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BRASIL, HISPANIDADE, COLONIZAÇÃO – por Sílvio Castro

Este texto de Sílvio Castro constitui uma réplica ao artigo de Carlos Loures Hispanidade e Colonização

(http://aviagemdosargonautas.net/2012/09/28/hispanidade-e-colonzacao-por-carlos-loures/)

No último 28 de setembro deste 2012 , o meu caro amigo Carlos Loures escreveu, sempre com a sua ampla cultura e magnífico estilo, um muito interessante artigo, com o título “Hispanidade e colonização“, no qual vêm expostos alguns conceitos sobre a colonização portuguesa no Brasil que não encontram a minha adesão.

Partindo da dualidade dos conceitos “conquista e colonização”, nos quais o autor encontra uma forma de sinonimia, ficando o primeiro termo o preferido pelos castelhanos nos seus encontros com outras terras e outros povos, enquanto os portugueses preferiam diretamente colonização para o mesmo efeito, Carlos Loures chega ao conceito central que mais o interessa:” hispanidade”. Com clara e devida intenção crítica quanto às conquistas castelhanas na América Latina, ele afirma a natureza hispânica dos portugueses, ainda que vendo a mesma em forma absolutamente diversa, ainda quando deve tratar do muito longo episódio da colonização do Brasil: “… Isto (tratando com com justificada sensibilidade a diversidade da língua portuguesa) porque a nossa hispanidade é vivida de costas para Madrid e de olhos postos no mar.”

Neste empenhado artigo, Carlos Loures demonstra mais uma vez que uma das suas maiores preocupações culturais é o desejo de participar criticamente com os grandes problemas da atualidade não só de Portugal. E o faz mostrando-se igualmente um intelectual progressista, absolutamente distante de qualquer forma de nacionalismo. Ainda que sempre afirmando um justo orgulho pela cultura desenvolvida nos séculos pelo povo português. Aquele mesmo povo de Portugal que recolhera da hispanidade as bases de uma língua que depois assumiu dimensões próprias e se difundiu pelo mundo. A partir da língua portuguesa Carlos Loures se afirma um moderno patriota, naquela dimensão em que patriota é aquele que ama as tradições da terra de seus pais. Apoiado no conceito, ele afirma a diferença das formas de colonização realizadas pelos dois paises hispânicos. E daí chega ao lusitanismo presente na evolução da cultura brasileira que permite ao Brasil de ser hoje uma das maiores potências internacionais.

A partir deste ponto não posso concordar quase complementamente com o meu amigo Carlos Loures.

A colonização portuguesa do Brasil, juntamente com tantos pontos positivos – como no caso da herança de uma língua única que permitiu a um território de dimensão continental de manter-se unitário (ainda que com pequenos e oitocentistas episódios tentativas de cessionismo, como no caso do Rio Grande do Sul), mostra-se historicamente um percurso predominantemente negativo. Portugal desde o século XVI não soube como dar-se o melhor relacionamento com as suas terras americanas. Seus dirigentes, sequiosos de lucros imediatos de suas expedições ultramarítimas, souberam somente criar uma forma de colonianismo que ignora qual poderia  ter sido em verdade o melhor interesse português. Por isso mesmo, do muito que recolhe, fica com muito pouco, como iigualmente afirma uma das maiores autoridades em história econômica de Portugal, Godinho; E pior ainda, deixa a fonte da riqueza sem nada que lhe permita um melhor e direto desenvolvimento. Já o primeiro donatário da Capitania de Pernambuco, Duarte Coelho, o primeiro grande luso-brasileiro, cansava-se de escrever ao seu Rei pedindo maior atenção à terra do Brasil, pelo bem seja de Portugal que de sua colônia. E nada por séculos. Tais lacunas da história econômica de Portugal foram denunciadas e criticadas por autoridades do porte de Vitorino Magalhães Godinho, recentemente falecido.

Será, desde o Donatário de Pernambuco, aquela nova identidade de luso-brasileiros que criará com os maiores sacrifícios a lenta formação de um novo povo em combate com os erros do colonialismo retógrado. A partir daí surge o brasileiro e a realidade do Brasil desde cedo autônoma. Os quais, ao contrário dos sentimentos dos portugueses, jamais declinaram os seus ideais e formas de conhecimento do mundo a partir do conceito de hispanidade.

O brasileiro desde sempre ignora o conceito de hispanidade. Isto, ao lado de um seu sentido positivo, nos tempos modernos tem levado o Brasil a pouco conviver com os países hispano-americanos. Somente depois da criação do Mercosul tal anormalidade passou por alguma variante, principalmente tendo como grande finalidade evitar a expansão constantemente desejada pelos Estados Unidos.

Assim, não posso concordar inteiramente com o pensamento do meu amigo Carlos Loures sobre  a importância da presença portuguesa na formação cultural  do Brasil. Isto porque justamente no período em que Portugal se fez mais profundamente hispânico, nos tempos dos Felipes, de 1580 a 1640, justamente então, como quase anti-hispânicos, os luso-brasileiros se transformavam definitivamente em brasileiros. Foi quando eles, somente eles – os luso-brasileiros, os indígenas representados por Felipe Camarão, os primeiros negros-escravos que depois das batalhas ganhavam a definitiva liberdade; tudo isso numa mestiçagem vigorosa – somente eles livraram o Brasil da prepotente invasão holandesa e passaram a alargar o próprio território, com a épica atividade dos bandeirantes, até os Andes. O brasileiro soube então transformar o sertão em território real.

Enquanto isso, a Corte de Lisboa continuava a ignorar as diferências que já se afirmavam. Quando o jovem jesuita Antônio Vieira, presente na Lisboa de um Portugal apenas restaurado enquanto delegado brasileiro para as festividades da Restauração, encanta a Corte com os seus sermões, os cortesãos de D. João IV apenas conseguem perceber que o fascinante pregador tinha um modo muito novo de pronunciar a língua portuguesa…

Por tantas dessas razões, o colonialismo português no Brasil prosseguiu nos seus erros por todo o século XVIII, principalmente a partir da avidez com que recolhe os bens das novas minas de ouro, finalmente encontradas. Tal avidez é a razão das mortes de um Felipe dos Santos e de um Tirandentes, mortes que cobrem todo o século que, porém, já preanuncia a definitiva independência brasileira.

Por tudo isso e por muito mais não posso aderir ao brilhante artigo do meu amigo Carlos Loures naqueles pontos tocantes ao Brasil.

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