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O FEMINISMO É UM HUMANISMO* – por Rachel Gutiérrez

 0001 (2)Simone de Beauvoir, em O Segundo Sexo, de 1949, havia estabelecido o primado da cultura sobre a biologia, afirmando que a mulher se define não pelo que é mas pelo que escolhe ser. No entanto, essa “audaciosa desconstrução” do conceito de natureza feminina, que se encontra na origem de todos os grandes avanços das últimas décadas, continua encoberta pela mídia que teima em explorar a mulher – objeto sem deixar de exaltar, ao mesmo tempo, sua função reprodutora e seu “instinto maternal”, cuja força biológica supostamente inata a concepção moderna de “um amor conquistado” se encarregou igualmente de desconstruir.
Por outro lado, a conquista feminina do direito a um prazer sem culpa se vê ameaçada pela banalização da pornografia e até mesmo do sadomasoquismo, que aparentemente quebram tabus mas, na verdade, reduzem a sexualidade a meras sensações físicas vazias de significado e emoção. ( … )
(…) a sociedade que hoje se caracteriza como de consumo sexual, quando os homens vivem obcecados por seu desempenho e as mulheres por sua aparência, quando a invasão multimilionária da pornografia impregna a inteligência e o imaginário coletivo, certamente essa sociedade não corresponde ao que sonharam as feministas históricas.
[…].
— o feminismo não pretende instaurar uma ginecocracia ou restaurar o matriarcado, que, de acordo com a moderna antropologia, jamais teria assumido o caráter autoritário que o patriarcado assumiu. Admitindo-se que as mulheres querem e eventualmente poderão atingir também o poder, isso não significa que pretendam dominá-lo, mas sim partilhá-lo em termos iguais e justos. Não precisamos de muita imaginação para conjecturar que o controle da vida social compartilhado entre homens e mulheres haveria de mudar nosso próprio conceito de poder. Mas as imagens de míticas amazonas em guerra, para usurpar o o poder dos homens e escravizá-los ainda alimentam as fantasias daqueles que temem perder seus privilégios.
O que torna o movimento feminista ameaçador para a maioria dos homens é a ideia de que a cada conquista feminina possa corresponder uma derrota masculina, como observou Sheila Rowbotham. No jogo de ganhar ou perder da sociedade competitiva é difícil admitir-se que a reivindicação de direitos feita pelas mulheres não implica necessariamente na contestação dos direitos dos homens. Precisamos distinguir, no entanto, direito de privilégio. Na verdade, o que os homens mais temem é perder os privilégios conquistados, esses sim, graças à dominação , opressão e inferiorização imposta às mulheres ao longo dos séculos.
… as mulheres em luta pela cidadania não combatem os homens enquanto homens, mas enquanto opressores sexistas. Como poderiam as feministas, que denunciam e condenam o sexismo, porque o consideram a base ou o princípio de todas as dominações, tornarem-se, por sua vez. sexistas?
[…]
A luta feminista prenuncia o advento de uma nova era. Juntos, as mulheres, os jovens, os que defendem a natureza e os que lutam pela paz, os negros e os homossexuais, todos os oprimidos, com as crianças e com os poetas, são os artífices do futuro, de um novo renascimento, de uma possível epifania.
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*Este post resulta da junção de excertos da obra homónima. O primeiro excerto é retirado do prefácio à segunda edição da referida obra. Esta operação foi feita sob orientação da autora.

Iustração: La Liberté guidant le peuple – quadro de Eugène Delacroix, conservado no Museu do Louvre.

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