
Por outro lado, a conquista feminina do direito a um prazer sem culpa se vê ameaçada pela banalização da pornografia e até mesmo do sadomasoquismo, que aparentemente quebram tabus mas, na verdade, reduzem a sexualidade a meras sensações físicas vazias de significado e emoção. ( … )
(…) a sociedade que hoje se caracteriza como de consumo sexual, quando os homens vivem obcecados por seu desempenho e as mulheres por sua aparência, quando a invasão multimilionária da pornografia impregna a inteligência e o imaginário coletivo, certamente essa sociedade não corresponde ao que sonharam as feministas históricas.
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— o feminismo não pretende instaurar uma ginecocracia ou restaurar o matriarcado, que, de acordo com a moderna antropologia, jamais teria assumido o caráter autoritário que o patriarcado assumiu. Admitindo-se que as mulheres querem e eventualmente poderão atingir também o poder, isso não significa que pretendam dominá-lo, mas sim partilhá-lo em termos iguais e justos. Não precisamos de muita imaginação para conjecturar que o controle da vida social compartilhado entre homens e mulheres haveria de mudar nosso próprio conceito de poder. Mas as imagens de míticas amazonas em guerra, para usurpar o o poder dos homens e escravizá-los ainda alimentam as fantasias daqueles que temem perder seus privilégios.
O que torna o movimento feminista ameaçador para a maioria dos homens é a ideia de que a cada conquista feminina possa corresponder uma derrota masculina, como observou Sheila Rowbotham. No jogo de ganhar ou perder da sociedade competitiva é difícil admitir-se que a reivindicação de direitos feita pelas mulheres não implica necessariamente na contestação dos direitos dos homens. Precisamos distinguir, no entanto, direito de privilégio. Na verdade, o que os homens mais temem é perder os privilégios conquistados, esses sim, graças à dominação , opressão e inferiorização imposta às mulheres ao longo dos séculos.
… as mulheres em luta pela cidadania não combatem os homens enquanto homens, mas enquanto opressores sexistas. Como poderiam as feministas, que denunciam e condenam o sexismo, porque o consideram a base ou o princípio de todas as dominações, tornarem-se, por sua vez. sexistas?
[…]
A luta feminista prenuncia o advento de uma nova era. Juntos, as mulheres, os jovens, os que defendem a natureza e os que lutam pela paz, os negros e os homossexuais, todos os oprimidos, com as crianças e com os poetas, são os artífices do futuro, de um novo renascimento, de uma possível epifania.
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*Este post resulta da junção de excertos da obra homónima. O primeiro excerto é retirado do prefácio à segunda edição da referida obra. Esta operação foi feita sob orientação da autora.
