VAMOS AO CINEMA
A minha geração foi marcada pelo cinema – os filmes pautavam a nossa vida. E não foi só a minha geração, a anterior e a posterior, foram também afectadas pelo que nos chegava de Hollywood – a expressão «Meca do cinema» faz todo o sentido – ir ao cinema era um acto litúrgico. Havia um género preferido – os westerns – índios e cowboys (índios e cóbois, era assim que dizíamos). Os índios eram os maus, os cowboys os bons.
Nascido no centro de Lisboa, não podia brincar na rua. Mas nas férias grandes desforrava-me. Numa vila de praia da margem Sul, hoje transformada num caos urbanístico, mas na altura pacata e tranquila, reunia-me a um grupo de amigos certos, todas as tardes, depois do almoço, antes de uma última ida à praia, quando o sol já não «fizesse mal». Dividíamo-nos em dois grupos: índios e os cóbois. Não havia lugares fixos, a divisão era aleatória. Mas quem se atrasasse na chegada não podia escolher. Ficava nos índios. Era assim e pronto. Ninguém discutia as regras.
Não nos passava pela cabeça que os índios pudessem ter razão. Eram maus, apareciam de noite e, de forma traiçoeira, atacavam os cobóis. Uma vez alguém da minha família, um primo, pessoa mais velha e de grande cultura, colocou-me a questão correctamente – os índios eram os donos do território e os colonos apossaram-se das suas terras. Não tive resposta para a questão posta deste modo, mas só pelo grande respeito que tinha a este primo direito da minha mãe, calei um protesto indignado. Mais tarde percebi que esta era a única forma de ver o problema. Quando o Soldado Azul se estreou foi uma surpresa. Como podia um filme americano fazer de tal forma justiça aos índios?
Para o povo de esquerda, O Soldado Azul, transformou-se num filme de culto – explicava tudo- Explicava até a razão por que os norte-americanos ajudam tanto os israelitas – os bons, defendendo-se contra os índios, neste caso os palestinianos, os maus. Numa das próximas noites, publicaremos o filme na íntegra (dobrado em espanhol).
Hoje ficamo-nos pelas primeira cenas.
