A ESTUPIDEZ É UM CÃO FIEL – 64 – por Sérgio Madeira
carlosloures
Capítulo sessenta e quatro
Norberto de Sousa quando, na Rua Nachinwea, nas proximidades do Ministério da Defesa, ligara a ignição do seu carro, provocara uma explosão que o deixara entre a a vida e a morte. Uma grave lesão na espinal medula, deixara-o paraplégico. Outra sequela, devido a um estilhaço, fora a ablação de cordas vocais que provocavam uma voz rouca. E foi com essa voz, quase metálica, que dissera ao tenente Fragoso que o general Nachawi decerto se esquecer de lhe dizer que o capitão Lopes fora por ele degola, que o «suicídio» do major Sousa fora por ele encenado, e que fora ele, Nachawi, quem armadilhara ou mandar armadilhar o seu carro, que Maria for morta em sua casa, por assaltantes a seu mando…
«Não, não sei nada disso…» dissera o tenente. Ao que Ramos opusera: «Talvez não saiba, tenente, mas do sargento Costa e do padre Manuel, o senhor não pode dizer que não sabe». O tenente ficara em silêncio. E Norberto contou como, sabendo Nachawi que, ao ficar sem Maria, Francisco fora viver para Porto Santo. Onde Manuel já vivia. Ambos tinham ido para a ilha, aconselhados por Alfredo. Obcecado pelo seu desejo de vingança, Nachawi que, a despeito das diligências de Norberto para o desmascarar, continuava se considerado um herói da luta de libertação, convenceu o tenente Fragoso a solicitar a sua colocação no comando da Capitania do Porto Santo, que ia vagar. Colocava, deste modo, no terreno um observador que lhe iria comunicando as movimentações dos seus alvos. E, informalmente, no Maputo, num almoço com o adido militar português, com quem negociava compra de material para as forças armadas, dissera do seu empenho em que o filho de um amigo fosse colocado na Capitania de Porto Santo. Enquanto Norberto de Sousa falava, o tenente Fragoso mantivera-se em silêncio. E assim continuou quando o professor prosseguiu a sua narração. – E o tenente foi fazendo o que Nachawi lhe pedia. Informou-o de que Francisco tinha o hábito de, cerca das sete e meia da manhã sair de sua casa, atravessar a estrada e caminhar pela praia – mais um conselho do Alfredo. Quando Alfredo escreveu ao antigo comandante da Capitania, recomendando que ajudasse António Amaral naquilo que ele precisasse – e escreveu também para Francisco e Manuel no mesmo sentido – o tenente abriu a carta e comunicou a Nachawi o pedido de Alfredo. Tentou que o tenente matasse Francisco, mas Fragoso Câncio recusou…
Elisabete afagou a mão do marido. Com voz perturbada, o tenente perguntou:
– E como sabe o senhor tudo isso?
– Muito simples – escuta telefónica. Consegui que o ministro da Justiça as autorizasse. Quando, provada a razão de ser das minhas dúvidas, se quis deter o general Nachawi, ele já não estava no país. Viera ele tratar do que o tenente se recusara a fazer. Francisco, correspondendo ao pedido de Alfredo, esperava que António chegasse perto do café para se apresentar e oferecer os seus préstimos. Talvez tenha visto o homem que, vindo da estrada paralela à praia, se encaminhava na sua direcção. Terá pensado que era António? De qualquer modo, quando o homem se aproximou, não viu que de um homem idoso e coxo lhe pudesse vir algum perigo. E quando, talvez ao reconhecer naquele negro o agente Nachawi, se apercebeu do perigo, já nada podia fazer senão morrer com dignidade.
António em silêncio desde o princípio da reunião, perguntou:
– E na piscina do hotel?
– Quando, pouco tempo depois de aqui chegar, estava no salão á espera de que o Manuel viesse tocar, pois ainda não nos tínhamos encontrado, recebi no telemóvel uma mensagem dele – «Estou junto da piscina, como pedias no teu recado».. Eu não lhe mandara qualquer recado e percebi que se tratava de uma armadilha. Enquanto dava velocidade à cadeira, tentei contactá-lo… Já perto ouvi os dois tiros.
Nachawi não me ouviu chegar e preparava-se para desfechar um terceiro tiro, o de segurança, na cabeça de Manuel. Gritei o seu nome e ele voltou a cabeça na minha direcção – «Só faltas tu e o médico…” . Não disse mais porque…
– Bem ,bem – Atalhou Ramos – Não quero ouvir mais nada. A Judiciária tem fama de não resolver os casos bicudos e não quero estragar a reputação da instituição. Espero que o tenente Fragoso Câncio peça a demissão do cargo, que o professor Sousa regresse ao seu país e que esta ilha volte a ser tranquila. A ilha dourada, como lhe chamam.
Epílogo
– A estupidez é um cão fiel! – O Professor Sousa fumava um dos seus cigarros escuros e de odor intenso.
– Acha? – perguntou Cecília
– Tenho a certeza. Acompanha-nos desde o berço e só se despede junto do leito de morte, após nos ter seguido como uma sombra durante toda a vida.
– A todos nós? – Alfredo tinha um ar divertido – não estarás a exagerar?
– Claro. Á humanidade em geral – Sousa parecia não dar demasiada importância ao seu discurso.
– Mas, às vezes somos inteligentes… Cecilia insistia – Shakespeare, Goethe, Curie…
– Isso é verdade. O cão distrai-se a mijar num candeeiro – desculpe o plebeísmo -. Mas, depois, lá vem ele a saltitar. Os cães e as ideias estúpidas possuem um enorme poder de sedução. Um cão pondo a cabeça de lado e olhando-nos como se nos quisesse compreender e uma ideia que nos surge como luminosa, são irresistíveis…
E concluiu o raciocínio:
– A vingança é uma ideia estúpida. Mas a nossa espécie cujo traço distintivo é a inteligência só é seduzida por ideias estúpidas e, como fazemos aos cães, afagamos o dorso dessas ideias…
O aeroporto de Santa Catarina do Funchal não é grande. Cecília, desinteressada da dissertação, ligou para a filha e iniciou uma longa conversa. António fez-lhe sinal de que iam beber um café. Cecília assentiu, compreendera. E enquanto o marido, Alfredo e Sousa se dirigiam ao bar, continuou a falar com Noémia animadamente.