Um café na internet
Padrão do cemitério
Visto-me às escuras, vou à casa de banho, arrumo o saco-cama e, antes das seis horas, estou na rua. Como uma sandes comprada ontem e bebo um pacote de leite com chocolate enquanto me dirijo para a Sé.
Ainda é de noite. As ruas estão desertas e, com poucos carros a circular, a arquitectura recupera a presença na cidade. Travessa da Bainharia, Largo de S. Domingos, Rua das Flores, Rua dos Caldeireiros, Rua da Cedofeita… Assisto ao nascer do sol reflectido nos edifícios da cidade do Porto.
Talvez possa afastar-me de Lisboa durante quinze dias – não mais. Se conseguir percorrer algumas etapas duplas, dará para caminhar do Porto a Finisterra. A manhã parece-me fresca e a mochila leve. Os pés não me doem – por enquanto. Faz hoje um ano que percorri a etapa de Vilarinho a Barcelos com o meu amigo Sérgio. Que encontros, que descobertas, que surpresas terei durante os próximos dias? Sinto-me agora confiante e eufórica com esta liberdade.
Longuíssima é a saída do Porto. Passo por Moreira da Maia para evitar a travessia da auto-estrada – pior sai a emenda do que o soneto. Encontro-me em Padrão de Moreira a caminhar numa zona urbana, à beira de uma estrada estreita, engarrafada nos dois sentidos, sem passeio nem – ao menos – uma berma suficiente, camionistas a entortarem pela barroca onde, entre rodas e muros, eu avanço, cega, sofucada, aterrada, pneus com a minha altura a vinte centímetros dos olhos… Pior ainda: caminhando pela esquerda, com camiões a taparem a vista e uma sinalização insuficiente, não adivinhando que é preciso vira à direita, ao lado do cemitério, prossigo em frente, ansiosa por fugir dali. Deixei de ver setas amarelas todavia, como são escassas, irregulares, ainda avanço quinhentos metros.
Resigno-me por fim a retroceder. Não perguntem como atravessei, entre camiões, aquela estrada… Não me recordo. Vejo-me agora, do outro lado, à porta do cemitério. Verifico se não me falta nada: pernas, pés, braços, mãos… Ainda viva?
