Como reacção ao texto de ontem de Introdução a François Morin recebo de um professor universitário o texto abaixo citado que é inserido na resposta que lhe foi enviada e que aqui é agora apresentada.
Caro Colega e Professor XXXX
Li o seu email onde diz:
Agrdeço pare de me enviar este spam de propaganda política. Grato.
Melhores cumprimentos,
Assinado XXXX
“Este spam de propaganda política”. Li e reli o meu próprio texto em questão, de que nada terá gostado, ou seja Este spam a que se refere, e que dá pelo nome de Nota de Introdução ao texto de François Morin. Sinceramente, não o entendi, não percebi o seu curtíssimo texto.
A acusação de lixo político tem o direito de a pensar, tem o direito de a afirmar, mas no mínimo estando-se numa Universidade, e estamos os dois, o mínimo exigido seria admitir que tinha a obrigação de a provar. Intelectualmente é o mínimo. Não o fez, faço-o eu, à contrário.
Li e reli o texto em questão e não o entendi: já agora leio no Le Monde de ontem “ a Grécia não voltará aos mercados antes de2020” de acordo com um documento oficial. A eficácia da política seguida pela Troika, senhor professor, é pois bem evidente. E a eficácia para Portugal?
Li reli o texto em questão e não o entendi, mas leio no Wall Street Journal de 14 de Outubro de 2011, pela mão de Stephen Fidler:
“ Nos seus sucessivos esforços para chegar a uma solução para a crise da dívida, os governos europeus têm vivido obcecados com determinados objectivos que têm tornado a sua tarefa mais difícil. A insistência na notação triplo-A para financiar o resgate financeiro da zona euro é um exemplo, um outro é a obsessão em não desencadear os pagamentos sobre os Credit Default Swaps (CDS).
Com o seu mais recente debate sobre uma “solução global” para a crise que foi discutida em Bruxelas hoje, alguns funcionários ainda parecem estar a tentar evitar o “acontecimento de crédito” na Grécia, que levaria ao pagamento dos CDS. “
A minha questão dos CDS passa pela análise de um sistema que tudo isto está a gerar e era dos CDS que se falava. E toda a gente percebe a questão da reestruturação informal e voluntária. Para não desencadear a arma mortífera que criaram, os CDS.
Li e reli o seu texto e não o entendi: já agora leio no mesmo jornal de 22 o seguinte: é necessário repor as regras de transparência, de responsabilidade, de moral, lá onde elas tinham desaparecido. Na economia real”, afirmou o Comissário Banier, a quem dirigi em tempos um apelo reproduzido no texto por si de lixo considerado.
Li e reli o seu texto e não o entendi: no mesmo jornal, pode-se ler que a directiva anterior, de 2007, deu origem à criação de múltiplas plataformas de trocas alternativas às bolsas, de que algumas dão pelo nome bem esclarecedor de dark pools, permitindo a troca de acções na opacidade total. Segundo os valores que circulam, entre 17 e 40 % das acções desapareceram dos radares das bolsas controladas, reguladas.
Li e reli o seu texto e não o entendi: segundo Castries “certos traders com programas de alta frequência podem lançar milhares de ordens para sentir e orientar o mercado, depois anular as ordens, a fim de ganharem com a variação artificial das cotações que eles mesmo criaram.” E isto é exactamente o equivalente que eu suponha para os CDS, o ignorante por mim bem assumido que nestas matérias sou.
Li e reli o seu texto e não o entendi. No mesmo dia , 22 de Outubro, Georges Ugeux, PDG de Galileo Global Advisors, escreveu o artigo : Eurozone: Sarkozy roule-t-il pour les banques françaises? , Le Monde, 22 de Outubro de 2011 onde se pode ler:
A 21 de Julho, na presença do Presidente de Deutsche Bank, Joseph Ackermann, representando o Institute Internacional of Finance e de Michel Pébereau, um acordo sobre “um sacrifício” de 21% tinha sido anunciado e concluído. Foi necessário três meses para que os Parlamentos nacionais aprovem este acordo. Mas não será aplicado. Voltaram-se a colocar as cartas na mesa. A Europa discute mas não é capaz de agir.”
O senhor Professor faz parte da minha lista de emails porque por mim foi convidado para comentador de uma conferência e de um filme, fabuloso, diga-se, chamado Last Train. Não o conheço, como sabe, conheço apenas um seu trabalho, a tradução de um autor asiático para mim emblemático, professor que numa manifestação de estudantes não abandonou o local, face à polícia de Estado, até à saída do ultimo estudante nessa praça praticamente bloqueada. Foi esse professor asiático convidado a vir a Coimbra, mas não pôde vir.
Criou-se pela minha parte uma empatia pessoal face a si devido a este trabalho e era esta a que justificava que permanecesse na minha lista de e-mails.. Mas falando por exemplo da China passou-se no You Tube um pequeno filme sobre uma criança massacrada por atropelamento de uma carrinha e passagem desta por cima da pequena criança que no chão permaneceu com 16 pessoas a passarem sucessivamente ao lado e a ignorá-la. Mas estamos a falar de um caso acontecido na segunda maior economia do mundo. Nesta sociedade não há nenhuma lei que sancione “ a não assistência a pessoas em perigo” E a criança morreu. Nessa sociedade pensa-se agora criar uma lei de “protecção aos bons samaritanos” pois são estes que afinal precisam de ser protegidos. Esta é a versão neoliberal do mundo do lado de lá, contra a do lado de cá, a que se referia o meu texto de que nada terá gostado.
Senhor Professor, li e reli o seu texto e não o entendi. Face a quem traduziu o autor asiático implicitamente citado só o posso entender como enviado por engano. E é em nome desta hipótese e desta empatia que lhe estou agora a responder. Se assim não foi, sou eu obrigado a considerar agora o curto texto como lixo político.
Confronte o meu texto em questão e as citações agora expostas e terá que concordar que de lixo esse texto não teria nada, ou então vivemos em planetas diferentes, mas senhor professor, planeta só há um, este em que habitamos.
E se não se trata de um engano, coisa em que francamente acredito, então esteja descansado que não o maçarei mais com leituras de que não terá nada gostado.
Saudações académicas.
Júlio Marques Mota
