ARGONAUTA ROBERTO MERINO

 

Roberto Merino – Encenador e dramaturgo (*)

 

“Sou da província, nasci numa cidade quinhentos e tal quilómetros a Sul da capital do Chile, e havia dois cursos que queria fazer na vida: Teatro e Arquitectura. Nos anos 70, não havia por lá nem um nem outro. Pensei, então, em fazer uma coisa completamente diferente. Era muito bom aluno, podia entrar em qualquer curso, e a Matemática sempre me interessou. Entrei nessa licenciatura e a verdade é que me tem ajudado muito ao longo da vida. A Matemática é uma arte, não é uma Ciência. O fracasso dos alunos nessa área está no facto de ela não ser bem ensinada. As pessoas não compreendem que tem de se pensar em duas línguas diferentes. Quando tinha de fazer desenhos, estruturar ensaios, fazer tabelas, planificar… para tudo isso me serviu a Matemática. Cheguei, mesmo aqui no Porto, a dar aulas de Matemática. No momento em que se deu o golpe de Estado no Chile, em 73, eu já estava a dar aulas na universidade como professor assistente. É esse o meu primeiro diploma de trabalho. Tinha 21 anos e saí do Chile pouco depois, ainda com 21 anos. O golpe de Estado foi muito violento para todo o país e, em particular, para mim e para a minha família. Eu nunca fui militante, mas era simpatizante do partido do Salvador Allende. O maior problema que tive directamente foi por ser representante estudantil no conselho universitário. O meu pai ocupava um cargo político, era presidente do Partido Socialista na minha região e teve de se exilar na embaixada da Alemanha Federal. Fui o primeiro da família a sair. Fui para a Alemanha Federal um ano. Um ano muito intenso da minha vida. E foi nessa altura que comecei a contactar com portugueses. Um dos meus professores de alemão era português. Dessa relação com os colegas de Portugal saiu a ideia de um dia vir cá. Entretanto, um deles mandou o meu currículo à Fundação Gulbenkian — eu nem sabia o que era a Fundação Gulbenkian, a sério! O serviço de Belas Artes respondeu e decidiu subsidiar a minha vinda para Portugal, para o Teatro Experimental do Porto. Cheguei no dia 3 ou 4 de Janeiro de 1975. Era uma altura muito interessante do país. E foi engraçado. Vinha do Chile, uma democracia que sucumbe com um golpe de Estado, para Portugal, uma democracia que emerge de um golpe de Estado. Via muitos cartazes na rua e muitas paredes com uma inquirição ‘Portugal não será o Chile da Europa?’. Envolvi-me no processo, criei cursos, o TEP trabalhou directamente com o MFA no sentido de divulgar o teatro. Fomos a fábricas, a escolas, andámos por todo o país. Eu sou do teatro desde pequenino. Devia ter cinco anos quando entrei pela primeira vez num palco. Fui actor, encenador, cenógrafo. Fiz tudo o que havia para fazer. A nossa escola no Chile tinha uma tradição muito interessante no que dizia respeito às artes: fazíamos teatro, música, cantávamos. Havia muito cinema. Quando cheguei à Europa, tinha visto tudo o que era cinema europeu e o grande cinema norte-americano também. E aqui em Portugal as pessoas, que vinham de um período de censura, ficavam admiradas por eu conhecer tanta coisa. No Teatro, grande parte da minha formação foi auto-didacta, mas comecei a ler e a trabalhar no teatro clássico, que é o que mais gosto. Como o meu pai é formado em Filosofia, tinha em casa uma prateleira cheia de teatro grego, os Aristóteles, Sofocles, Eurípides. Li aquilo um pouco cedo demais mas apaixonei-me logo aí. O conhecimento que tinha de Portugal foi feito a partir do Brasil. Ainda quando estava no Chile, nos anos 70, apanhei muitos professores brasileiros, a fugir da ditadura militar do Brasil. Na Alemanha, no ano em que estava lá, aprendi muito do país com os emigrantes portugueses e espanhóis que conheci. Quando cheguei ao TEP fiquei encantado. Tinha uma sala lindíssima e era ali em frente ao Restaurante Abadia. Ao lado, havia uma lavandaria que foi adaptada e um teatro-estúdio muito bonito, a sala António Pedro. Os actores eram poucos por questões financeiras. A minha primeira necessidade foi retomar uma coisa que já tinha existido, a escola. Formou-se ali muita gente que continua no activo hoje, gente muito boa. Fiquei por lá três anos e depois fui para o Funchal durante cinco. Quando voltei para o Porto vim desempregado e passado um mês de cá estar encontrei-me na rua, casualmente, com o escultor José Rodrigues que me disse que ia abrir um curso de Teatro na Cooperativa Árvore e queria que eu fosse para lá coordenar. O Teatro no Porto tem tido altos e baixos. Já tivemos muito mais companhias, por exemplo. Mas penso que o grande salto se dá nos anos 90 quando o edifício do São João é adquirido e passa a ser Teatro Nacional, com o dinamismo do Ricardo Pais e mais tarde do José Wallenstein e do Nuno Carinhas. Esta estrutura é hoje inabalável. Entre os meus pecados capitais, eu também escrevo Teatro. Quando andámos nisto do teatro achamos que podemos tudo, o que é bom. Há uns anos escrevi para a Luisa Pinto, do Teatro de Matosinhos, dois textos. Um deles — A elegante melancolia do crepúsculo —, escrito a partir de Charlie Chaplin, foi para mim uma experiência muito bonita. O Chaplin é para mim memória de infância. À parte disso, guardo muito na memória os meus alunos a interpretarem textos clássicos. O que eu mais gostava era de ser actor. Mas já não tenho a juventude precisa. Penso que o actor é a alma do Teatro. Os autores existem porque o actor existe. Em 2000, decidi adquirir a nacionalidade portuguesa. Pelo sentimento, por me sentir muito bem cá, mas também pela burocracia. Detesto papéis. E quando cheguei a Portugal tinha, por exemplo, de renovar a residência de ano a ano. Portanto, quando vi que havia as condições de adquirir a nacionalidade fi-lo logo. Portugal é uma descoberta muito grande para aqueles que não conhecem o país. Noutro dia um estrangeiro dizia que Portugal era o único país civilizado da Europa. Achei muita piada. O povo português é, de facto, um povo com características muito boas. E tem semelhanças com o Chile na forma como valoriza a família. É tão bonito quando se vê famílias inteiras reunidas. O Porto é já a minha cidade. Há uma coisa que se perdeu e que me entristece: o cinema no centro. Há anos, tinha uma tarde livre e ia logo a correr para o Batalha e depois voltava para dar aulas. Isso faz muita falta — e somos das poucas cidades da Europa que não tem cinemas. Gosto muito do rio, do nevoeiro que me lembra a minha cidade no Chile, gosto deste clima, onde as estações passam marcadamente, e da Arquitectura. Lamento só a Avenida dos Aliados, feita pelo melhor arquitecto do mundo, não tenho dúvidas, mas que me dá pena. Tenho saudades do jardim. É outra coisa que falta à cidade: jardins. A gente sabe onde nasce e não sabe onde morre. Mas, quando penso no futuro, penso que gosto disto. Vou-me distanciando do Chile com o tempo, vou lá duas vezes por ano só. Não penso regressar.”

(*)Texto de Mariana Correia Pinto em Porto Olhos nos Olhos.