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ANJOS DO MAL de MARIA KEIL por Clara Castilho

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Corria o ano de 2002. Imagino a Maria, então com 87 anos, meia chateada e com vontade de fazer marotices.

Chegou-lhe à mão um envelope daqueles de janelinha, com um papel transparente. Que ficou a olhar para ela e ela para ele a pensar que podia ter melhor destino. De sua mão e de uma caneta começou a surgir esta figura de “Diabo”. Se bem começou, melhor continuou. Outros tomaram  forma. E da mão que desenhava passou a imaginar uma história. É a do livro, editado pela LerDevagar, com apoio do Ministério da Cultura.

Vê-la, cada vez mais pequenina, na exposição destes trabalhos que vieram a ser as ilustrações do livro, pequeninos, como vos disse, do tamanho dos envelopes, foi um reencontro divertidíssimo. O seu entusiasmo, o gozo que punha na forma como nos contava a elaboração de todo o projecto, deixou-me cheia de inveja, a pensar se chegaria à sua idade com a mesma cabeça e a mesma capacidade de contagiar os outros.

Lembrei-a mais nova, não andava eu ainda na escola, a fazer-me ervilhas com ovos escalfados, que eu adorava pois em casa não as comia, a acompanhá-la ao Largo da Estefânea, a caminho das fábricas de azulejos (penso que estavam já na forja os do Metropolitano de Lisboa) e a regalarmo-nos com bolas de Berlim de uma padaria do caminho.

Voltemos à história: É uma parábola que se torna cada vez mais arguta com o avançar da nossa vida social. Diz assim:

(…) A ideia deles, e delas, é que devíamos tirar os cornos e os rabos para ficarmos iguais a toda a gente…, sem diferenças. Assim, já não seríamos excluídos, chamados de diabos malvados, insultados, desrespeitados. Não seríamos mais perseguidos. Passaríamos a fazer parte da sociedade como qualquer pessoa. (…) A nossa superioridade sobre eles, os Homínidas, com cornos ou sem cornos, com rabos ou sem rabos, ficaria sempre intacta. (…) O mal ou as partidas que nos apetecer fazer serão tidas como coisas de espírito, como é costume entre os que dizem mal de nós.

(…) Sou o Didi. Agora tenho que ir à escola. Vestido e tudo. Estou “pronto”. Sem o meu lindo rabinho, corninhos ainda não tinha, como é que vou convencer os outros miúdos da escola que sou um Diabo?…. Já nem me sinto um Diabo. Sou um “anjinho”…(…) Ainda levam a melhor e em que lugar é que eu fico? Não posso ficar por baixo!

E se eu armasse em bonzinho? Em bom aluno, aplicado… com  muita atenção ao que a professora diz, apresentando os trabalhos de casa feitos. Hão-de ver… Ficam tramados. Vou colocá-los mal a todos. Vou ser o melhor da escola.

 

Esperemos que ela ainda traga ao nosso convívio mais coisas bonitas. Obrigada, Maria

  

 

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