O fim desta zona Euro tornou-se visível. Apenas o como e o quando chegará a sua dissolução é o que permanece incerto.
Um texto a partir de um outro, de Fabius Maximus de 6 de Junho de 2012
(continuação)
Peter Garber explicou que, dada a mobilidade total do capital na zona euro e dada a larga aceitação da moeda comum a transferência de depósitos de um banco comercial doméstico de uma nação para um banco domiciliado num outro país da UE não tem custos. Num mundo de agentes económicos racionais, qualquer probabilidade não desprezível que seja sentida quanto á saída do euro com o subsequente risco de perda cambial deve resultar numa corrida maciça aos depósitos . Os desequilíbrios a que agora assistimos reflectem apenas a fase inicial de tais comportamentos ditos racionais enquanto tal. A corrida aos depósitos bancários e, portanto, as inaplicáveis exigências da Alemanha contra os países periféricos podem explodir.” De uma quadratura do círculo temos agora a especulação a descoberto, com ou sem CDS, as políticas de austeridade, a política de mark- to- market, as agências de rating a indicarem a confirmação do sinal para ataque a fundo ou a criarem pelo pânico essa mesma situação, temos agora também a fuga de capitais por medo do desaparecimento do euro, ou seja da saída do país fragilizado da zona euro. Poderemos ter arranjos de quatro a quatro componentes e portanto, poderemos ter não uma quadratura do círculo mas cinco delas e venha o Diabo a escolher qual delas é a menos má. Pessoalmente não sei.
Para já haverá a ilusão de aparecer a Alemanha a forte beneficiária desta situação. Exemplo disso a aquisição de títulos alemãs a 3 meses a taxa de juro negativa, como se ilustra no gráfico abaixo:
O rendimento sobre papel a 3 meses na Alemanha está agora em território negativo a significar que as pessoas agora pagam ao Governo alemão para aí aplicarem, para aí guardarem, os seus euros.
Depositados os euros na zona marco estão protegidos de uma tempestade sobre o euro de uma fragmentação desta zona. Do desaparecimento desta moeda estão protegidos ou mais ainda, poderão esperar ganhos face à moeda do país de onde tenham partido caso se verifique a fragmentação da zona, pois apostariam assim na desvalorização da moeda nacional e da apreciação da nova moeda alemã. E uma coisa é certa: isto reflecte o terrível mal-estar que assola a Europa pelos neoliberais desgovernada a lembrar, e uma vez mais, a crise Argentina de 2001.
Infelizmente, poucas pessoas tomam decisões de qualidade durante a pressão, a urgência, durante a precipitação que uma crise provoca, exactamente pelo medo instalado. Mais provavelmente são escolhas imprudentes ou até mesmo escolhas desastrosas as que são escolhidas, o que se vê pelos quadros eleitorais em Portugal, na Espanha e na Grécia agora, em que são agentes disponíveis ao maior servilismo face ao imperialismo germânico que ascendem ao poder. Com estes governos, com as suas políticas de austeridade como sendo a saída possível para a crise, com as economias a afundarem-se cada vez mais, parece-nos ser tudo isto um paralelo imediato com o que se passou no Titanic. O Titanic por ordem do seu oficial Murdoch tentou contornar o iceberg, bate lateralmente neste, assim se rompeu e assim se afundou em seguida. Este paquete provavelmente poderia ter sobrevivido se houvesse um segundo oficial, um segundo Murdoch a contrariar o primeiro e em vez da ordem deste de se contornar o iceberg, mandasse avançar o Titanic directamente contra o iceberg. Somente alguns dos primeiros compartimentos seriam inundados. Talvez cerca de 56 bombeiros a dormirem no bloco da frente do convés teriam morrido juntamente com dezenas de passageiros da terceira classe . Mas isso não era a resposta que “está nos livros” é apenas a resposta que só um homem mesmo muito genial poderia dar. Mas pelos vistos os homens geniais não abundam agora. A vaga neoliberal tudo limpou e neste campo tudo em deserto esta vaga transformou. Aqui estamos perfeitamente de acordo com Helmut Schmitt quando nos diz:
Muitas coisas são passado já se passaram, e, ao mesmo tempo, as personalidades políticas capazes de desempenhar um papel de liderança tornaram-se cada vez mais raras. Jacques Delors era alguém muito importante. Ele foi substituído por pessoas de que ninguém realmente sabe o nome.
Muitas coisas são já passadas e, ao mesmo tempo, os políticos capazes de desempenhar um papel de liderança tornaram-se cada vez mais raros. Jacques Delors era alguém muito importante. Ele foi substituído por pessoas que ninguém realmente sabe o nome.
Aconteceu a mesma coisa a nível dos secretários permanentes, dos comissários, dos primeiros-ministros e… como se chama ele… Van Rompuy? E este tem um Secretário dos Negócios Estrangeiros – uma inglesa de que facilmente se pode dispensar conhecer o seu nome. A mesma coisa é mais ou menos verdadeira se falarmos do Parlamento Europeu.” Palavras duram mas que na realidade não se desmentem. Visto do outro lado do Atlântico temos uma posição semelhante, Vejamos o que nos diz Craigs no texto já anteriormente citado:
“Dada a incompetência que reina em Washington e em Wall Street, a nossa maior esperança é a de que o resto do mundo seja ainda menos competente e esteja até em dificuldades muito mais profundas que as nossas. Neste caso, o dólar dos EUA pode sobreviver como a moeda menos má de entre as más moedas pertencente ao conjunto mundial de moedas sem valor intrínseco que circulam apenas por garantia dos governos, não sendo também garantidas por reservas.”
A mesma análise, talvez ainda mais dura porque se refere basicamente à Administração Bush e dizer que os europeus são ainda mais incompetentes do que a Administração Bush é um sinal bem claro do estado a que se chegou nesta Europa que se queria grande potência no mundo.. Aqui, lembramo-nos da posição de desencanto de Edward Hugh sobre Espanha quando em termos gerais nos diz que estamos perante “evidente ausência de qualquer um político com o calibre e autoridade moral para dirigir o país neste momento difícil” e partir daqui acrescenta, “ É difícil não ficar com o sentimento de que a Espanha está “amaldiçoada” neste momento”. Claramente é difícil não dizer o mesmo para Portugal, é difícil não dizer o mesmo para a Europa como um todo.
Na falta de uma verdadeira liderança que tenha a visão de longo prazo e não a visão imediatista do imediatamente à frente da ponta do nariz, nestas condições, então tanto pior para os sonhos dos seus povos, mantidos desde há longa data, uma vez que a capacidade de um povo ser solidário com os outros tende a restringir-se e a Alemanha mostra-o à evidência. E porque pelo menos na aparência estará a ganhar com a situação, para ela parece que não será este o momento propício para a unificação, para mais União. É possível que se na Alemanha e pela manipulação a que se é sujeito que os povos gritem “Cada nação por si”; deixemos pois os fracos da Europa entregues a si próprios e quando assim é, são os países em dificuldade que são estrangulados com o serviço da dívida é a Alemanha que face à crise fica aliviada financiando-se ou refinanciando-se a taxas que são verdadeiramente uma afronta face aos que os outros estão a pagar para lhe conferirem a ela, Alemanha, o estatuto de país para onde os capitais voam à procura de qualidade e pagam mesmo para isso como se viu no gráfico acima com a taxa de juro negativa, paga-se para ter o dinheiro em lugar seguro. Simples, muito simples, portanto capitais estão a voar para a qualidade.
(continua)
