Transcrevemos este artigo, com a devida vénia, ao Anselmo Borges e ao Diário de Notícias. É uma homenagem clara a Óscar Lopes, de alguém que tem uma maneira diferente de ver o mundo. Ao autor e ao jornal os nossos cumprimentos e muito obrigado, extensivos a que nos remeteu o artigo.
D. António Ferreira Gomes, que tinha chegado havia pouco tempo do exílio, revelou que tinha “uma cartinha muito breve do Sr. Dr. Óscar Lopes (não combinámos nada), em que diz que a sua participação seria “um depoimento na primeira pessoa do singular acerca daquilo que durante 50 anos julgo ter crido a partir de um fervoroso catolicismo de infância. Apenas desejaria descobrir o melhor de mim mesmo no melhor catolicismo de hoje, e contribuir para tudo aquilo que deveras nos transcende”.” E o bispo do Porto acrescentou: “Nós sabemos que a maior parte da nossa boa gente não transcende. Muitas vezes para o povo a religião no geral não significa nada de transcendente.” E, depois de denunciar a religião das promessas, a religião utilitária, afirmou: “A religião cristã, entretanto, o limiar diferencial da religião cristã começa quando alguém se debruça sobre o outro, quando alguém se volta para aquilo que o transcende, seja o outro neste mundo, seja o outro absoluto (a relação ao outro absoluto é exactamente também a relação ao irmão). Por conseguinte, eu tenho para mim que quem procura pôr-se deveras em relação com aquilo que nos transcende está numa atitude religiosa. Desculpe, Senhor Doutor, se o ofendo.” E Óscar Lopes: “De modo algum.”
Para Óscar Lopes, que deixou de ser cristão por causa da afirmação do inferno, a virtude da fé bem como a da esperança são “inseparáveis do simples facto de se ser vivo e consciente”. Citou o amigo Mário Sacramento: “Sim, é com Fé que todos somos homens, quando o somos.”
Mas, para ele, a fé e a esperança não implicavam a fé em Deus e na sua Promessa. Confessava-se ateu, no quadro do materialismo dialéctico: “chamo “matéria” àquilo que corresponde ao conceito-limite daquilo donde provenho e daquilo para que tende o objecto do meu conhecimento e das minhas aspirações, quando esse conhecimento e essas aspirações se tornam mais adequadas.” Numa linha comparável ao pensamento de Ernst Bloch, o materialismo significava progressismo e disponibilidade potencial de avanço sem fim no sentido da libertação plena: há uma esperança contínua, que está sempre para lá das nossas realizações à vista na História.
Marxista filiado no Partido Comunista, repudiava absolutamente “toda a forma de ateísmo de Estado e toda a forma de perseguição”. O que nos une é o resgate de todos os males. O diálogo entre crentes e descrentes é necessário e fecundo para os dois lados: “Não é a mim que compete a apologética da Igreja, mas desejo com a maior sinceridade que ela vença a sua crise institucional de hoje, que ela leve a cabo o seu já hoje tão sensível esforço de desmitificação, de purificação e de dignificação. Se os teólogos mais avisados hoje vêem o ateísmo como uma teologia negativa que aumenta o grau de exigência quanto a qualquer concepção ou representação, sempre necessariamente inadequada, de Deus, os ateus como eu vêem qualquer religião que progrida como uma antítese indispensável para que o nosso materialismo se não converta, ele próprio, numa religião degradada, com o seu ritual, as suas fórmulas estereotipadas, a sua fúria catequística e uma grande suficiência incrítica.”
Não acreditava na promessa cristã da ressurreição dos mortos, à sua espera. Mas, perguntado sobre a morte, concluiu: “Eu acredito numa sobrevivência. Há simplesmente esta pergunta: o que é que de mim desejo eu que sobreviva? E a esta pergunta eu não sou capaz de responder. Para mim existe apenas uma esperança para essas aspirações, de que a religião dá aproximações em mitos. Para mim, fica sempre a esperança, mas uma esperança que, em sinceridade, não sou capaz de tematizar, quer dizer, de reduzir a um símbolo, a uma imagem.”
