
Está em movimento uma iniciativa destinada a conseguir a nomeação do Fado como Património Imaterial da Humanidade, “promovendo-se o seu estudo enquanto prática cultural vivida quotidianamente e a sua salvaguarda enquanto património intangível nacional e internacionalmente relevante”.
Cá do fundo da minha insignificância, não subscrevo.
Tal canção é caraterística de Lisboa ou, talvez mais restritivamente, de alguns bairros dessa cidade.
De um bastante extenso artigo na minha “fornecedora” INTERNET, transcrevo:
“As suas (do Fado) origens boémias e ordinárias, baseadas nas tabernas e bordéis, nos ambientes de orgia e violência dos bairros mais pobres e violentos da capital”…
“A primeira cantadeira de fado de que se tem conhecimento foi Maria Severa Onofriana. Cigana e prostituta, de família da mesma estirpe, cantava e tocava guitarra nas ruas da Mouraria, especialmente na Rua do Capelão”.
Acho profundamente errado – embora possam compreender-se os motivos da propaganda – que se queira fazê-la passar por canção nacional. Na minha opinião, nem regional!
Mas, do mesmo modo que as poucas vergonhas e os péssimos comportamentos registados na Assembleia da República não dizem nada bem do nosso País e do nosso Povo e não criam boa imagem no estrangeiro, assim também a “letra” de muitos fados (julgo que mais acentuadamente dos antigos, mas cantados já desde a minha adolescência e juventude) diria muito mal do nosso modo de ser, se os hábitos e práticas de alguns bairros de Lisboa, Mouraria, Castelo, Alfama, Madragoa, fosse o reflexo dos costumes e atitudes do Povo Português.
Não me sinto especialmente apetrechado para defender este ponto de vista. Mas espero que fique bem claro que me repugna o teor da letra de muitos “fadunchos”, embora ache que, mesmo os mais “repelentes”, têm música bonita, que entra bem no ouvido e é facilmente “assobiável”.
(Opinião aparentada tenho a respeito de muitas “letras” da canção de Coimbra. Talvez um dia lá vamos…)
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Deixem que substitua a minha “argumentação” pela citação de alguns bocadinhos do texto de alguns fados e “fadunchos”.
De um já bastante antigo, TUDO ISTO É FADO, de Aníbal Nazaré:
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“Mas vou-te dizer agora (o que é o fado):
Almas vencidas / Noites perdidas / Sombras bizarras / Na Mouraria / Canta um rufia / Choram guitarras / Amor, ciúme / Cinzas e lume/ Dor e pecado / Tudo isto existe / Tudo isto é triste / Tudo isto é fado.
(…) Não me fales só de amor / Fala-me também do fado / É canção que é meu castigo / Só nasceu pra me perder / O fado é tudo o que eu digo / Mais o que eu não sei dizer”.
Villaret, o grande João Villaret, não cantou um fado de Aníbal Nazaré e Nelson de Barros, disse-o:
Alguns versos do texto:
“Fado Triste / Fado negro das vielas / Onde a noite quando passa /
Leva mais tempo a passar” (…) “Se o fado se canta e chora/ Também se pode falar”
“Mãos doloridas na guitarra / que desgarra dor bizarra / Mãos insofridas, mãos plangentes / Mãos frementes e impacientes /
Mãos desoladas e sombrias / Desgraçadas, doentias / Quando há traição, ciúme e morte / E um coração a bater forte.”
“Mãos amorosas na guitarra / Que desgarra dor bizarra / Mãos frementes de desejo / Impacientes como um beijo / Mãos de fado, de pecado”
“Puxa a navalha, canalha / Não há quem te valha / Tu tens de morrer “…
Lucília do Carmo, grande intérprete da canção lisboeta e mãe de Carlos do Carmo (um dos promotores da iniciativa que quer transformar essa canção em PATRIMÓNIO IMATERIAL DA HUMANIDADE).
“Foi na Travessa da Palha / Que o meu amante, um canalha, / Fez sangrar meu coração: / Trazendo ao lado outra amante / Vinha a gingar petulante / Em ar de provocação”.
Era Alfredo Marceneiro que cantava:
“Fui de viela em viela / Numa delas, dei com ela / E quedei-me enfeitiçado… / Sob a luz dum candeeiro, / ‘Stava ali o fado inteiro,
Pois toda ela era fado. // Arvorei um ar gingão, / Um certo ar fadistão / Que qualquer homem assume. / Pois confesso que aguardei / Quando por ela passei / O convite do costume. / Em vez disso no entanto, / No seu rosto só vi pranto, / Só vi desgosto e descrença. / Fui-me embora amargurado / Era fado, mas o fado, /
Não é sempre o que se pensa”.
De Alfredo Marceneiro e Amália Rodrigues:
“Foi por vontade de Deus / que eu vivo nesta ansiedade./ Que todos os ais são meus,/ Que é toda minha a saudade./ Foi por vontade de Deus”.
Tenho a certeza de que haverá textos que documentem e alicercem melhor a minha opinião.
Se os Leitores se lembrarem deles… talvez alinhem ao meu lado e se recusem, como eu, a assinar a tal candidatura.
