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A ESTUPIDEZ É UM CÃO FIEL – 10 – por Sérgio Madeira

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Nos capítulos anteriores – Em Abril de 2009, por conselho do seu cardiologista, António Amaral está de férias no Porto Santo. Recuamos até 1972. No distrito de Tete, Moçambique, tem lugar uma operação militar contra uma aldeia que, se pensa abrigar um líder da guerrilha. Enquanto António recorda os dias anteriores ao mórbido achado, as tropas especiais desencadeiam um ataque a Xuvalu, o alvo da operação. No hotel, ao jantar, António e Cecília, sua mulher, são cumprimentados pelo pianista, que se lhes dirige. Em Xuvalu o massacre da população está em curso… E quando passeia na praia, António tropeça num cadáver.

Décimo capítulo

 

Mixoni colocou-se à frente Firina que trazia Rita ao colo. Luciano correu a colocar-se ao lado do pai. Antoni Mixoni apertou o seu pequeno irmão contra o peito. Formaram um cacho unido, como se a família fosse um único corpo. Mwataika, a mulher da Xuvalu, o machambeiro dono do pátio onde a população se refugiara, gritou para os soldados:

            – Piedade! Piedade para as crianças!

 

As armas automáticas começaram a disparar e os corpos a cair. Mwataika foi uma das primeiras a tombar. A família de Irisoni foi das primeiras a ser ceifada – o próprio Irisoni, as suas duas mulheres, Soza e Líria, Posi, a filhinha de um mês, Chinai, o filho com 8 anos e o irmão Tsapwe, de 9 anos, Chipiri, também com 8 anos e Ramadi seu filho mais velho, já casado com Luísa e seu filho Manuel, com um ano, O sangue jorrava dos corpos quando as balas de 7,62 os trespassavam. Os braços erguiam-se, como que num baile do Inferno. Xuvalu, sua mulher Mwataika e Xavier, irmão mais novo do machambeiro, foram também dos primeiros a cair. Akimo e sua mulher Joana, tombaram logo a seguir. Birifi, Kundani, Pita, Nsembera, Batista, Mechenga… 60 corpos empilhados.

O capitão Alves, mandou cessar fogo. Ainda havia muitos sobreviventes, talvez duzentas pessoas ilesas ou pouco feridas, juntas em pequenos grupos familiares, tremendo, chorando . O capitão disse que ia levá-los para um aldeamento vizinho. Foi quando, indiferente à ordem e anulando-a, a voz do agente Nachawi da D.G.S., se ouviu rouquejar pela primeira vez:

            – Phani wense! Phani wense! – Matai-os a todos! Matai-os a todos! Que não fique nenhum. Os que se poupam, são os que nos denunciam.

Os soldados hesitaram. Nachawi continuou a berrar:

– Phani wense! Phani wense!

A festa mal havia começado.

 

No próximo capítulo: os«trâmites legais» de um achado macabro.

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