CARTA DE BRAGA – “de castelos na areia” por António Oliveira

 

Da mesma maneira que vemos passar os dias, os meses e os anos, também vemos as marcas que tal passagem vai deixando em nós e em tudo o que nos rodeia. Há milhentas citações de escritores, poetas, filósofos e cientistas sobre esse acontecimento, mas li ou contaram-me, que um filósofo (Nietzche?) dizia que o tempo para o homem, era como construir um castelo de areia. 

Há quem nem sequer o intente, porque as ondas das marés o vão destruir. Outros há que o constroem temerosos, sempre angustiados pela vinda das ondas, mas ainda há aqueles que se dedicam de alma e coração, satisfeitos e felizes, a fazer o mais bonito castelo que são capazes, apesar de saberem efémero todo o seu trabalho. 

Nem sempre agimos assim na vida, porque o tempo tem a ‘dimensão’ que lhe dá a idade que vamos tendo, diferente para menos à medida que os anos passam, porque o tempo corre mais veloz com o andar dos anos, mas é também um desafio intenso, erguer o ‘castelo de areia’ de cada compromisso assumido, que devemos cumprir apesar de sabermos bem da vinda das marés. 

Stat rosa pristina nomine, nomina nuda tenemus’, é a frase com que termina ‘O nome da rosa’, o celebrado romance de Umberto Eco, frase que numa tradução do dr. Google, me deu qualquer coisa como isto, ‘A rosa antiga permanece no nome, nada temos além dos nomes’, a poder e dever significar que a rosa, como símbolo do efémero que somos e do que eventualmente pudermos fazer, não anula nunca a nossa vontade em fazer o que temos de fazer, pelos nossa pertença a um ou a vários colectivos, que são também a razão da nossa vontade e, muitas vezes, da nossa coragem. 

E para isso somos e estamos, para construir, por palavras e obras, os castelos efémeros que outros irão apreciar, aplaudir ou vaiar, pois disse uma vez Charles Chaplin, ‘Todos somos figurantes. A vida é tão curta que não dá para mais’ e Chaplin sabia bem do que falava, porque toda a sua obra se baseou no arte do efémero. 

Aliás, a vida demonstra-nos como a ideia do efémero também é efémera – Saint-Exupéry em ‘O pequeno príncipe’, afirmava ‘Caminhando em linha recta pode ir-se muito longe’, mas o filósofo Séneca (séc. I) garantia ‘A linha recta é uma pura abstracção do espírito’ e a actriz, cantora e escritora Mae West (1893,1980), dizia a mesma coisa de um modo mais irónico, ‘A linha recta é o caminho mais curto entre dois pontos, mas não é o mais atractivo

A alusão à linha recta como objectivo único, é tão imprópria destes tempos, como a alusão ao efémero, por não haver qualquer resultado válido, se não forem considerados ideias, propostas, projectos e resultados obtidos, iniludivelmente ligados ao ‘construtor do castelo’, e assim se vai compondo também a vida. 

E, no fim haverá apenas a lembrança, a palavra e o conceito do castelo que se construiu, a rosa da  nossa ousadia em enfrentar o efémero, só pelo prazer de construir, mesmo em areia, porque, disse ou escreveu alguém, ‘O meu lugar real são as minhas recordações, as minhas experiências, os meus risos e as minhas lágrimas! É o único sítio onde podemos sempre regressar em paz! Nem é nunca o sítio onde se nasce, mas sim o sítio onde acaba por ficar o corpo que foi teu a vida toda’.

E nada mais resta além de um nome!

António M. Oliveira

Não respeito as normas que o Acordo Ortográfico me quer impor

 

 

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