Os primeiros filmes sonoros. A comédia portuguesa
Passada a primeira vaga de filmes portugueses, e deve dizer-se que A Canção de Lisboa, de Continelli Telmo, o primeiro filme da série de comédias que prosseguiria com O Pátio das Cantigas, O Pai Tirano, O Costa do Castelo, e outros, foi , na minha opinião, o melhor de todos. Resultado de condicionalismos de vária ordem, os políticos antes de tudo, os primeiro filmes causam espanto pela desenvoltura de actores teatrais que depressa assimilaram as regras do cinema sonoro. Actores como António Silva, Vasco Santana, Beatriz Costa e tantos outros.
Pese embora o agrado com que vemos estes filmes, sobretudo os mais antigos, não se pode branquear o implícito, em alguns casos muito explícito, apoio que est tipo de cinema dava ao regime. Sem abordar questões centrais da vida nacional, não fazendo qualquer alusão à ditadura, algumas vezes remetendo para caciques locais a responsabilidade pelos problemas sociais, louvando a modéstia e a pobreza («Que saudades que eu já tinha/da minha alegre casinha/ tão modesta como eu…», canta Milú), estes filmes serviam o Estado Novo.
A tese de que o dinheiro só traz zé problemas, subjaz na maior parte dos enredos – os ricos são infelizes, os pobres são felizes se não forem ambiciosos. Era o ideal salazarista a fazer passar a sua mensagem – «Contentem-se com pouco. A penúria tem os seus encantos». Os melhores filmes da comédia portuguesa não resistem, pois, a uma análise ponderada – são produto de condições históricas especiais.
Como puderam ver, os anos 50 trouxeram à superfície a recusa deste modelo simplista e o desejo de fazer um cinema que não fosse uma mera sequência de cenas hilariantes. Mas querendo focar aspectos sensíveis da vida nacional, a pobreza, a exploração, entravam num campo minado. Por exemplo, os filmes de Manuel Guimarães, eram barbaramente mutilados pela Censura. E ao sucesso dos filmes dos anos 30 e 40, correspondia os fracassos de filmes mais dispendiosos realizados nos anos 50.
Vinha aí o Novo Cinema – Ernesto de Sousa, Fernando Lopes e Manoel de Oliveira, claro. Lá iremos.Um novo ciclo será em breve dedicado a Novo Cinema – Sobre o velho cinema, estamos conversados. Hoje veremos algumas das melhores cenas de alguns dos primeiros filmes.
Amanhã anunciaremos um novo ciclo de filmes a apresentar em VAMOS AO CINEMA.
