Site icon A Viagem dos Argonautas

SECREÇÃO – por Fernando Correia da Silva

Um Café na Internet

Em Maio de 74 estou em Lisboa a surfar na crista da onda revolucionária. Estranho a ausência do Alexandre O’Neill naquelas corridas loucas, ventania e muito sal. Por mero acaso, em 76 encontro-o no restaurante Faz Frio, ali ao Príncipe Real. O longo abraço, a evocação dos tempos idos. Apresenta-me Ruy Cinatti, timorense e bom poeta. Pede-me que eu lhes diga o meu poema de pesar pela morte do Estaline. Pergunto:

– Quem é esse gajo?

Galhofa, copos, camaradagem. Voltaremos a cruzar-nos pelas ruas de Lisboa, breves instantes, recordações, melancolia. Mas conviver não convivemos mais, passámos a trilhar trajetórias divergentes.

Pouco tempo depois Abril em refluxo e o sarcasmo outra vez a acomodar-se à vidinha. Condoído, porém acomodado.

Entretanto o O’Neill bate as botas. Invoco:

– O’Neill, ó poeta, ó amigo, espera aí por mim que eu já não tardo muito! Entretanto, cá por baixo, quando releio os teus poemas apanho sempre um susto: afinal o salazarismo não terá sido agressão contra o nosso povo, mas apenas secreção dos portugueses, malcheirosa, malcheirosa…

Exit mobile version