Selecção e tradução por Júlio Marques Mota.
Este antigo Director de Intel diz que é necessário uma dinâmica de incentivos na criação interna de empregos para aumentar, de novo, os volumes de emprego nos Estados Unidos.
Por Andy Grove
Recentemente, um conhecido na mesa ao meu lado num restaurante em Palo Alto (Califórnia) apresentou-me os seus companheiros de refeição, três jovens capitalistas chineses especializados em empresas de risco. Estes explicaram, com visível emoção, que estavam em viagem de turismo a visitar empresas promissoras em Silicon Valley. Eu vivo no Valley desde há muito tempo, e geralmente quando eu vejo como a região se tornou um espaço para os investimentos globais, sinto-me um pouco orgulhoso.
Não desta vez. Eu deixei o restaurante inquieto. Algo não batia certo. Em termos de desemprego nesta zona já estamos acima da média nacional que é de 9,7 por cento nacional. Claramente, a grande máquina de inovação que era o Silicon Valley não tem vindo a criar muitos postos de trabalho nos últimos tempos, a menos que se esteja a contar a Ásia, onde as empresas americanas de alta tecnologia têm criado sucessivamente mais empregos de uma maneira que diremos de louca e que tem sido feita ao longo de anos.
O problema subjacente não é o de simplesmente os custos asiáticos serem reduzidos. É a nossa própria crença no poder das startups em criar empregos nos EUA que é deslocada. Os americanos adoram a ideia dos rapazes que na garagem inventam qualquer coisa que muda o mundo. O colunista do New York Times Thomas L. Friedman recentemente assumiu este ponto de vista numa peça chamada “Start-Ups, no bailouts.” A sua argumentação: deixemos morrer as antigas e envelhecidas empresas que produzem commodities, [produtos banalizados tecnologicamente] se tal for preciso. Se Washington realmente quer criar empregos, afirmou, deve então criar startups.
Friedman está errado. As Startups são uma coisa maravilhosa, mas não podem por si sós fazer com que aumente o emprego nas indústrias de alta tecnologia. Igualmente importante é o que vem depois desse momento mítico da criação na garagem, quando a tecnologia passa do protótipo para a produção em massa. Esta é a fase onde as empresas ganham dimensão, ganham economias de escala. São elas que trabalham os detalhes do design, do projecto, são elas que descobrem como fazer as coisas a custo acessível, é nesta passagem que se constroem fábricas e contratam pessoas aos milhares. Esta passagem é dura, muito difícil mesmo, mas necessária para fazer com que a inovação se transforme em realidade.
O processo de produção em massa já não se está a verificar nos Estados Unidos E enquanto assim for, colocar capital em empresas jovens que constroem as suas fábricas noutros países vai continuar a resultar numa má rentabilidade em termos de empregos para os americanos.
O QUE É QUE FALHOU?
A dimensão usada para trabalhar bem em Silicon Valley. Os empresários vêm com uma invenção. Os investidores concedem-lhes dinheiro para avançarem com o seu negócio. Se os empresários e os investidores tiveram sorte, a empresa cresceu e teve depois uma oferta pública inicial que lhes permite recuperar o dinheiro do financiamento e com um bom aumento, com uma boa margem.
Tenho a sorte de ter vivido um tal exemplo. Em 1968, dois conhecidos especialistas em tecnologia de ponta e os seus amigos investidores anteciparam 3 milhões de dólares para arrancar com a Intel (INTC), a fabricar de chips de memória para a indústria de computadores. Desde o início tivemos que descobrir como fazer os nossos chips em grande quantidade. Tivemos de construir fábricas, contratar, formar, treinar, e manter os empregados, estabelecer relações com os fornecedores e resolver um milhão de outras coisas antes de a Intel se poder tornar uma empresa de milhares de milhões de dólares. Três anos depois, a empresa era já do conhecimento do grande público e tornou-se uma das maiores empresas tecnológicas no mundo. Em 1980, 10 anos depois da nossa criação, cerca de 13.000 pessoas trabalhavam para a Intel nos EUA
Não muito longe da sede da Intel em Santa Clara, Califórnia, muitas outras empresas se desenvolveram. Tandem Computers passou por um processo similar, em seguida, Sun Microsystems, Cisco (CSCO), Netscape, e assim por diante. Algumas empresas morreram ao longo do caminho, ou foram absorvidas por outras, mas cada sobrevivente aumentava o ecossistema tecnológico complexo que se veio a chamar de Silicon Valley.
Com o tempo, salários e os custos de saúde subiram nos EUA. Entretanto, a China abriu-se. As empresas norte-americanas descobriram que podiam deslocar a sua fabricação e até mesmo os seus engenheiros para conseguirem fabricar a mais baixo custo no exterior. Quando o fizeram, as margens de lucro aumentaram. Os gestores ficaram contentes e assim também estavam os seus accionistas. O crescimento continuou, ainda de forma mais lucrativa. Mas a máquina dos empregos começou a gripar.
O FACTOR 10X
Hoje, o emprego industrial no ramo dos computadores nos EUA é de cerca de 166 mil pessoas, inferior ao que era antes do primeiro PC, o MITS Altair 2800, que foi montado em 1975
(figure-B).
Enquanto isso, uma indústria muito eficaz de produção de computadores surgiu na Ásia, empregando cerca de 1,5 milhões de trabalhadores, empregados de fábrica, engenheiros e gestores. A maior dessas empresas é Hon Hai Precision Industry, também conhecida como Foxconn. A empresa tem crescido a um ritmo impressionante, primeiro em Taiwan e mais tarde na China. As suas receitas no ano passado foram de US $ 62 mil milhões, mais do que Apple (AAPL), Microsoft (MSFT), Dell (DELL), ou Intel. Foxconn emprega mais de 800.000 pessoas, mais do que o conjunto à escala mundial da Apple, Dell, Microsoft, Hewlett-Packard (HP), Intel e Sony.
Até se ter dado uma recente onda de suicídios no complexo da fábrica gigante de Foxconn em Shenzhen, na China, poucos americanos tinham ouvido falar desta empresa. Mas a maioria conhece bem os produtos que aí se fazem: computadores para a Dell e HP, telefones celulares para a Nokia (NOK), consolas Microsoft Xbox 360, placas-mãe para a Intel, e inúmeros outros aparelhos familiares. Cerca de 250.000 funcionários da Foxconn no sul da China produzem os produtos para a Apple. A Apple, por sua vez, tem cerca de 25.000 funcionários nos EUA Isso significa que para cada trabalhador Apple nos EUA há 10 pessoas na China a trabalhar nos iMacs, iPods, iPhones. A mesma relação de 10 para 1 também se verifica para a Dell, para a Seagate Technology (STX), a empresa fabricante de discos duros, assim como outras empresas do sector nos EUA.
(Continua)
