DOIS HOMENS DE GABINETE – por Fernando Correia da Silva
carlosloures
Um Café na Internet
Eu, António de Oliveira Salazar, tenho aversão a espalhafatos. Admirei o Mussolini, depois fartei-me dele. Cheguei a ter o seu retrato em cima da minha secretária, foi homem que fez obra. Mas irritou-me a forma aparatosa de estar na vida. Por motivo idêntico também não gostei do António Ferro, nem do Duarte Pacheco, nem do Henrique Galvão e nem do Humberto Delgado. Despeitados, os dois últimos acabaram por me trair. Ao Duarte Pacheco, que também fez obra, Deus mandou que morresse num desastre de viação. Mas ao António Ferro, fui eu que o deixei cair em 1949, os tempos eram outros e já me incomodava o estrondo da sua propaganda. Tanto, que depois privatizei a política da acção cultural. Sem encargos para o Estado, Azeredo Perdigão, o mecenas vermelhusco, com a sua Fundação Gulbenkian é que passou a ser o meu Ministro da Cultura. Mas disto ele não sabe, nem sequer suspeita. Contudo o Ferro, às vezes, até descobria coisas com interesse. Foi ele quem achou a minha imagem nos painéis de S. Vicente. Num lado o Infante de Sagres e eu no outro. Dois homens de gabinete. Um, a mandar as caravelas à descoberta do mundo. Outro, que é pobre, filho de pobres, a mandar Portugal seguir em frente.