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A ESTUPIDEZ É UM CÃO FIEL – 3 – por Sérgio Madeira

Nos capítulos anteriores – António Amaral vai, a conselho do seu médico, passar uns dias à ilha de Porto Santo. Ao fazer o seu passeio higiénico pela praia encontra o cadáver de um homem morto a tiro. Estamos em 2009, mas recuamos depois até 1973. Em Moçambique, prepara-se uma operação militar contra uma aldeia que, presumivelmente, abriga um líder da guerrilha.

Terceiro capítulo

Na quinta-feira anterior, num voo da TAP com destino ao Funchal,  António e Cecília partiram por um enevoado fim de tarde para a pequena ilha. Ao sair de Lisboa, foi como se deixassem para trás o mundo real. E o mundo real por aqueles dias de Primavera era a notícia de que, segundo uma previsão da Universidade Católica a economia portuguesa, arrastada pela crise global, iria registar este ano o pior «desempenho» desde o «ano de brasa» de 1975. . Em Itália, o inefável Silvio Berlusconi afirmava que os desalojados pelo sismo de L’Aquila «estavam a fazer campismo», causando grande escândalo num país ainda sob o choque de uma catástrofe que provocara quase 300 mortos.

Chegaram já depois da meia-noite,  no minúsculo aviocar da Aerocondor que ligava em pouco mais de um quarto de hora a Madeira ao Porto Santo. A carrinha da agência de viagens,  encarregada do transfer,  levou-os, tendo-os como passageiros únicos, do aeroporto ao hotel,  que conheciam de uma viagem anterior. Era o Hotel Porto Santo,  muito confortável e a cerca de quilómetro e meio do centro da pequena cidade – uma arquitectura onde o equilíbrio de volumes, com construção em extensão, rodeada de grandes espaços arborizados e amplos relvados, constituíam as a notas dominantes – segundo tinham dito  a António na visita anterior, o projecto era da autoria, ou tivera a colaboração,  do grande Óscar Niemeyer o que, a ser verdade, explicava tudo – a beleza, a sobriedade dos volumes, o equilíbrio de formas – tudo.  Mas depois veio a saber que a autoria do Niemeyer era apenas um dos mitos da ilha. O grande arquitecto nada tivera a ver com o projecto.

Na manhã de sexta-feira, verdadeiro começo das férias,  após terem tomado o pequeno-almoço – António, apesar das muitas tentações que as mesas ofereciam,  cingiu-se disciplinadamente às salutares frutas,  sumos, iogurte e cereais… –   caminharam calmamente até ao centro da pequena cidade que se chamara até à pouco tempo Vila Baleira que fora, poucos anos atrás, crismada de Cidade de Porto Santo. Deambularam pelas escassas ruas e praças da zona central, e passaram pela inevitável – de mais do que duvidosa legitimidade histórica – Casa de Colombo,  almoçaram num dos poucos restaurantes abertos,  numa rua pedonal, a Gonçalves Zarco,   e  passearam ainda pelas ruas que, dado o facto de não se estar na época balnear, tinham muito poucos, quase nenhuns, turistas. Muitos dos estabelecimentos comerciais estavam mesmo fechados.

Regressaram depois ao hotel e, continuando sempre a seguir os conselhos do cardiologista,  fizeram uma sesta, após o que deambularam pelos jardins. Foram até à praia,  sem sair da zona do hotel e ficaram a ver o magnífico pôr-do-sol. Vieram ao quarto vestir-se para jantar. Cecília, levou mais tempo na escolha de um “vestido adequado” e, tomada a decisão, com hesitações ante o espelho e perguntas a António que fingiu ponderar antes de emitir um opinião em tom seguro – “Esse que tens vestido fica-te muito melhor”. Mas não se livrou de mais perguntas:

– E esta  pashmina     diz bem com o azul?… António consultava no portátil as edições on line dos jornais – uma entrevista de Dias da Cunha, ex-presidente do Sporting, afirmava que os rumores de incumprimento com a banca era uma «total inverdade».  Mas respondeu a Cecília

– Fica-te mesmo a matar!.

– Nem olhaste!

 – Olhei, pois .

Sabia lá ele o que era uma pashmina…

No próximo capítulo: As tropas especiais chegam a Xuvalu – vai começar a Operação Shelltox

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