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EM COMBATE – 36 – por José Brandão

 

Situação geográfica do Tridente, a montante do Zaire.

 

Durante todo o tempo que lá estive não tivemos qualquer acção de confrontação com o IN. Patrulhámos muito, nomadizámos muito também e aproveitámos para caçar, mas nunca vimos ninguém. O terreno era dobrado, com capim alto, com várzeas nos vales, arvoredo muito concentrado por manchas e nunca encontrámos povoações ou pessoas.

 

Aparentemente, dizia-­se, tinham fugido para o Congo nos inícios da guerra, em 61/62. Os horizontes eram

largos e imensos e toda a região tinha uma beleza particular. Naquele lugar, aparentemente pacato, convivi de perto com duas situações bem diferentes uma da outra, mas bem reveladoras de aspectos da “nossa” guerra em Angola.

 

 

A primeira passou-­se dias antes da minha chegada ao Tridente e dos meus contactos com Noqui. Noqui era um lugar profundamente deprimente, com uma barroca por trás, um rio pela frente e calor, muito calor o tempo todo. Um dos oficiais milicianos da Companhia do Exército que lá estava estacionada, contava os dias que faltavam para terminar a comissão pela contagem dos cigarros que iria ainda fumar até lá.

 

Para o efeito tinha tracejado numa imensa folha de papel os cigarros que iria fumar até ao fim da comissão, à razão de vinte por dia. Cada noite, antes de se deitar, riscava na parede os cigarros que tinha fumado nesse dia e escrevia os que ainda estavam por fumar. Esta maneira de matar o tempo dá ideia do ambiente que lá se vivia.

 

Além de uma ou outra patrulha no interior, os jogos de cartas só eram interrompidos pelas viaturas que, duas vezes por semana, iam à pista de aterragem esperar o pequeno avião que trazia correio de Luanda.
Quase tudo o que tenho lido sobre a guerra de África, sobretudo artigos de toda a espécie, fazem gala em contar os horrores permanentes em que os nossos militares viviam.

 

Acho que nunca vi nada escrito sobre o ócio das guarnições que, na filosofia adoptada de quadrícula, estavam espalhadas por lugares onde pouco ou nada tinham para fazer, além de estarem lá. Noqui era um desses lugares. Não o era por ser terreno completamente seguro, como já verão de seguida, mas sim por que o IN e a tropa tinham o cuidado de se evitarem mutuamente e ninguém tomava grandes iniciativas.

 

Nestas circunstâncias, era normalmente muito difícil manter um rigor mínimo de horários, fardamentos, actividades, higiene e, sobretudo, de disciplina e prontidão militar. Quando a tudo isto se juntava um clima depressivo e neurótico dos oficiais, a situação descambava numa bandalheira por vezes aviltante, grosseira e, sobretudo, perigosa.

 

Porque afinal, apesar da relativa pacatez do local ele não era propriamente uma colónia de férias forçadas, e o IN, apesar de invisível, andava por lá. A bandalheira de Noqui teve consequências trágicas. No início o grupo que ia esperar o avião do correio era composto por uma GMC, dois Unimogs e dois ou três jeeps. O pessoal ainda tinha medo, ia fardado, armado e municiado.

 

O esquema de segurança era bem montado, alguém levava a bazuca, outro a MG 42 e, com toda a parafernália, lá faziam os dez ou quinze quilómetros em picada, no meio do capim, até à pista onde o avião aterrava em segurança, largava e levava o correio, doentes, homens que iam de férias, outros que voltavam, etc.

 

Duas vezes por semana, meses a fio. Patrulhas rotineiras, muita cerveja, bisca lambida, sueca e uma grande neura ocupavam o resto do tempo.

 

A pouco e pouco foi-­se facilitando. A GMC já não era precisa. Um dos Unimogs também não. O terreno é conhecido, é tudo boa gente, não se passa nada.

 

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