A arte, neste caso o teatro, não poderá ser feita por todos – profissionais e não profissionais?
E não será que a quantidade (também ou sobretudo de não profissionais que o vão fazendo) se pode transformar em qualidade do Teatro, o que inclui evidentemente diversidade, novidade, renovação na forma de o fazer?
Assisti há uns dias ao espectáculo Ilusão (textos de Garcia Lorca montados e encenados por Luis Miguel Cintra no Teatro da Cornucópia) e fiquei mais contente do que é habitual. É que o Teatro (ainda) existe. Com apoios ou sem apoios. Rico ou pobre. Riquíssimo ou miserável. Feito por quem sabe e quem não sabe. Com longas experiências de uns, e muito curtas de outros. Com muito pensamento de uns e com pouquíssimo de outros. Mas com corpo, voz, olhos, vida de todos. E vontade.
É provável que os quase 60 participantes de Ilusão (falo dos que estavam em cena, e só 1 era profissional, e claro que houve outros a trabalhar para o espectáculo existir…) tenham encontrado razão para viver, pelo menos durante um tempo.
E é provável que os estudantes de teatro que participaram tenham aprendido mais naquele curto tempo do que no currículo escolar a que estão obrigados para obter a «carteira profissional» e arranjar emprego (que arranjarão ou não).
É provável que os de mais de 60 ou 70 ou 80 anos que lá estavam a contracenar, ao sair de casa e ao fazer com outros e para os outros qualquer coisa, esta Ilusão, tenham encontrado ou reencontrado uma alegria perdida.
É muito provável. E, se eles ficaram alegres, nós público (que também poderíamos ter sido actores) ficámos contentes. Mesmo que o mundo não tenha mudado por isso.
Não gosto particularmente do Dia Mundial do Teatro. (Mas às vezes dá jeito ele existir para fazer e dizer coisas que de outra maneira não se fariam nem diriam).
Como também não gosto particularmente do Natal, nem do dia disto e daquilo… É a tal coisa: ou é todos os dias e entra nas vidas das pessoas, ou então não é.
Mas estou ansiosa (contradições) por ver o que aqui na Casa da Achada-Centro Mário Dionísio vai ser feito nesse dia, um «Ensaio Aberto» (que, se fosse um espectáculo se chamaria Liberdade, diz quem o está a fazer), resultado do trabalho de uns quantos durante uns meses – uns mais novos e outros mais velhos, uns mais vizinhos e outros menos, uns com mais saber e outros com menos, uns com mais experiência de palco e outros com muito menos.
Vários foram incentivados por uma Kantata de Algibeira feita por muita gente daqui ao pé, que estreou no Dia da Música, por sinal, no São Luiz. E depois se repetiu aqui ao lado, no Largo da Achada. Muitos dos «cantantes» nunca tinham tido público em frente, muitos nunca tinham sequer entrado no São Luiz, Teatro Municipal…, nem para o 2º balcão…
O texto era sobre o dinheiro. Foi Regina Guimarães que o escreveu. A música, bem diferente da que grande parte dos «kantantes» costuma ouvir, composta por um músico: João Paulo Esteves da Silva. Piano de cauda no Teatro, acordeão no Largo. Os dois instrumentos tocados pelo compositor. Margarida Guia, actriz francesa luso-descendente, «encenou», como se costuma dizer (mas ela não gosta de dizer), cinquenta vozes estranhas que não mudavam de lugar. Mais faladas do que cantadas.
E muitos quiseram (e puderam) continuar… Veremos o «ensaio aberto» do dia 27 de Março, Dia Mundial do Teatro. Uma continuação, agora com o F. Pedro Oliveira a «moderar».
Serve ao menos para isto esse Dia Mundial do Teatro: para contarmos histórias pequenas uns aos outros e sabermos o que se vai fazendo por esse mundo fora, mesmo quando o que se faz não aparece nos jornais.
8 de Março 2014

