Site icon A Viagem dos Argonautas

A ESTUPIDEZ É UM CÃO FIEL – 15 – por Sérgio Madeira

imagem163[1]

Nos capítulos anteriores – Em Abril de 2009, acobselhado por Alfredo Nunes, seu médico e companheiro das lutas académicas, António Amaral está no Porto Santo, convalescendo de um pequeno acidente cardiovascular. Numa das primeiras manhãs em que faz jogging no extenso areal, encontra um cadáver – um homem morto tiro. Participa à autoridade marítima. Nos dias seguintes, as ivestigações decorrem e vai conhecendo pessoas na ilha, o pianista do hotel, o tenente que comanda o posto da Polícia marítima… Noutro plano narrativo, volta-se a 1972 onde, em Moçambique, se desenrola uma operação militar contra uma aldeia que, se pensa abrigar um líder da guerrilha. Enquanto, em 2009, António vai com sua mulher, Cecília, vivendo a tranquilidade de Porto Santo, em Xuvalu, a aldeia-alvo da operação das tropas especiais, está em curso, um inferno de fogo e de sangue. Durante o massacre, as tensões entre militares e agentes policiais vão surgindo… Mas a calma de Porto Santo vai ser abalada e o rescaldo de Xuvalu parece problemático.

Décimo quiinto capítulo

           .Porto Santo, quinta-feira 16 de Abril de 2009

Completava-se a primeira semana de férias. Pela primeira vez desde há muito tempo,  António dormira durante tanto tempo. as noites de um só sono e sem a ajuda de quaisquer tranquilizantes, antidepressivos ou soníferos. O corpo, inusitadamente castigado pelas caminhadas, estava a corresponder bem ao que dele se esperava.  O tempo continuava fresco, um pouco ventoso e enevoado, mas, apesar disso, mantinha-se  muito ameno e agradável. Tomado o pequeno almoço no salão aberto para a praia – cereais, frutas e iogurte – foi ao quarto ler a edição on-line dos diários nacionais. Nada de importante naqueles primeiros dias fora do Mundo: nos mares do golfo de Aden e da Somália continuava a pirataria, o ataque a navios mercantes. Uma fragata portuguesa integrava a frota que a Nato mobilizou para combater o flagelo. Para ele a notícia mais sensacional, fora a derrota do Benfica em casa, frente à Académica. Os «lampiões» tinham-se despedido da já remota hipótese de ganhar o título. O seu Sporting ganhara à Naval em Alvalade. Apressara-se, no próprio sábado à noite, a telefonar ao Alfredo, picando-o. O médico não se dera por achado: – «Vê lá se tanta alegria não faz mal ao teu coração de lagarto».

Enquanto passava em revista os acontecimentos da semana, vestiu o fato de treino, calçou sapatilhas desportivas. Iniciou a caminhada matinal pela praia,  indo em passo acelerado,  mas sem correr (conforme lhe recomendara o médico).  Cecília ficou junto da piscina, lendo. António, fez a sua marcha sempre pela areia junto à rebentação das fracas ondas,  pois o piso endurecido pela água tornava a marcha mais fácil e agradável. Ia assim, cogitando enquanto caminhava com o passo acelerado de quem vai atrasado para um encontro,  até junto dos apartamentos Luamar,  a cerca de três quilómetros para oeste do hotel.  Ao fundo, a silhueta do ilhéu de Baixo parecia-lhe sempre a de um grande réptil pré-histórico imóvel,  fitando o horizonte,  como que pronto a devorá-lo. O telemóvel tocou – nunca mais deixara de o trazer consigo desde o seu sinistro achado. Era Paulo Fragoso, o tenente da Marinha, comandante do posto de Polícia Marítima:

– Estou a vê-lo com os binóculos – e acrescentou – estou na esplanada do Pôr – do – Sol. Temos novidades.

Exit mobile version