Site icon A Viagem dos Argonautas

POESIA AO AMANHECER – 213 – por Manuel Simões

poesiaamanhecer

MIGUEL TORGA

(1907 – 1995)

A UM NEGRILHO

Na terra onde nasci há um só poeta.

Os meus versos são folhas dos seus ramos.

Quando chego de longe e conversamos,

É ele que me revela o mundo visitado.

Desce a noite do céu, ergue-se a madrugada,

E a luz do sol aceso ou apagado

É nos seus olhos que se vê pousada.

Esse poeta és tu, mestre da inquietação

Serena!

Tu, imortal avena

Que harmonizas o vento e adormeces o imenso

Redil de estrelas ao luar maninho.

Tu, gigante a sonhar, bosque suspenso

Onde os pássaros e o tempo fazem ninho!

S. Martinho de Anta, 26 de Abril de 1954

(de “Antologia Poética”)

Pertenceu à revista “Presença”, da qual foi dissidente para fundar o jornal “Manifesto” (1937). Da sua obra transparece a profunda intimidade com a realidade telúrica e social portuguesa. Extraordinário como contista (“Os Bichos”, “Contos da Montanha”, “Novos Contos da Montanha”), legou-nos uma extensa obra poética, de que se destacam os livros “Ansiedade” (1928), “O Outro Livro de Job” (1936), “Libertação” (1944), “Cântico do Homem” (1950), “Orfeu Rebelde” (1958), “Poemas Ibéricos” (1965), para além dos muitos poemas inseridos nos 16 volumes do seu pessoalíssimo “Diário”.

Exit mobile version