A tarde estava pardacenta ameaçando chuva, e nem sequer convidava à contemplação da natureza apesar do rebentar colorido de Abril.
Encostei-me à ombreira da porta da sala, ao cimo das escadas, entrada que fora sempre a principal da casa. Há muitos anos que o deixara de ser. Pelo piso de baixo era mais rápido e prático. Aquela porta raramente se abria, apenas em dia de Páscoa para deixar entrar o folar.
Sentei-me na soleira, à espera de um amigo que me havia de transportar umas telas e uns cavaletes.
Ouvia a passarada, o chincharrabelho ao desafio com melros, papo-amarelos, verdilhões, um coro de vozes por ali dispersas, quando, de repente, no quintal vizinho em cima do combro me apareceu um carneiro de cornos retorcidos a olhar espantado para mim, berrando mé, mé , mé… Percebi que lhe era estranha, porque ali à porta nunca terá ele visto vivalma há que séculos.
Perguntei-lhe o que queria, pois estava no que era meu. Ele continuou a desafiar-me.
Curiosamente veio uma ovelha e enfrentou-me com a mesma altivez badalando mé, mé ,mé…
Mais surpreendida fiquei quando um cordeirito se juntou aos pais balindo com voz débil de menino, mas de focinho erguido parecia exigir igualmente satisfações do que eu porventura ali estivesse a fazer.
Disse-lhes várias vezes que estava no que era meu, mas os três insistiam em desafiar-me.
Fiquei sem saber ao certo se me cumprimentavam, satisfeitos com a minha presença, ou se me insultavam por lhes perturbar a paz como intrusa.
De repente cansaram-se, o carneiro virou costas, logo seguido pela mulher e pelo filho.
Fechei a porta, desci a escada, cortei umas hastes da trepadeira amarela e ouvi ao longe os guizos do rebanho na tranquilidade da tarde.
Carneiros…pensei eu…
Veio-me à cabeça Zeca Afonso: mudem de rumo, mudem de rumo…