novamente no sul da Europa.

Muitos editorialistas fingem estar surpreendidos com a atitude dos Países Baixos, Suécia, Dinamarca e Áustria. Constatam até que ponto eles são uns terríveis brutamontes prejudiciais à integração europeia. Mas de que tipo de integração estamos a falar? Uma integração que consiste em enfraquecer ainda mais muitas economias por serem demasiado divergentes umas das outras? Uma integração que aceita em si mesma o não respeito pelos direitos humanos mais básicos, como aconteceu durante a campanha presidencial polaca? Definitivamente, esquecem que o problema destas intermináveis cimeiras europeias está intrinsecamente, ontologicamente ligado à própria natureza da União Europeia e da sua construção.

Não são alguns milhares de milhões a mais ou a menos, através de empréstimos ou subsídios, que farão qualquer diferença para o problema. As elites neoliberais e outros eremitas eurobeatos defensores da austeridade serão sempre capazes de se consolar com discursos e outras subtilezas da sua própria liturgia.

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O autor: Valentin Chevallier, licenciado e master em Affaires Publiques por Sciences po Bordeaux e master em direito público pelo Institut Catholique d’Études Supérieures. É membro de Le Vent Se Lève desde 2018. Anteriormente esteve em Enedis (ex ERDF, gestor da distribuição na rede elétrica de França) responsável por inteligência económica e acompanhamento de concessões.

 

 

 

 

 

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