
Falamos do livro, falamos de alguns livros e, faltava esta componente, falaremos também de quem escreve os livros – os escritores. Começamos com uma evocação de Lêdo Ivo, por Manuel Simões.
Recentemente desaparecido, Lêdo Ivo é conhecido sobretudo como poeta, estreando-se em 1944 com “As imaginações”. A sua obra poética pode avaliar-se globalmente através da monumental “Poesia Completa.1940-2004)” (Rio de Janeiro, 2004), que insere, nas suas mil e cem páginas, um percurso de mais de sessenta anos de literatura, abrangendo 21 livros de poesia, dos quais se destacam “Cântico” (1951), “Magias” (1960), “Finisterra” (1972), “Mar Oceano” (1987), “Crepúsculo civil” (1995) e “Plenilúnio” (2004), excluindo mais seis antologias de um autor que se conta entre os nomes mais altos da poesia brasileira contemporânea.
A actividade literária de Lêdo Ivo contempla, porém, praticamente todos os géneros, do romance ao conto, da crónica ao ensaio (“Poesia observada”, 1967; “Modernismo e modernidade”, 1972; ou “O ajudante de mentiroso”, 2009, por exemplo), da literatura infantil à autobiografia: “Confissões de um poeta” (1979) e “O aluno relapso” (1991).
Pertence à Geração de 45, grupo que se manifestou criticamente em relação aos vanguardistas da Semana de Arte Moderna de 1922. A este respeito Lêdo Ivo relativiza a função da “Semana” na poesia brasileira, classificando as novas propostas como falso modernismo pelos excessos retóricos e pela indisciplina formal, embora se deva dizer que os momentos de ruptura comportam sempre um discurso considerado extravagante e iconoclasta, contrariamente não representaria uma ruptura. A sua posição transparece em muitos dos seus textos em prosa (ensaios, crónicas, memórias) e até em textos poéticos, de que é exemplo o poema intitulado precisamente “Geração de 45” (“O soldado raso”, 1980). E no volume “O ajudante de mentiroso” insere o ensaio “Os modernismos do século XX”, onde atribui ao Modernismo de 22 uma atitude de «evidente menosprezo à importância seminal dos movimentos anteriores», designadamente o contributo do Romantismo de Alencar e Gonçalves Dias ou o Realismo de Machado de Assis ou Euclides da Cunha, salientando a desvinculação posterior do romance nordestino dos anos 30. Seguindo a opinião de Sergio Milliet, salva, todavia, Mário de Andrade (o autor de “Macunaíma”), «que lera quase tudo, ninguém sabia nada do que se escrevia na Europa, e o que liam, liam mal». De resto, já em “Magias” (1960) tinha inserido o poema “Lição de Mário de Andrade”, onde recupera esta figura preponderante da “Semana”: «Agora, Mário de Andrade,/ é que te vejo total,/ não mais envolto em neblina/ mas sempre ouvindo as toadas/ do nosso país natal».
Quer a poesia, quer a prosa de Lêdo Ivo, reflectem obsessivamente a geografia nordestina e, sobretudo, de Maceió, no estado de Alagoas, em sintonia com uma cultura que determina o sentido profundo do seu discurso. Já em “Confissões de um poeta”, é clara a sua ligação constante ao mundo da infância, ao mítico farol de Maceió, que «guia os navios e os homens». E no poema “Planta de Maceió”, do livro “Finisterra”, por exemplo, não podia ser mais explícito o seu enraizamento e a marca de origem que guiará o seu intenso itinerário: «Este é o meu lugar, entranhado em meu sangue/ como a lama no fundo da noite lacustre./ E por mais que me afaste, estarei sempre aqui/ e serei este vento e a luz do farol». Isto não impede que a característica dominante da sua poesia deixe entrever o vulto de um caminhante sempre em movimento, o que determina, sem sombra de dúvida, o aspecto dinâmico do seu fazer poético.
