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Diário de bordo de 28 de Novembro de 2011

 

 

Em Bali, na Indonésia, o Comité Intergovernamental da Organização da ONU para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO) considerou ontem, o fado como Património Imaterial da Humanidade. É uma boa notícia, uma vitória da cultura portuguesa, vitória modesta, mas assinalável. Dentro do pequeno universo do nosso blogue, tentámos demonstrar que o fado não é um género exclusivamente lisboeta, é cantado em todo o País e em todo o mundo. Só a futebolização crescente da vida nacional explica certas reacções portuenses de repúdio e desvalorização. Como se o “Porto Sentido”, do Rui Veloso e do Carlos Tê, uma das mais belas canções portuguesas do século XX, não fosse um fado – só não o será porque os autores não o designaram como tal.

 

Porém não sabemos até que ponto esta decisão nos irá favorecer – a UNESCO é o braço cultural das Nações Unidas, mas é um membro esclerosado que já esteve para fechar as portas – O fado, o tango, o flamenco, o samba, são bem mais sólidos e duradouros do que a UNESCO. E dizemos isto com mágoa, pois a UNESCO é talvez o mais honrado organismo da ONU.

 

Nos anos 60, o boletim da UNESCO (em francês ou inglês) era uma fonte de notícias importante. A imprensa regional, vigiada pela Censura, transcrevia textos do boletim. Os censores, muitos deles coronéis reformados, ficavam baralhados, sem ousar cortar textos oriundos de uma agência das Nações Unidas. Os editoriais do director-geral, René Maheu (1905-1975) eram geralmente muito bem escritos e davam excelentes peças para as nossas páginas culturais (os blogues da época).

 

Pois a UNESCO está em perigo de vida. A  entrada da Palestina foi, no fim de Outubro, aprovada por 107 votos a favor, 14 contra e 52 abstenções (Portugal absteve-se) e os Estados Unidos não gostaram. Como represália imediata foi suspenso o pagamento de 60 milhões de dólares que estavam agendados para ser pagos em Novembro pelo governo de Washington. A ajuda anual dos Estados Unidos, cerca de 70 milhões de dólares, representa 22% do orçamento da organização.

 

A UNESCO foi a primeira agência da ONU a reconhecer o Estado Palestiniano, que se tornou o 195° membro da entidade. Brasil, China, Rússia, Índia e França estão entre os países que votaram a favor. Estados Unidos, Alemanha e Canadá  opuseram-se ao ingresso da Palestina como membro de pleno direito. A Itália e a Grã-Bretanha e Portugal abstiveram-se. Os Estados Unidos declararam que a adesão da Palestina é “prematura e contraproducente”.”Essa ação realizada hoje complica a nossa capacidade de apoiar os programas da UNESCO”, afirmou o embaixador americano na organização, David Killion. Duas leis americanas, do início dos anos 90, proíbem que o governo desembolse recursos em organizações da ONU que reconhecerem entidades não reconhecidas internacionalmente e que tenham em seus quadros de funcionários membros da Organização para a Libertação da Palestina (OLP).

 

Não é a primeira vez que os Estados Unidos suspendem a ajuda à UNESCO, pois boicotaram a instituição durante 18 anos, entre 1985 e 2003, alegando problemas de gestão da agência da ONU. O governo de Israel, que também anunciou cortar sua ajuda financeira, afirma que a iniciativa irá prejudicar as negociações de paz.

 

Na verdade, a vitória diplomática dos palestinianos na UNESCO poderá abrir caminho para o reconhecimento do Estado pelo Conselho de Segurança da ONU, conforme pedido apresentado em Setembro pelo presidente palestiniano, Mahmoud Abbas, e que está sendo discutido.

 

O que tem isto a ver com o fado? Apenas deixar duas  ideias: é uma honra para a nossa cultura ver uma expressão popular portuguesa ser reconhecida por um organismo como  a UNESCO; porém esta agência das Nações Unidas, que tem actividades mais importantes do que a de organizar listas de patrimónios imateriais, está em risco de ela própria se imaterializar.

 

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