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PORQUE FALHAM AS PREVISÕES? – I. Por Ventura Leite

Em tempos em que as previsões económicas falham tanto, ainda por cima  provindas das mais variadas e credenciadas entidades como bancos centrais, governos ou  o FMI,  é possível perceber porquê?

Desde o início da actual crise que os economistas e governos são fustigados por não terem antecipado a crise. Os factos demonstram essa impressão forte e generalizada, com vários exemplos no estrangeiro e mesmo entre nós, de bancos centrais a afastarem cenários de recessão mesmo quando ela já estava em marcha! Em Portugal o próprio Governador do BdP foi um exemplo disso durante o ano de 2008.

Há até uma anedota que se conta sobre os economistas, que reza assim:  “Deus criou os economistas para que os meteorologistas pudessem parecer  mais inteligentes”!

Meus caros

Depois de uma relativamente rápida e tranquila ( até aqui) convalescença na sequência de uma súbita visita ao Hospital,  retomo o prazer de ir elaborando   apontamentos sobre a crise e suas perspectivas. O tema são as previsões económicas, embora não vá alongar-me a aprofundá-lo. Apenas vou sacudi-lo! É apenas um pretexto.

Para começar, é preciso separar as previsões que falham por manifesta incompetência de quem as faz, daquelas  que  visam esconder  uma  realidade que é chocante,  porque levariam  a reacções  difíceis de controlar ou decisões dramáticas.

Exemplos:

O Presidente  de Chipre solicitou há dois dias uma revisão das condições da assistência financeira obtida da União Europeia, porque segundo ele os efeitos sobre a economia estão a ser piores do que os previstos!

Mas terá havido mesmo  falha nas previsões, isto é, incapacidade de prever o que iria acontecer? Eu acho que as previsões foram, neste caso, as que podiam ser aceites sem uma comoção social  e revolta imediatas e generalizadas.

Na realidade, quem não antecipou que a economia cipriota vai levar um solavanco brutal na hora de corrigirem-se os desmandos cometidos pelo seu sector bancário, com a conivência ou incompetência das autoridades políticas e  de regulação? Eu não tinha, nem tenho, dúvidas  ( e escrevi-o  noutro post sobre Chipre) em prever tempos absolutamente dramáticos para os cipriotas, e que levarão inevitavelmente ao reforço da intervenção da EU. No entanto,  é preciso que a instância política assuma primeiro os seus erros e se disponha a agir de outra maneira. Por isso, não era difícil fazer este tipo de previsões! O que era difícil era contar a verdade e assumir as suas implicações!

Em Portugal temos um bom exemplo, embora  com algumas diferenças.

Os efeitos do programa de ajustamento das contas públicas  são muito piores do que os estimados? Esta à vista,   e todos os dias isso se constata.  Além disso, parece que os apoios financeiros não vão chegar. Mas  porquê? Porque falharam as previsões?

Antes de mais tem  a ver com as limitações políticas europeias no momento de desenhar o programa de apoio. Se se recordam desses tempos, começavam a surgir cada vez mais reservas de alguns países ao processo de  mutualização dos empréstimos para acorrer aos vários países, pelo que os valores e o prazo de assistência a Portugal foram  naquela altura os mais curtos possíveis para não agitar excessivamente  as águas. Lembro que a Finlândia não estava propriamente entusiasmada com o resgate a Portugal!

Mas não houve quem dissesse logo que os 78 mil milhões  de € não iriam chegar até ao regresso pleno e normal  aos mercados?  Claro que houve. Vários economistas de renome o disseram. E até um  humilde economista como eu  o disse  na SIC .

Não havia também  quem dissesse que as previsões sobre a evolução do desemprego e dos efeitos recessivos iriam ser piores do que  as previsões do Memorando?  Ou que o défice não seria cumprido? Várias vozes o disseram, e até eu o disse e escrevi!

Ora bem. Há  várias razões para  estas  falhas. Uma deve-se à incompreensão, quer do Governo de então quer dos técnicos da Troika, sobre a economia real portuguesa.

Por outro lado o próprio Governo procurou  dourar a pílula fazendo crer que tinha conseguido uma vitória!

Talvez alguns se recordem  das palavras “ Fizemos um bom acordo!”,  com que José Sócrates iniciou a sua mensagem aos portugueses depois da conclusão das negociações.

Mas será que o pessoal da Troika acreditava mesmo nas previsões que fazia, ou também tinham no seu íntimo a noção de que era importante  dar início imediato a uma redução no rendimento disponível das pessoas, nos gastos do Estado e na correcção do défice externo, este último muito mais crítico do que o défice das contas públicas? Para mim, os técnicos da Troika foram optimistas, levianos ou mesmo incompetentes, mas sabiam  seguramente também  que problemas muito sérios viriam a seguir. No entanto, terão achado, e compreendo isso, que  teria que ser  o  Governo quem teria depois que  lidar com eles.  Lembro a propósito a preocupação da Troika em ter o aval do PSD e do CDS. Porquê? Porque  sabiam que um futuro governo se assustaria facilmente perante a evolução da realidade! Só um ignorante pode mesmo ter pensado que o programa da Troika estava  desenhado para promover o crescimento a par da correcção dos défices públicos! Ou que isso fosse  possível sem outro tipo de medidas ( como defendi no meu livro).

Portanto, no momento de se dar início ao processo de assistência financeira não havia vantagem em pôr tudo  a nu e em cima da mesa! O País ficaria ingerível se a realidade  fosse assumida. A própria União Europeia não queria ou não conseguia ver a realidade!

A história das correcções  impostas no  passado a outras economias com graves desequilíbrios orçamentais e externos  só podia conduzir-nos à evidência de que nos esperavam pesados  custos sociais em consequência de ajustamentos. Pior ainda se fossem cegos como veio a acontecer em Portugal. Ao País apenas restava assegurar um ajustamento com sacrifícios distribuídos com algum sentido de equilíbrio, mas isso era um problema que estava para lá da Troika.

No recente mês de Maio Portugal conseguiu colocar no mercado dívida pública  a 10 anos. O Governo e muitos analistas exultaram com o feito de se ter colocado dívida com uma procura bastante  superior ao montante leiloado, e a juros ligeiramente abaixo dos 6%. Mas houve alguns analistas que corajosamente lembraram que mesmo aqueles juros eram insuportáveis no futuro, e além disso também lembraram que a evolução do mercado se devia essencialmente às garantias dadas pela actuação do BCE.

Mas mesmo assim o governo e os partidos apoiantes  consideraram tal ida aos mercados um sucesso que se devia à valorização externa dada à acção do Governo, porque estaria no bom caminho. Eu não tenho dúvidas de que o resultado não foi  tão significativo como isso, e tive oportunidade de  dizer num debate na SIC que  alguns meses antes o governo da  Bolívia, um país falido e com pouco prestígio internacional, tinha contraído um empréstimo a 10 anos no montante de 1000 milhões de dólares,   com juros abaixo dos  5%! E sem nenhum programa de austeridade!! Porquê?! Porque os investidores norte-americanos obtinham recursos em dólares a custo quase zero, pelo que a margem  de ganho  cobria o risco representado pela Bolívia.

E como sabemos, foram  investidores americanos que compraram  a maior parte   da dívida emitida recentemente pelo Governo português!

Vem isto a propósito do facto de que hoje ( 20-06-13) se constatar que os juros da dívida nacional a 10 anos estão novamente a subir e já  na casa dos 6.6%, o que é preocupante!

E a Comissão Europeia já veio admitir que Portugal e a Irlanda poderão ter que receber  algum tipo de ajudas adicionais. Onde está afinal o apreço dos mercados pelo bom desempenho de Portugal?

Ou seja,  e para ser curto e directo: de forma autónoma Portugal já não voltará  aos mercados em condições aceitáveis e suportáveis!! Alguma coisa vai ter que acontecer, e não será coisa boa! Não é uma previsão que faço agora. Já há muito o tinha feito e dito!

Portugal jamais terá condições para crescer e criar emprego com uma dívida pública como a actual e a pagar juros acima dos 2-3%.  É este tipo de realidade e de previsão que a política tem que fazer e colocar na sua agenda, em vez de discutir as previsões do Governo e ficar à espera que a Europa decida  fazer algo.

Não há nenhuma solução europeia para Portugal, para a Grécia, para a Irlanda , ou outro país europeu, se cada um desses países não tiver uma estratégia de mudança assumida e credível. A Europa apenas pode ajudar. Mas não será nenhuma solução europeia, aplicável igualmente a outros, que vai resolver o problema de Portugal.

Como escrevi no meu livro, mesmo que amanhã toda a nossa dívida nos fosse perdoada ( a pública e a privada), no dia seguinte teríamos que manter uma postura de austeridade e por muito tempo, pois  nesse caso os credores não nos voltariam a emprestar,  durante anos,  um cêntimo para comprar alimentos, combustíveis ou automóveis!!

Em suma, o que é que está a acontecer presentemente a Portugal que era tão difícil de prever? O nível de desemprego? Mas  ninguém avisou que iria disparar? Não conhecíamos a Espanha?

Não é assim tão difícil fazer previsões  sobre o próximo futuro de Portugal sem risco de falhanço clamoroso!

Difícil é  informar o País sobre a realidade e assumi-la!

Há  mais de um ano eu escrevi que os Bancos Centrais se iriam tornar nos actores decisivos nesta fase da crise. Tornarem-se  actores decisivos não significava que iriam  resolver a crise, mas  assegurar condições e tempo para os políticos agirem com um mínimo de coragem e competência.

Num post  recente que partilhei convosco  coloquei uma informação sobre a  evolução dos activos dos principais bancos centrais e a política monetária dos principais bancos centrais.

A economia mundial está hoje muito dependente da política monetária nas principais economias, designadamente norte-americana, e ontem mesmo  ( 19-06-13), o presidente da Reserva Federal dos EUA veio confirmar esta nova realidade. Em consequência da sua intervenção ocorreu uma reacção negativa nas bolsas de todo o mundo quando ele se limitou a dizer que se a economia norte-americana prosseguir na linha das previsões e consolidar a retoma, então a Reserva Federal irá diminuir a injecção de dinheiro sob a forma de compra de dívida pública e privada titularizada.

O que isto mostra é  estranho, porque gerou reacções negativas quando afinal deveria fundamentar  a confiança dos mercados. Mas acaba por revelar como os investidores estão realmente pouco confiantes na retoma sustentável da economia norte-americana e mundial.

No Japão, que referi também noutro post, as coisas estão a evoluir no sentido de dar razão à opção do Governo e à acção do seu Banco Central. Os riscos são grandes? São sem dúvida enormes! Se falhar a ignição sustentada da economia japonesa através da política monetária então teremos  um  crash que será monumental. Mas que alternativa há quando os governos não querem assumir a reforma das economias e dos estados?

Portanto, os bancos centrais são decisivos nesta fase,  acima de tudo pela incapacidade dos governos, e depois pela interligação das economias e dos sistemas financeiros desregulados.

Não podem directamente relançar o crescimento e o emprego  mas apenas ajudar na medida em que facilitem o acesso ao capital e a juros baixos, e enquanto  se compra tempo para os governos realizarem   a sua parte.

(continua)
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