por Rui Oliveira
A Sexta-feira 19 de Abril corresponde ao início dos “Dias da Música em Belém” e esse é seguramente motivo para o destaque do dia.
«Na viragem para o século XIX, emerge uma nova sensibilidade, que vai marcar decisivamente os cem anos seguintes. A exaltação do indivíduo e da subjectividade, a redescoberta da cultura medieval por contraposição aos mitos greco-romanos que tinham modelado a cultura renascentista, a libertação dos sentimentos e a apologia das paixões por contraposição à ditadura da razão, são o terreno explorado pelos românticos. A ironia e a melancolia são figuras deste estado de dúvida e de anseio, de crítica distanciada da sociedade e de sonho de qualquer coisa de novo … O “impulso romântico” é, em primeiro lugar, esse ímpeto em direcção a uma cultura da libertação, que politicamente encontrara a sua justificação na Revolução Francesa de 1789. Mas, com o tempo, e muito por força do impacte do romantismo sobre a cultura oitocentista, a expressão ganhou um outro sentido, que se prolonga até aos dias de hoje, restringindo-se cada vez mais ao plano afectivo: é romântico o enamorado, o apaixonado, o sonhador, o utopista».
O festival “Dias da Música em Belém” aborda o impulso romântico nestas duas vertentes: a histórico-musical e a popular. De Beethoven a Rachmaninov, de Chopin a John Lennon, de Berlioz à chanson d’amour francesa, propõe-se um itinerário musical que nos mergulha nas raízes do Romantismo e detecta a persistência do sentimento romântico, erudito ou vulgar, até aos nossos dias.
O Concerto de Abertura desta Sexta-feira, 19 de Abril tem lugar no Grande Auditório do Centro Cultural de Belém, às 21h, e nele será interpretada a “Missa Solemnis” para solistas, coro e orquestra em Ré Maior, op. 123 de Ludwig van Beethoven.
Serão executantes a Orquestra Sinfónica Metropolitana de Lisboa, o Coro Lisboa Cantat (dir. Jorge Alves) e o Ensemble Vocal de Freamunde (dir. Sílvio Cortez), sob a direcção musical de Cesário Costa, tendo como intérpretes vocais Ana Maria Pinto soprano, Daniela Lehner meio-soprano, David Danholt tenor e Wojtek Gierlach baixo (as 5 imagens acima).
Não há registo gravado desta peça por estes intervenientes. Optámos por lhe fazer ouvir a gravação integral desta Missa pelos agrupamentos La Chapelle Royale, o Collegium Vocal Gent e a Orchestre des Champs-Élysées dirigidos por Philippe Herreweghe com Rosa Mannion soprano, Birgit Remmert contralto, James Taylor tenor e Cornelius Hauptmann baixo.
O programa compreende, entretanto, cerca de 60 concertos, contando com interpretações
( para consultar a grelha dos espectáculos, ver em : http://www.ccb.pt/sites/ccb/pt-PT/Programacao/DiasdaMusica2013/Espaco%20Musica%20Livre/Documents/pgDesdobrávelDiasMúsica2.pdf )
No campo teatral, o destaque irá para a estreia na Sala Garrett do Teatro Nacional Dª Maria II, às 21h, da peça de Molière “O Doente Imaginário” em tradução de Alexandra Moreira da Silva, numa co-produção do Ensemble – Sociedade de Actores com T.N.São João (Porto). Com encenação de Rogério de Carvalho, são seus actores Jorge Pinto, Emília Silvestre, António Durães, Clara Nogueira, Fernando Moreira, João Castro, Vânia Mendes, Miguel Eloy, António Parra, Ivo Luz e Marta Dias, com cenografia de Pedro Tudela, figurinos de Bernardo Monteiro e música de Ricardo Pinto.
Permanece em palco até 28 de Abril só às Sextas, Sábados e Domingos (aqui às 16h).
No folheto de sala elucida-se : «… Quando Molière escreveu “O Doente imaginário” sabia que estava gravemente doente. Interpretava Argão (um falso doente de uma vitalidade incrível) e disfarçava
Este é um excerto da peça quando representada no TNSJ :
Também na Sexta-feira, 19 de Abril (e ainda no Sábado 20) se apresenta na Sala Principal do Maria Matos Teatro Municipal, às 21h30, “Julia”, uma adaptação que a encenadora brasileira Christiane Jatahy fez de “Menina Júlia” de August Strindberg e que recebeu o Prémio Shell 2012 para Melhor Encenação.
Em Julia, Christiane Jatahy leva a cabo um trabalho de actualização de um texto clássico, abordando questões sociais e políticas do Brasil contemporâneo. A relação entre as duas personagens centrais é pautada por um jogo de poder que reflecte a realidade do país, exposta habilmente através da presença permanente da câmara e da tensão que esta cria. Com cenas pré-filmadas e cenas filmadas ao vivo, o filme é construído na presença do público em cada dia, criando uma fricção permanente entre teatro e cinema, entre o que pode ser visto pela presença real dos actores e o que só pode ser
Sob a direcção de Christiane Jatahy, interpretam Julia Bernat e Rodrigo dos Santos com a participação no filme de Tatiana Tiburcio. A concepção do cenário é de Christiane Jatahy e Marcelo Lipiani, a fotografia e câmara ao vivo de David Pacheco, os figurinos de Angele Fróes e a música de Rodrigo Marçal.
Eis alguns excertos da peça quando representada no Brasil :
Deborah Colker foi buscar inspiração para seu novo espectáculo num grande clássico da literatura russa e universal, “Evguêni Oniéguin”, romance em versos publicado em 1832 por Aleksandr Púchkin (1799-1837).
Este vídeo mostra aspectos vários da sua coreografia :
No restante quadro musical do dia, lembra-se que esta Sexta-feira, 19 de Abril é mais uma generosa noite de entrada livre no Grande Auditório da Fundação Calouste Gulbenkian onde, às 21h30,
Wolfgang Amadeus Mozart Sinfonia Concertante K. 364 (transcrição para septeto de cordas)
Ludwig van Beethoven Sonata para Violino e Piano nº 9, op. 47, Kreutzer (transcrição para quinteto de cordas)
Já para os amadores de jazz, estreia-se no Hot Clube de Portugal às 22h30, actuando nesta Sexta 19 de Abril mas também no Sábado 20 e no Domingo 21, o colectivo franco-belga Mâäk Quintet constituído por Laurent Blondiau (trompete), Guillaume Orti (saxofone alto), Jeroen Van Herzeele (saxofone tenor), Michel Massot (tuba) e João Lobo (bateria).
Dizem os próprios serem «músicos que trabalham uma improvisação baseada numa perspectiva que combina elementos construtivos fundamentais : forma, duração, interacção, textura, dinâmica, pulsação, silêncio, contraste, contenção, sentimento, fricção … e também pela negação possível de todos eles … Constatamos que todos os nossos trajectos são diferentes e é a partir das tensões que derivam desses contrastes que construimos um caminho conjunto. Dessa forma podemos, no fim da jornada, propor ao público uma outra visão e outro sentimento face ao conceito de um concerto».
Eis uma sua actuação conjunta recente com o grupo Ryr :
(para as razões desta nova forma de Agenda ler aqui ; consultar a agenda de Quarta aqui)


