Seleção e tradução de Francisco Tavares
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Texto 19. DIAS 25-29: GUERRA CONTRA O IRÃO — Remodelando o Médio Oriente
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Iranianos e sauditas vêem na guerra uma oportunidade histórica para remodelar a região. O Irão quer a saída dos EUA e das monarquias do Golfo, enquanto os sauditas querem o controle. Israel tem as suas próprias ideias, escreve Joe Lauria.
De terça-feira, 24 de março, a domingo, 29 de março.
Após o primeiro mês, a guerra no Médio Oriente evoluiu para uma batalha entre nações com visões conflituantes sobre como remodelar a região.
A Arábia Saudita procura influenciar, senão dominar, os governos árabes desde o Norte da África até o Golfo.
O Irã quer a retirada completa das forças militares dos Estados Unidos da região e garantias de segurança para libaneses, palestinianos, iemenitas, bahranianos e para o próprio país.
Enquanto isso, Israel conspira para controlar toda a região.
De volta a Washington, Donald Trump luta por uma saída para o desastre que criou, enquanto os sauditas, iranianos e israelitas, com os seus próprios motivos, querem que a guerra continue.
Sauditas dizem a Trump: Continue a Lutar
O príncipe herdeiro Mohammed bin Salman, governante de facto da Arábia Saudita, tem pressionado Trump para que continue a combater o Irão devido a uma “oportunidade histórica” para a Arábia Saudita poder remodelar o Médio Oriente, informou o The New York Times na terça-feira.
O jornal dizia:
“Numa série de conversas ao longo da última semana, o príncipe Mohammed transmitiu ao Sr. Trump que ele deve pressionar pela destruição do governo linha-dura do Irão, disseram pessoas familiarizadas com as conversas.
O príncipe Mohammed, segundo fontes familiarizadas com as discussões, argumentou que o Irão representa uma ameaça de longo prazo para o Golfo, que só pode ser eliminada com a queda do governo. […]
O príncipe Mohammed argumentou que os Estados Unidos deveriam considerar o envio de tropas ao Irão para tomar o controle da infraestrutura energética e forçar a saída do governo do poder, de acordo com pessoas informadas por autoridades americanas. […]
Alguns analistas de inteligência do governo [dos EUA] disseram a outros funcionários que acreditam que o príncipe Mohammed vê a guerra como uma oportunidade para aumentar a influência da Arábia Saudita em todo o Médio Oriente e que ele acredita que a Arábia Saudita pode protege-ser mesmo que a guerra continue. […]”
A Visão Saudita
O facto de bin Salman querer que a guerra continue, apesar do discurso errático de Trump sobre supostas “negociações de paz”, confirmaria uma reportagem do Washington Post de que bin Salman teve influência para que Trump iniciasse o ataque.
Os sauditas, ricos em petróleo, procuram há décadas exercer influência sobre a região, começando com os esforços para combater o movimento secular e republicano de Gamal Abdel Nasser, no Egito, após a tomada do poder por Nasser em 1952. A Doutrina Eisenhower de 1957 apoiou os sauditas e outras monarquias regionais contra o nasserismo e a suposta influência soviética.
Egito e Arábia Saudita entraram em conflito direto na guerra civil do Iémen na década de 1970, entre monárquicos e republicanos. Após a morte de Nasser em 1970, as relações entre a Arábia Saudita e o Egito se normalizaram sob o governo pró-EUA de Anwar el-Sadat. Ao longo da década de 1970, os sauditas ampliaram sua influência sob a égide dos EUA e normalizaram as relações com o Egito e o Irão do Xá.
Mas, após a revolução iraniana de 1979, as relações deterioraram-se. O aiatola Ruhollah Khomeini chamou aos sauditas “lacaios americanos” e “desviantes wahabitas”. Assim, o Irão passou a ser visto em Riade como um obstáculo à influência regional da Arábia Saudita.
Destruir a revolução iraniana era o objetivo da Arábia Saudita. O país ajudou a armar e financiar o Iraque de Saddam Hussein para invadir o Irão em 1980, com o objetivo de esmagar a revolução que durava apenas há um ano.
Na década de 1980, os sauditas apoiaram os mujahidin na guerra contra os soviéticos no Afeganistão. Nessa década, os sauditas expandiram a sua influência por toda a região e no exterior com o seu projeto bem financiado de disseminação da sua versão austera do islamismo wahabita.
A rivalidade com o Irão xiita levou a guerras por procuração em toda a região, particularmente após 2011 na Síria, Iraque e Iémen. Nesses locais, grupos terroristas sunitas apoiados pela Arábia Saudita (e outros países do Golfo), como o Estado Islâmico e a Al-Qaeda, e seus derivados, lutaram contra milícias apoiadas pelo Irão no Iraque e no Iémen, e contra o governo na Síria. Os interesses iranianos e sauditas também entraram em conflito no Líbano e no Bahrein.
‘A Cabeça da Serpente’
Após o derrube de Saddam Hussein pelos EUA em 2003 (com o apoio da Arábia Saudita), que levou ao aumento da influência do Irão no Iraque, as intenções sauditas em relação ao Irão foram reveladas num telegrama dos Estados Unidos amplamente citado que foi divulgado pelo WikiLeaks em 2008:
“[O embaixador saudita nos EUA, Adel] Al-Jubeir lembrou as frequentes exortações do rei [saudita] [Abdullah bin Abd al-Aziz] aos EUA para atacar o Irão e, assim, pôr fim ao seu programa de armas nucleares. ‘Ele disse para vocês cortarem a cabeça da serpente’, lembrou ele ao encarregado de negócios, acrescentando que trabalhar com os EUA para reduzir a influência iraniana no Iraque é uma prioridade estratégica para o rei e seu governo.”
O facto de Bin Salman ter dito a Trump na semana passada para manter a guerra em andamento por causa de uma oportunidade histórica de, essencialmente, cortar a cabeça da serpente em Teerão está totalmente de acordo com esse histórico. Esta é a melhor oportunidade que os sauditas podem ter de esmagar o seu principal obstáculo à liderança da região.
A visão do Irão
O Irão também quer prolongar a guerra porque acredita estar a vencer e ter uma oportunidade histórica de remodelar a região, exigindo a retirada das tropas americanas. Essa seria uma mudança histórica monumental que transformaria a região de forma semelhante ao que aconteceu quando franceses e britânicos deixaram o controle direto do Médio Oriente no início e meados do século XX.
O Irão já causou danos significativos às bases e equipamentos dos EUA no Golfo. Até mesmo o The New York Times admite isso.
“Muitas das 13 bases militares na região usadas pelas tropas americanas estão praticamente inabitáveis, sendo que as do Kuwait, país vizinho do Irão, foram talvez as que sofreram os maiores danos.”
O Irão continua a atacar essas bases, tendo destruído sistemas de radar americanos extremamente caros, necessários para interceptar mísseis. No sábado, destruiu um radar em operação, um avião AWACS E-3 Sentry, no solo da Base Aérea de Sultan, na Arábia Saudita. Custo: 540 milhões de dólares. Ele estava a substituir o radar que o Irão já havia destruído.
Reparar todos esses danos das bases americanas já custaria milhares de milhões de dólares.
Após esse desastre, valeria a pena para os EUA reconstruir as bases? Os estados árabes do Golfo quereriam essas bases de volta que lhes trouxe desastre em vez de proteção?
As tropas americanas estão agora deslocadas, alojadas em hotéis que são alvos do Irão. As forças americanas já estão a deixar o Iraque. As únicas tropas americanas que permanecem estão no norte curdo autónomo, que está a ser atacado por milícias iraquianas aliadas do Irão.
A visão de Israel
O desejo de Bin Salman coincide com o de Netanyahu de prolongar a guerra. Temendo que ela termine em breve, o jornal Haaretz noticia que Netanyahu está a intensificar a campanha de bombardeamentos de Israel sobre o Irão.
Netanyahu disse que vinha tentando desde há 40 anos convencer os EUA a juntarem-se ao ataque de Israel contra o Irão, mas todos os presidentes se recusaram porque foram informados das consequências: bases americanas destruídas, devastação de partes de Israel e dos estados do Golfo e uma crise económica global de proporções históricas quando o Irão fechasse o Estreito de Ormuz.
Então Netanyahu encontrou Trump. Os resultados são exatamente os que haviam sido alertados a todos os presidentes.
Mas este é o momento de maior oportunidade histórica para um Israel que — desde os tempos do primeiro-ministro David Ben Gurion — vislumbra a construção de um Grande Israel bíblico, que se estenda do Nilo ao Eufrates.
Com os extremistas que reuniu no seu governo, Netanyahu tem-se arriscado ao máximo, começando com a limpeza étnica e o genocídio em Gaza, depois os pogroms anti-palestinos na Cisjordânia e agora a agressão não provocada contra o Irão e a invasão do Líbano.
Há apenas sete meses, Netanyahu foi questionado na televisão israelita se ele aderia a uma “visão” para um “Grande Israel”. Netanyahu respondeu: “Absolutamente”.
Questionado se se sentia conectado à visão do “Grande Israel”, Netanyahu respondeu: “Muito”. As suas respostas provocaram indignação na região. Mas ele afirmou-as.
Na sua agora infame entrevista com Tucker Carlson, Mike Huckabee, o embaixador dos EUA em Israel, presumivelmente falando em nome dos Estados Unidos, disse que “não haveria problema se eles [Israel] ficassem com tudo”, quando questionado por Carlson sobre as reivindicações bíblicas de território entre o Nilo e o Eufrates.
Para conquistar o Grande Israel, Tel Aviv precisa que os Estados Unidos lutem por ele. Para os Estados Unidos, o Médio Oriente é uma parte vital do seu império global, que Israel pode administrar em seu nome, integrando os seus impérios regionais e mundiais.
Mas existem diferenças. Trump precisaria impedir a destruição de mais instalações energéticas tanto do Irão como dos países do Golfo se quiser estabilizar os preços do petróleo — que subiram 50% num mês — e confiscar os depósitos iranianos.
Ele declarou ao Financial Times no domingo que deseja “tomar o petróleo do Irão” e que a sua “preferência seria tomar o petróleo” da mesma forma que tomou o da Venezuela.
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Mas porque se importaria Netanyahu com a destruição da espetacular riqueza petrolífera dos árabes do Golfo, quando o desejo de Israel desde o Plano Yinon de 1982 e o documento político de 1996, “Uma Ruptura Limpa: Uma Nova Estratégia para Garantir o Domínio”, tem sido reduzir as terras muçulmanas vizinhas à ruína, para melhor projetar o domínio israelita sobre todo o Oriente Próximo e seus recursos?
A maior diferença entre Israel e os EUA neste momento é que Trump quer sair do caos que criou, enquanto Netanyahu precisa que os EUA continuem a atacar o Irão para alcançar os seus objetivos expansionistas, mesmo que os mísseis defensivos israelitas estejam a diminuir e os danos causados por mísseis e drones iranianos a Israel se multipliquem diariamente.
Três cenários
Existem várias maneiras pelas quais isto poderia desenrolar-se. Primeiro, o Irão vence, pois continua a pressionar a sua aparente vantagem em mísseis para causar danos contínuos a Israel, aos estados do Golfo e às bases americanas.
Parece impossível de imaginar, mas se Israel e os EUA não optarem por uma guerra total devido à frustração por não conseguirem derrubar o governo iraniano e por estarem sem mísseis interceptores, o Irão poderia alcançar uma vitória quase impensável, forçando as forças militares americanas a deixarem o Médio Oriente.
Poderá haver uma nova vitória iraniana se Israel for expulso do Líbano e se algumas ou todas as monarquias do Golfo entrarem em colapso.
Em segundo lugar, a Arábia Saudita pode sair vitoriosa se o Irão for derrotado, o seu governo e a sua economia entrarem em colapso e um regime pró-EUA for instalado. Seria vantajoso se a Arábia Saudita sofresse menos danos do que Israel e as outras monarquias.
Mas o colapso do Irão também é o que Israel deseja. Assim, os dois aliados dos EUA podem acabar disputando o controle da região. A diferença é que a Arábia Saudita teme um Irão desestabilizado e fragmentado em enclaves étnicos, enquanto Israel aparentemente busca precisamente isso.
Terceiro, o Irão e os estados do Golfo, incluindo a Arábia Saudita, são devastados, o Hezbollah é derrotado e Israel escapa de grandes danos. Com o apoio dos EUA, Israel emerge como a força predominante no Médio Oriente, estabelecendo um Grande Israel sobre uma região devastada.
Mas existe uma quarta possibilidade.
Guerra total
Nesse cenário, ninguém emerge como um vencedor claro, com devastação total por todos os lados. Isso pode ocorrer se os Estados Unidos e Israel lançarem uma ofensiva aérea total e contínua contra a infraestrutura civil do Irão, até que as suas instituições sejam destruídas e o Irão deixe de ser uma sociedade funcional.
Curdos, azeris e balúchis armados poderiam tentar assumir o controle das suas áreas. Mas, nesse processo, Israel e os estados do Golfo também seriam devastados pelo Irão.
Caso o Irão não demonstre ter desenvolvido um número suficiente de ogivas nucleares operacionais até lá, Israel poderá despoletart uma arma nuclear contra o Irão — se Israel considerar que a sua existência está em risco.
Em que ponto estamos? Os EUA ‘a negociarem consigo mesmos’
A situação está a ficar cada vez mais tensa. Os houthis entraram na guerra nos últimos cinco dias e ameaçam bloquear o Estreito de Bab el-Mandeb, no fundo do Mar Vermelho, por onde passa até 12% do comércio marítimo mundial, após atravessar o Canal de Suez.
Trump estendeu o seu prazo bastante flexível até 6 de abril antes de decidir se atacará fábricas e infraestrutura energética iranianas. O Irão ameaçou retaliar contra instalações de energia no Golfo e também atingir fábricas de dessalinização, o que poderia causar uma catástrofe humanitária.
Esse seria o caminho para a guerra total.
Neste momento, ninguém sabe em que acreditar diante do que um Trump cada vez mais desequilibrado diz. Ele afirma que os EUA estão em negociações diretas com o Irão, mas os iranianos dizem que os EUA estão a negociar consigo mesmos. Apenas mensagens estão a ser transmitidas de um lado para o outro por meio dos paquistaneses.
Os Estados Unidos estão a enviar mais tropas terrestres para a região do Golfo, mas o Secretário de Estado Marco Rubio afirma que não há necessidade de uma invasão por terra. Parece não haver nenhum lugar que os EUA possam invadir sem enfrentar um banho de sangue.
Apesar da bravata de Trump e do Secretário de Guerra Pete Hegseth, que declararam vitória na reunião de gabinete de quinta-feira — vangloriando-se de que a marinha, os estoques de mísseis e os lançadores do Irão foram destruídos —, o Irão continua os seus ataques contra instalações militares americanas e Israel, atingindo novamente Dimona.
Trump tenta rir quando, nervoso, diz à câmara durante a reunião de gabinete: “Li uma notícia hoje dizendo que estou desesperado para fechar um acordo. Não estou. Estou longe de estar desesperado. Não me importo. … Eles [os iranianos] foram massacrados. Estão a implorar por um acordo. Eu não. Eles é que estão a implorar para chegarmos a um acordo.”
Uma trégua de Páscoa
Existe outra opção para o desesperado Trump sair desta situação sem uma saída humilhante da guerra, que seria vista como derrota por todos, exceto por ele e seus comparsas. Isso também poderia evitar uma guerra total e o possível cenário nuclear.
Isso seria anunciar que a guerra não acabou, mas que os EUA iniciarão uma pausa unilateral — uma trégua de Páscoa — durante a qual Washington reavaliará a situação do conflito.
O Irão pode continuar a atacar por um ou dois dias, mas o seu objetivo imediato foi sempre causar danos suficientes ao outro lado para que este cesse a agressão.
Se a agressão for suspensa, poderá abrir-se espaço para negociações genuínas que visem encontrar um compromisso para superar este perigo extremo para todos. O Irão poderia incluir nas negociações a exigência de que as forças militares dos EUA deixem a região. Caso os EUA se recusem, o Irão poderá retomar os combates em vantagem.
Domingo que vem é Páscoa.
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O autor: Joe Lauria é editor chefe do Consortium News e antigo correspondente da ONU para o Wall Street Journal, o Boston Globe e numerosos outros jornais, incluindo The Montreal Gazette e The Star of Johannesburg. Foi repórter de investigação do Sunday Times de Londres, repórter financeiro da Bloomberg News e começou o seu trabalho profissional como freelancer de 19 anos para o New York Times. É autor de dois livros, A Political Odyssey, com o senador Mike Gravel, prefácio de Daniel Ellsberg; e How I Lost de Hillary Clinton, prefácio de Julian Assange.
