Já pouca gente considera que o desemprego é culpa dos desempregados e que estes são a maior vítima deste flagelo. Porém são muitos os que acham que o desemprego é inevitável, que as empresas encerram e despedem porque é fatal como o destino. Por isso muitos são cépticos em protestar contra o desemprego.
De Coimbra vem um pequeno exemplo contrário. Em Coimbra a ZON tem um call-center que empregava mais de 40 pessoas. Recentemente 12 desses trabalhadores foram despedidos. Foram despedidos em pleno horário de trabalho, saindo porta fora a chorar, em frente aos colegas que eram de seguida chamados ao gabinete com o mesmo fim.
Os restantes trabalhadores foram – chantageados pelo despedimento – obrigados a fazer as horas dos despedidos sem receber um cêntimo a mais. Desde aí instalou-se um clima de terror no call-center. Foram delineados novos objectivos de vendas –sim, este é um cal-center de telemarketing – impossíveis de garantir e foram feitas formações eu induziam os trabalhadores em procedimentos errados. E o que acontece a um operador com procedimentos errados ou que não cumpre objectivos? É despedido. Saiu a responsável pelos recursos humanos e foi pedido a um supervisor que acumulasse essas com as suas funções, sem receber mais por isso. Esse supervisor despediu-se e a outra supervisora declarou que “desistia”. Aparentemente a ZON degradava propositadamente o funcionamento do centro para justificar um futuro encerramento. A ZON, que só no primeiro semestre de 2012 teve acima de 10 milhões de euros em lucros!
Perante isto o MSE decidiu agir e ontem, dia 28, dirigiu-se ao call-center para protestar, falar com os trabalhadores e exigir explicações administração. Foi afixada uma faixa e colados cartazes a anunciar a manifestação de dia 30. Foi ainda distribuído um comunicado que exigia a reintegração dos despedidos e que a ZON esclarecesse qual seria o futuro daquele Call-Center.
Por “coincidência” compareceu no local um responsável dos recursos humanos da central da ZON (a existência do protesto e o seu anúncio prévio nos média nada terão a ver com esta deslocação?). Este reuniu os trabalhadores e assegurou que o call-center não iria fechar. Ao mesmo tempo uma responsável da ZON assegurava à Radio Universidade de Coimbra que não tinham intenções de fechar o local (ver aqui: http://www.ruc.pt/2012/06/28/mse-protesta-contra-despedimento-colectivo-na-zon-coimbra/ ).
Não sabemos se a decisão de não encerrar o centro foi tomado sobre pressão da acção do MSE, mas uma coisa sabemos: sem a nossa acção os esclarecimentos não teriam sido dados e a ameaça de encerramento manter-se-ia. E isso não é coisa pouca: a ameaça de despedimento, num call-center onde se trabalha por objectivos a mando de uma ETT, é simultaneamente mordaça, chicote e assédio. A ameaça de encerramento do call-center serve para que os trabalhadores se sujeitem a horas não remuneradas, para competir com outros call-centers e mostrar à empresa que este “rende”. A ameaça de encerramento cala, divide, deprime os trabalhadores, permite a ZON aumentar a “produtividade” usando o terror.
Na ZON de Coimbra a ilegalidade do uso das ETT´s ainda se mantém, os salários ainda são miseráveis, os despedidos ainda não foram reintegrados e estamos longe de ver, pelo menos, a lei cumprida no que toca aos direitos laborais. Mas uma coisa é certa: os trabalhadores perceberam que vale a pena lutar, que as exigências podem ser feitas e alcançadas, às vezes até de forma surpreendentemente simples. Perceberam que em vez de competir com o colega do lado e ficar contente por o despedido ter sido outro e não ele, estamos todos no mesmo barco e só unidos vencemos. Empregados e desempregados, jovens e velhos, do público ao privado. A luta pelo emprego é de todos. Retomando a linguagem da ZON: há uma linha que separa a dignidade da humilhação. O governo, a troika e as empresas andam a pisar essa linha. Amanhã, dia 30, vamos sair à rua pelo direito ao trabalho e quem os mete na linha somos nós!
Manuel Afonso

