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UM CAFÉ NA INTERNET – Novas Viagens na Minha Terra – Série II – Capítulo 6. Por Manuela Degerine.

 Um café na Internet

 

 

       

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Assistente social

 

O episódio da doença de Lyme não representou verdadeiramente a descoberta do serviço público português. Bom seria…


A minha mãe sofreu um AVC no dia 22 de Novembro de 2009 e, quando lhe deram alta no hospital, precisava com urgência de terapia da fala e do movimento. Mas como? Onde? Um assistente social informou que existe uma Rede Nacional de Cuidados Continuados Integrados, isto é, centros terapêuticos onde os doentes, num período curto mas intenso, beneficiam de tratamento especializado, deu-me um formulário para preencher, recomendou as unidades de Mafra, Bobadela e Figueiró dos Vinhos. Quando lhe entreguei a papelada, inquiri se podia acompanhar o processo, não, declarou ele, era urgente, insisti eu, a espera podia durar vários meses, preveniu ele. Isto passava-se no princípio de Dezembro. A minha mãe foi para casa e a vida tornou-se um inferno. Um dia encontrei uma antiga colega que ficou viúva com dois filhos.


– Levavas na mão uma garrafa de vinho ordinário? Então… Duvido que consigas alguma coisa. Para mim e para a tua mãe há taxas, impostos e contribuições… Não somos africanas, não nos drogamos, não temos dívidas, pois não? Eu antigamente fazia dons ao Banco Alimentar… Agora pago a prestação da casa, o gás, a água, a electricidade, os impostos, os meus transportes: restam-me cem euros por mês para encher três estômagos. Faço cada dia uma sopa de dois euros, dá para o jantar e para o meu almoço no emprego. Mais uma fatia de pão com manteiga… Comemos um pão de Mafra por dia: oitenta e seis cêntimos. Achas que alguém me ajuda? Os assistentes sociais entram, ah, tem uma casa bonita, é proprietária, só auxiliamos quem precisa…


Justifiquei, cá para mim, o desabafo com as dificuldades que ela enfrentava, sem me interrogar sobre os critérios ou a eficiência dos assistentes sociais. No fim do mês de Dezembro voltei contudo ao serviço social e perguntei se estava tudo em ordem. Cumpria esperar, repetiu o assistente. Esperei. Passaram-se os meses de Janeiro, Fevereiro, Março, Abril. Eu retornava ao hospital. Então? Nunca mais? Não é possível saber nada? Não, impunha-se apenas esperar e nada mais havia a fazer.

 

(Continua)

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