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Texto para uma bênção a esta Europa já às portas da morte – II

Por Júlio Marques Mota

 

O fim desta zona Euro tornou-se visível. Apenas o como e o quando chegará a sua dissolução é o que permanece incerto.


Um texto a partir de um outro, de  Fabius Maximus de   6 de Junho de 2012 

 

(continuação)

 

Nesta financeirização, os  CDS representavam para os  mercados financeiros uma peça fundamental, uma arma de destruição maciça como se provou, uma arma que a União Europeia permitiu até à náusea que fosse utilizada contra os Estados, contra as usas maiores empresas , uma arma que sobre cada país se disparou. A regulação sobre estes produtos era vergonhosamente nula e face à forma vergonhosa como estes estavam a ser criados, a partir do nada e a corresponderem à venda quase que infinita da dívida pública de cada país atacado, uma só posição se exigia: a entrega imediata de colateral dos títulos correspondentes e na sua ausência dever-se-iam então considerar os CDS de  efeito nulo ou de prática de crime contra o país visado e interditos de estarem nestes mercados. Exagero da minha parte? Vejamos o que nos Paul Craigs Roberts, antigo membro da administração de Reagan:


“Em busca de lucros cada vez maiores, as instituições financeiras começaram a apostar no sucesso e no fracasso de vários instrumentos de dívida e, por aí, a fazerem a mesma coisa sobre as empresas. Eles compraram e venderam swaps sobre instrumentos entregues como colaterais de dívida. O comprador paga um prémio a um vendedor por um contrato de garantia do valor de um activo. Se um activo é “segurado” por um contrato destes, o swap, e se este activo perde valor, é suposto que o vendedor do swap compensará  em cash o seu comprador, desta diminuição do valor.  O comprador de um swap não é obrigado a possuir o activo segurado para poder comprar uma garantia sobre o seu valor. Portanto, muita gente poderia e pode comprar tantos swaps quantos quisessem sobre o mesmo activo que podiam não ter comprado. Assim, o valor total dos swaps excede, e em muito, o valor dos activos. *


O próximo passo foi para os detentores dos swaps a venda a descoberto dos respectivos activos a fim de fazer descer o seu valor no mercado e receberem  o valor da garantia estipulado no sawp.  Como os emitentes de swaps não eram obrigados a e a criar reservas obrigatórias contra estes riscos por eles assumidos  e como não há nenhum limite para o número de contrato de swaps,  as garantias a serem depois pagas  poderiam facilmente exceder o património líquido do vendedor dos swaps, o vendedor da garantia…


Esta foi a forma mais vergonhosa e mais insensata de especulação já alguma vez vista. Os jogadores estavam a apostar com jogadas que não podiam cobrir. Os reguladores norte-americanos abandonaram os seus postos, as suas funções. As instituições financeiras americanas abandonaram toda a integridade. Como consequência, as instituições financeiras americanas e as agências de rating não são de confiança em nenhum lugar na terra.


O governo dos EUA nunca deveria ter usado milhares de milhões de dólares dos contribuintes para pagar os contractos de swaps como o fez quando foi  em socorro da companhia de seguros AIG. Este foi um desperdício impressionante de uma grande soma de dinheiro. O governo federal deveria declarar todos os contratos de swap como contratos fraudulentos, com excepção daqueles que se referiam a títulos igualmente detidos pelos detentores dos títulos, pelos detentores dos activos correspondentes. Pura e simplesmente acabar com esses contratos fraudulentos eliminaria a maior parte do grande volume destes activos “tóxicos” que ameaçam os mercados financeiros.”


A esta “forma mais vergonhosa e mais insensata de especulação já alguma vez vista”, a Europa nada disse, como se tem visto., Vindas estas palavras de onde vêm, percebe-se que não se trata de defender posições à esquerda ou á direita. Trata-se de questões de bom-senso apenas. Lembremo-nos da crise que ia arrasando a Europa no Verão de 2011, com quase todos os grandes bancos a serem atacados, com as respectivas capitalizações a desfazerem-se- em fumo  e tudo isto porque em tempo de crise a especulação a descoberto continuou a ser admitida, os CDS a serem aos milhões de euros vendidos continuaram e, mais grave ainda, tudo isso por causa de um rumor, de um jornalista inglês que mal deveria saber francês e que tomou um texto de ficção política como transcrição da realidade! Inacreditável, proibiu-se a especulação a descoberto por uns dias, a acalmia voltou aos mercados, passou a data da proibição de vendas a descoberto e a tempestade voltou. Naturalmente assim. Curiosamente, o texto de ficção política chamava-se a autoridade de olhos vendados e os líderes europeus bem provaram que estavam e continuam a estar de olhos muito bem vendados mesmo. Um programa de rádio nos Estados Unidos chamou a esta peça publicada pelo Le Monde a 3 de Agosto de 2011 a ficção que se transformou em realidade, a lembrar talvez o programa de rádio de Orson Wells, tomado também como relatando um facto  real e por muita gente.


A adicionar a tudo isto temos ainda a submissão à logica do mark to market, ou seja a imposição de que na contabilidade das empresas e mesmo em tempos de tempestade os seus valores, os seus activos, a sua carteira de títulos, são avaliados não pelo seu valor histórico, valor de compra, valor de aquisição mas sim pelos  valores de mercado pontuais, portanto, dependentes das variações criadas na bolsa . Estes dois  dados, especulação a descoberto feita só com CDS, ou feita só com títulos ou mais grave ainda feita com os dois instrumentos em simultâneo, aliados à questão da avaliação dos activos aos  valores de mercado leva a que Estados em dificuldade e as suas instituições financeiras estejam  a ser duplamente vítimas da situação de crise, vítimas da sua própria situação económica e vitima da situação económica dos outros numa osmose perfeita. Os bancos, se compram dívida pública dos seus Estados ficam numa situação em falso quando se dá  um ataque especulativo à dívida publica. Neste caso, a especulação leva a que se  degradem o valor destes activos, que se degrade a carteira de títulos dos bancos pois é avaliada aos valores de mercado, que se degradem os seus capitais próprios por essa mesma razão,  que se degrade a capacidade de fornecerem  crédito á economia e ficam estas instituições, depois, em situação de fragilidade e vulneráveis aos ataques especulativos que a seguir lhes são movidos. E o contágio de instituição bancária a instituição bancária é imediatas dadas as posições que cada instituição tem sobre a outra, as posições cruzadas, e todas elas podem assim estar sujeitas a depreciações enormes. Foi o que aconteceu em Agosto, Setembro de 2011, como se assinalou. Se são os bancos que estão em dificuldade, se os Estados os socorrem é a dívida pública que aumenta, é o ataque à dívida pública que se exerce a seguir para cada país nessa situação. Desvalorizando os títulos esta, a incidência sobre os bancos é imediata, exactamente pela redução do valor dos activos detidos em carteira pela banca, É esta ligação que complica os dados para a saída da Espanha face ao ataque que sem quartel lhe está a ser movido. Tudo isto seria desnecessário se houvesse coragem política, se não houve este terrível servilismo face aos mercados e aos modelos que o enformam. Como assinala Craigs:


“Os milhares de milhões de dólares dos contribuintes gastos na compra de derivados de subprime também foram desperdiçados. O governo não precisava de gastar um centavo. O que todo e qualquer governo devia fazer era suspender o princípio contabilístico da  valorização dos activos,  mark-to-market rule. Esta simples atitude teria eliminado a ameaça de insolvência para as instituições financeiras, permitindo-lhes manter os derivados pelo seu valor contabilístico até as instituições financeiras poderem verificar os seus verdadeiros valores e depreciá-los depois ao longo  do tempo.”

 

(continua)

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