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FLORBELA ESPANCA – 2 – Histórias de suicídios famosos em Portugal – por José Brandão

(Continuação)

Em 1929, Florbela passa por Lisboa, onde lhe é recusada a participação no filme «Dança dos Paroxismos», de Jorge Brum do Canto, e segue para Évora, onde, em 1930, começa a escrever o seu «Diário do Último Ano». Passa, então a colaborar nas revistas «Portugal Feminino» e «Civilização», e trava conhecimento com Guido Battelli, que se oferece para publicar «Charneca em Flor». Já em Matosinhos, Florbela revê as provas do livro, depois da segunda tentativa de suicídio, em Outubro ou Novembro, período em que a neurose se torna insuportável e lhe é diagnosticado um edema pulmonar. A 8 de Dezembro, dia do nascimento e do primeiro casamento, Florbela suicida-se, cerca das duas horas, com dois frascos de Veronal. Ao completar 35 anos, na noite de seu aniversário não suportou mais e suicida-se, atirando-se no oceano Atlântico, nas costas de Matosinhos, no norte de Portugal.

A causa da morte de Florbela tem sido motivo de estudo para vários dos seus biógrafos, ocupando parte significativa das obras a seu respeito. As opiniões dividem-se, e mesmo alguns dos seus mais incisivos estudiosos, como Rui Guedes ou Agustina Bessa Luís contrapõem diversos argumentos que justificariam poder falar-se de suicídio premeditado (recorrendo nomeadamente a excertos da sua obra, do seu diário ou à correspondência enviada pela poetisa) a outros, que apontam para o facto de se ter tratado de um acidente, ou simplesmente, do culminar das doenças que afectavam a poetisa.

Suicídio premeditado?

Na opinião de alguns estudiosos, o desejo de morrer de Florbela está claramente expresso na sua obra, no modo como aborda constantemente o tema da morte, quase que parecendo persegui-la. Seria a consumação de uma fuga, fuga a um amor, fuga à vida e aos sofrimentos que lhe traz. Além disso, seria uma saída fiel aos preceitos românticos. Há, inclusive, a ideia de que na sua obra estaria enunciado uma espécie de programa de despedida: A morte pode vir quando quiser: trago as mãos cheias de rosas e o coração em festa (Ana Marques Gastão, «Cem anos: Sonetos fora de época»). Sobretudo na fase final, os acontecimentos exteriores, como a viagem de Guido Battelli, e os interiores, nomeadamente a perda de capacidades, poderiam agitá-la excessivamente, aumentar o potencial de auto-destruição, e conduzir ao suicídio.
A possibilidade de suicídio é igualmente aceitável, se atendermos ao que Florbela confessou à sua amiga de infância Milburges Ferreira, a Buja, dias antes de falecer: Se passar do dia dos meus anos, morrerei de velha. Foi, aliás, às amigas que Florbela deixou algumas disposições especiais no seu testamento, que, para tanto, teve de alterar dias antes de falecer. Foi também entre os amigos que, no dia anterior à morte de Florbela, correram supostos rumores de que esta estaria à beira da morte, rumores que Mário Lage, o terceiro marido da poetisa, também espalhou depois do funeral. Acresce que esses rumores se firmaram com base na coincidência de que Florbela se matou a 8 de Dezembro, dia do seu aniversário e do seu primeiro casamento. Por outro lado, a atitude de Lage não deixa de ser curiosa: após terem encontrado a poetisa morta no quarto, onde se tinha fechado no dia anterior (pedindo que não a incomodassem até ao dia seguinte), o marido conseguiu manter uma espantosa lucidez, localizando rapidamente os amigos de Florbela para os informar do ocorrido. Mais a mais, é estranho que um médico permita que alguém viva rodeado de barbitúricos, quando sofre de uma neurose e já, por duas vezes, se tentou suicidar, a última das quais dois meses antes. Referência ainda à declaração de óbito da poetisa, que, embora indique como causa da morte o edema pulmonar de que sofria, foi assinada por um carpinteiro.
Por último, há que ter em conta a hipótese sugerida por Agustina Bessa Luís de que Florbela se teria suicidado, em virtude de estar novamente apaixonada, possivelmente por Ângelo César, a quem dedica os seus últimos sonetos, como «Quem Sabe?».

Acidente?

Em primeiro lugar, a neurose de que a poetisa sofria agravou-se significativamente nos últimos meses da sua vida, provocando comportamentos estranhos que escandalizaram a família do marido, Mário Lage, em cuja casa vivia na altura. Além disso, foi-lhe diagnosticada uma apendicite, que faz com que Florbela se arrependa da sua natureza amante e ambiciosa, sentindo-se culpada de todas as polémicas que se geraram em seu torno. Em terceiro lugar, um edema pulmonar (talvez derivado de hipertensão provocada por algum anti-depressivo), descoberto pouco antes da morte, debilitou ainda mais o seu estado de saúde, agravado com um tratamento errado, baseado em refeições pequenas e demasiado repouso.
De facto, é possível que se tenha tratado de um acidente, motivado pela mistura de drogas muito fortes com certos alimentos, ou pela ingestão excessiva de Veronal.
O Veronal, que Florbela passou a usar em 1930, era um sonorífero extremamente forte, usado ao tempo, e particularmente nocivo para doentes pulmonares ou cardíacos, o que era o caso de Florbela. Provavelmente, a associação deste remédio com o tabaco que Florbela fumava constantemente, numa altura em que quase não consegue suportar a neurose, poderá ter ajudado a precipitar a sua morte.
No entanto, não deixa de ser verdade que os dois frascos de Veronal encontrados debaixo da cama da poetisa, completamente vazios, depois da sua morte, podiam ter sido tomados com a intenção premeditada de suicídio.
Por outro lado, há também a considerar o facto de que se aproximava a data da publicação de «Charneca em Flor», esperada pela poetisa com manifesta ansiedade, a par da anestesia e sofrimento prolongados em que Florbela vivia, em virtude da constante ingestão de soníferos, e que impediriam que tivesse um mínimo de vontade de se suicidar. A este respeito, Agustina Bessa Luís cita, inclusivamente, psicólogos da área do suicídio, que consideravam esse acto pouco provável, no caso de Florbela. (Agustina Bessa Luís, «A Vida e a Obra de Florbela Espanca»).Finalmente, não foi pedida para o enterro da poetisa qualquer disposição eclesiástica, o que era quase impossível naquele tempo se houvesse suspeita de suicídio.Os casamentos falhados, assim como as desilusões amorosas, em geral, e a morte do irmão, Apeles Espanca (a quem Florbela estava ligada por fortes laços afectivos), num acidente com o avião que tripulava sobre o rio Tejo, em 1927, marcaram profundamente a sua vida e obra. Em Dezembro de 1930, agravados os problemas de saúde, sobretudo de ordem psicológica, Florbela morreu em Matosinhos, tendo sido apresentada como causa da morte, oficialmente, um «edema pulmonar».

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