A ESTUPIDEZ É UM CÃO FIEL – 5 – por Sérgio Madeira

Imagem1

Nos capítulos anteriores – António Amaral está a passar uns dias à ilha de Porto Santo. Ao fazer um passeio higiénico pela praia encontra o corpo de um homem morto a tiro. Estamos em 2009, mas recuamos depois até 1972. Em Moçambique, prepara-se uma operação militar contra uma aldeia que, presumivelmente, abriga um líder da guerrilha. António recorda os dias que antecederam o seu mórbido achado, a chegada à ilha. As tropas especiais vão a caminho do alvo.

Quinto capítulo

O

Enquanto Cecília terminava a toillette e António pelo canto do olho vira o que era uma pashmina (afinal, não passava um cachecol transparente). A propósito de uma notícia sobre a solidão de Ratzinger,  começou uma das suas dissertações:  Marx dissera que a religião era o ópio do povo. Era uma quase indiscutível verdade do século XIX. Porém, tal como acontecera com a máquina a vapor e continua a ocorrer com os iogurtes, o seu prazo de validade expirara (em todo o caso, talvez não para os islâmicos).  Hoje em dia, pelo menos nas sociedades ocidentais, a televisão e o consumo desenfreado eram os verdadeiros ópios. Tudo isto, o disse mui sentenciosamente António a Cecília enquanto desciam do quarto e se encaminhavam para a sala de jantar.

Ela concordou de imediato, pois quando o marido iniciava uma das suas desenfreadas cavalgadas oratórias, era de boa diplomacia dar-lhe incondicionalmente razão. Sem o que a cavalgada se internaria pelas estepes intermináveis da argumentação.

Na bonita sala de refeições onde havia muito poucos hóspedes,  sentaram-se numa mesa junto das janelas envidraçadas que davam para o caminho da piscina e da praia. Numa cenografia perfeita, ao fundo,  o mar estava iluminado pelo luar. No piano de cauda lacado a branco, veio sentar-se um sujeito de cabelos grisalhos e abundantes. Vestia um smoking branco, a condizer com o piano. Com ar distraído, começou a desfiar um medley de boleros – Bésame mucho, Jurame, La barca, Reloj, Vaya com Diós, Noche de ronda…

Escolheram uma ementa leve – rosbife e salada.

Estavam já a comer, quando o pianista resolveu fazer uma pausa na sua actuação. Levantou-se e olhou os comensais que ocupavam três ou quatro mesas. Depois foi junto do balcão do bar e falou com o empregado.

António comentou:

– Nâo há dúvida de que isto é agradável.

Cecília concordou.

António ia a acrescentar algo quando se aperceberam de que o pianista estava junto deles. Alto, magro, distinto. Pronúncia espanholada

– Senhor doutor António Amaral?

No próximo capítulo –  Começa o massacre em Xuvalu.

Leave a Reply